20090618

Paris, França

Muito antes do verbo encher todo o grande vazio, um ponto de luz  tinha já metido um requerimento formal para a iluminação em tempo parcial de alguns sectores. Problemas burocráticos, influências ou mero acaso (para mencionar apenas 3 das 4 situações possíveis) levaram a que o pedido fosse negligenciado em prol de um negrume total defendido por um grupo de gente sem qualquer tipo de visão, que defendia a inutilidade de iluminar um local ainda sem projecto de desenvolvimento aprovado. Curiosamente, de um dia para o outro, fez-se luz. (resta saber que garantias pode dar uma obra feita assim em cima do joelho)

20090609

Paris, França Ingrata! É o que acontece quando se dá tanta liberdade á imaginação. Nunca mais lhe pomos as vistas em cima. É certo que qualquer pedaço de imaginação pisado por um par de olhos fica quebradiço e esfarela todo ao fim de poucos segundos. Mas perder uma imaginação em óptimo estado sem lhe ter dado ainda qualquer tipo de uso é, no mínimo, imoral, considerando que tanta boa gente por esse mundo fora nunca teve a oportunidade de imaginar o que quer que fosse. Depois podemos sempre divagar mas acabamos invariavelmente num beco sem saída. E um beco sem saída é um lugar muito desconfortável. É que um beco sem saída, não tem saída. Só entrada, imaginem.

20090606

Odemira, Portugal Xiaomachang Wuqiao ficou sem rede. Preocupado, mudou várias vezes de posição, deu algumas voltas pelo recinto, levantou os braços, mas tudo em vão. Cautelosamente entrou em pânico; com tudo o que ainda tinha para fazer, perder aquele contacto podia ser fatal. As suas mãos começaram a suar abundantemente. Nesse preciso momento, deixou escapar a barra do trapézio. O circo, perdeu a licença.

20090603

Pedreira de s'Hostal, Menorca O responsável da firma entrou na reunião mensal de apresentação de contas com as entranhas revoltas. A princípio atribuiu essa incomodativa sensação de ter alugado os intestinos a um bando de forcados ao facto de ter andado a comer o pão que o diabo amassou. - Nãa... - exclamou, e afastou de imediato essa ideia ao se lembrar das excelentes referências que tinha daqueles deliciosos pãezinhos integrais de semente de sésamo, milho e girassol cozidos em forno de lenha. E, alem disso, mantinha as melhores relações com o diabo, estabelecido desde 1816 na antiga Viela das Pombas. (Nota: poucas semanas depois deste acontecimento, as relações entre o responsável da firma e o diabo foram levadas a público por um conhecido diário nacional o que levou ao encerramento do estabelecimento da antiga Viela das Pombas; o diabo anda a monte.)

20090529

Kairouan, Tunísia Entrei descalço. Enrolado na cintura, um pano longo, usado por muitos, disfarçava a falta de fé. O chão, morno e bafiento, dava aos passos um silêncio desconfortável. Rapidamente fui levado por pátios curtos e lanços de escadas sem degraus enquanto era impudicamente envolvido por tecidos húmidos em busca de calor. A nossa passagem era displicentemente seguida por olhares que cumpriam tarefas. Caminhamos assim por quatorze dias e dezasseis noites. Violentamente fui empurrado por uma pesada porta ornamentada e caí de joelhos no interior de uma sala asfixiante. A toda a volta centenas de milhares de sapatos erguiam-se em paredes desconcertantes. O próprio tecto era uma teia de sandálias penduradas em cordões de pele. O cheiro a animal era profundo. Tinha chegado ao meu destino. Só me perguntava como iria sair dali calçado.

20090526

Tamerza, Tunísia O projeccionista estava prestes a ficar sem a sua última pinga de sangue. Aquela gota preciosa tinha-a ele guardado para um momento especial. Mas agora era inevitável. Ia perdê-la. Desesperado, desatou a comer os doces mais escandalosos numa tentativa de entupir as poucas artérias ainda em funcionamento e assim não deixar escapar os preciosos glóbulos. Ao mesmo tempo, envolveu-se em película aderente de marca branca dos pés à cabeça. Quando o filme teve o seu clímax mórbido, o projeccionista já se encontrava no chão sufocado pelo seu próprio vómito de açucares.

20090516

Matmata (Tatooine), Tunísia A longa coluna de grafismos deixava para trás um rasto de pictogramas indecifrável no lay-out agreste da paisagem. Pelo caminho, alguns símbolos mais antigos e uma ou outra marca menos eficaz deixavam-se ficar, agonizantes, orgulhosamente à espera da perda total de reconhecimento. Fontes completamente secas exibiam os seus corpos ilegíveis numa tentativa fútil de acompanhar a pouca sinalética ainda em condições de fazer algum sentido. Ao acaso destacavam-se alguns 'highlights' completamente datados que murmuravam, sem nexo, promoções antigas. Mais afastados, numa elevação do terreno, um pequeno grupo de logotipos rezava em silêncio por um 'restyling'.

20090512

Reserva da Jaqueira, Porto Seguro, Brasil O administrador tomou as competências e, uma vez mais, analisou-as em profundidade. Considerou todas as valências dos pressupostos envolvidos e colocou, da melhor forma, os parâmetros de confidencialidade na mesa ao mesmo tempo que validava a dinâmica adequada para tornar o processo mais expedito. Implementados a montante os procedimentos iniciais preparou-se para agendar uma análise posterior mais detalhada. Subitamente ouviu o seu nome gritado em altos berros. Num ápice, largou a fantasia corporativa e correu a lanchar o seu pãozinho com Tulicreme.

Arraial d'Ajuda, Brasil

Lemuel Gulliver devia ser extremamente baixo. Quem passava por ele nas margens do Liffey frequentemente lhe pontapeava as orelhas por distracção. No entanto, nunca nada disto foi documentado podendo mesmo ser atribuído a intrigas de gente muito baixa. Inquestionável é que Lemuel sofria de uma surdez incomodativa e alguém tinha de tentar explicar isso.

20090510

Sepilok, Bornéu, Malásia - Tento evitar o contacto visual sempre que possível. É só para arranjar chatices. Já tocaram numa córnea gelatinosa de alguém com os dedos cheios de migalhas? Ou mesmo sentir uma pupila cheia de lágrimas com mãos de mudar o óleo do carro? É perfeitamente dispensável. Os óculos nunca foram solução. Quando em contacto aleijam a cana do nariz, deformam as orelhas e muitas vezes partem, enfiando pedaços cheios de dioptrias pelos cristalinos adentro, contaminando o humor vítreo e obrigando a intervenções cirúrgicas dispendiosas. Ando seriamente a pensar em comprar umas luvas de camurça com forro em pied de poule.
Florença, Itália Era uma vez um homem só, que vivia num país cheio de uma língua muito distante da sua. A toda a volta encostavam-se muros apertados que coavam as vozes da sua terra. Mesmo as suas memórias gritavam cada vez mais baixo, de tão mudas. O homem só, gasto de tanto silêncio, deixou de ouvir. E de falar. Foi então que, a meio de um gesto, deixou de se ver. E ficou ali, vazio, mão estendida.

20090504

São Miguel, Açores Guernica, segundo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde Salgado Pardo de Andrade.

20090501


Bangkok, Tailândia

Farto de ouvir os males do mundo, o ser divino fez ouvidos de mercador. Em seguida escolheu um par de orelhas a condizer, estilo agiota, e olhou-se ao espelho. Mas, etéreo como era, nenhuma imagem foi reflectida.

20090430

Ordino, Andorra A caminho de casa o jovem super-herói não cabia em si de contente. Parava constantemente para recolher os seus pedaços que, com a excitação, iam caindo pela berma. Os habitantes da aldeia entreolhavam-se e murmuravam entre dentes, mas isso é coisa que os habitantes das aldeias costumam fazer. De qualquer modo o jovem super-herói continuava a caminho de casa, alheio a tudo e a todos. Tinha finalmente descoberto o seu super-poder. Projectava sombras! Projectava sombras sobre tudo. Logo de manhã é que era, o seu poder estava no auge. A sombra era projectada a distâncias incríveis escurecendo tudo à sua passagem. Com o passar da manhã ia diminuindo, até que a meio do dia praticamente só conseguia projectar uns centímetros de penumbra. Cansaço, pensava ele. Dormia então uma sesta e durante o correr da tarde via com orgulho o seu poder a crescer novamente, levando as sombras ao infinito. Á semelhança de tantos outros meninos prodígio, acabou como 'abat-jour' num motel de categoria duvidosa.

20090427


Piódão, Portugal

O homem olhava fixamente a tela a uma distância correctamente calculada a partir das dimensões da peça, técnica utilizada e condições de luz do momento. Olhava-a, também, seguindo as mais rigorosas regras da etiqueta de galeria, não esquecendo uma quase imperceptível inclinação da cabeça e um displicente colocar dos dedos indicador e médio sobre os lábios. Era perfeito. O mais distraído dos visitantes não podia deixar de se sentir um verdadeiro idiota, perante tal relação de cumplicidade. Homem e tela eram um só, descodificando conceitos e libertando metáforas. Parecia ter passado uma eternidade naquela posição, quando o fiel cão-guia se roçou nas suas pernas dando-lhe o sinal esperado. Aliviado o homem agarrou a trela e deixou-se levar.
Gerês, Portugal A comunidade de saltimbancos vivia momentos particularmente difíceis. Desde que o homem mais forte do mundo os tinha deixado que a falta de segurança no acampamento originava um verdadeiro êxodo de especialidades. Até o velho engolidor de espadas se limitava a baionetas, pelo sim, pelo não. Curiosamente só os equilibristas teimavam em ficar. Imóveis, nas posições mais incríveis, sustinham, sem oscilações, os objectos mais improváveis. Sem auxiliares para apararem graciosamente a queda dos objectos e plenamente conscientes da sua capacidade física e mental para manterem uma exibição por tempo indeterminado, esperavam impávidos e serenos que os companheiros desistissem e provar assim a sua supremacia. Ora isto não ajudava em nada a manutenção do acampamento que acabou por, também ela, ir embora.

20090426

Pompeia, Itália

O aviso chegou demasiado tarde. Pelo aspecto tinha passado mais uma noite na pândega a alimentar uma cirrose hepática promissora. Ultimamente isto acontecia demasiadas vezes para alguém com tantas responsabilidades. É claro que quem se aproveitava disto era a surpresa, que conseguia, assim, apanhar tudo e todos. Mas desta vez as consequências da sua falta foram demasiado graves e o aviso, numa reacção desesperada, pegou numa mão cheia de incógnitas e suicidou-se. E agora?

20090419

Meteora, Grécia Tudo o que eu já vi, desfez-me. Vivi de coração esmagado, apertado por gente mais dura do que eu. Hoje já não distingo quem vem lá de baixo. São muitos, indiferentes e trilham caminhos largos. Muito mais do que outrora preciso de refúgio, de estar perto do céu. Não espero que alguém me ouça, rezo, sim, pelo esquecimento.

20090418

Helsínquia, Finlândia Jean S. olhou para cima num misto de apreensão e temor. Pode-se mesmo dizer que olhou para cima com apreensor. O céu apresentava-se carregado e ás rodelas, o que não é, de todo, a maneira mais educada de se apresentar. Já há algumas horas que Jean S. estudava as inúmeras saídas possíveis e uma coisa era certa: o êxito da fuga dependia da ausência de hesitações. Chamando a si todas as suas forças, instruiu-as nos diferentes caminhos que cada uma deveria tomar. Colocou-se então num ponto exacto, por baixo de uma das maiores rodelas de céu, e pensou - Mais uma, pela pátria. Então, encolheu-se no dó menor que conseguiu imaginar e impulsionou-se numa ascendente vertiginosa. Só foi pena a sensação de náusea com que ficou o resto do dia.

20090414

Lisboa, Portugal A pobre tartaruga-verde não sabia para onde se virar. Felizmente reparou que o liquidificador era 'amigo do ambiente'.

20090411

Lisboa, Portugal O velho cinzelador sentiu uma guinada na zona do metacarpo da sua melhor mão, a direita. Como tinha já fracturado o escafóide, em miúdo, largou de imediato o cinzel de aço e soltou um 'éh, lá' cuidadoso. Desanimado, massajou a mão dormente enquanto olhava para o pássaro que ganhava forma na sua bancada. - Se ao menos esculpisse um raio d'um gato - resmungou enquanto as pombas picavam violentamente o tecto de fibrocimento do atelier.