Sidney, Austrália
No aviso lia-se: "Por favor sintam a relva debaixo dos vossos pés, abracem as árvores e afaguem as flores, deixem o musgo das pedras quentes fazerem-vos cócegas no nariz e, acima de tudo, sujem-se de verde."
Isto deixou-me de pé atrás, não era coisa de gente séria. Resolutamente lancei o outro pé também para trás e caí na relva a rir como um perdido.
20090721
Sidney, Austrália
No aviso lia-se: "Por favor sintam a relva debaixo dos vossos pés, abracem as árvores e afaguem as flores, deixem o musgo das pedras quentes fazerem-vos cócegas no nariz e, acima de tudo, sujem-se de verde."
Isto deixou-me de pé atrás, não era coisa de gente séria. Resolutamente lancei o outro pé também para trás e caí na relva a rir como um perdido.
20090720
Tóquio, Japão (foto Rute Lucas)
O purgatório de Jingu Bashi era muito bem frequentado. Os seus estádios de purificação eram dos mais conceituados e davam acesso garantido ao paraíso de Meiji Jingu.
As almas aí presentes, depois de muito bem lavadas com soda cáustica eram postas a secar ao sol nascente e posteriormente passadas a pente fino adquirindo assim aquele aspecto desfrisado celestial. E não se pense que era utilizado um qualquer pente de fancaria ou desfrisador mecânico em tão ilustre tarefa. Apenas uma selecção criteriosa de conchas de choco Sepia Officinalis era utilizada na confecção destes penteadores, minuciosamente trabalhados em finos dentes.
As almas, assim fluídas, eram tomadas por redemoinhos de bons ventos e enviadas para os organismos competentes para certificação.
20090717
20090714
20090713
Matosinhos, PortugalA vaga de calor galgou os dois lanços de escadas e entrou, deixando todos encharcados em suor. O ar, acorrentado, tornou-se pegajoso e mal-disposto. Um a um, caíram como tordos. Lá fora, os tordos caíam como gente grande. As ventoinhas olhavam de um lado para o outro, desesperadas. O corpo dos bombeiros jazia imóvel no chão.
20090712
Sardenha, Itália
Numa das suas típicas caminhadas pós-almoço domingueiro o funcionário público teve uma epifania, mais literária que religiosa, que lhe provocou um calafrio. Assim sem mais nem menos teve consciência de que cada um dos seus passos era mecanicamente repetido, simétrica e alternadamente. O mesmo movimento passo após passo, passeio após passeio, mantinha-o, á vários anos, numa monótona linha recta de pensamento. Chorou convulsivamente durante sete passos mais e, antes de repetir o oitavo, tomou a decisão que iria mudar por completo a sua vida: a partir do seu próximo passo iria ser a pessoa mais assimétrica a caminhar à face da terra; todo ele seria um modelo de desequilíbrio.
Daí em diante só caminhava apoiado em partes do corpo alternadas, pé, joelho, orelha, omoplata, e por aí em diante. E não se ficou pelo andar. Começou a nadar contra a corrente, a comer com os olhos, a falar pelos cotovelos e a pensar com a barriga. Sentia-se completamente diferente de tudo e de todos. Feliz.
Inexplicavelmente, quando chegou à repartição onde trabalhava, vestido com uma salada de arenque e tampas de corrector e se sentou no arquivo morto para começar o seu dia a enrolar fita-cola de dupla face, o único comentário que ouviu dos seus colegas foi devastador: "És sempre o mesmo!"
20090709
20090705
Lençóis, Chapada Diamantina, Brasil
A noite sentia-se particularmente contrariada. Como se não bastasse a pouca imparcialidade em chamar 'dia' às 24 horas que compunham os iguais períodos de luz e escuridão, as horas preciosas em que impunha o seu domínio eram cada vez mais esventradas por desrespeitadoras luzes construídas. E ainda por cima chamavam-lhe a si, noite profunda, 'ausência de luz'. Como se não tivesse conquistado por mérito próprio, o direito ao seu nome: noite.
Não saberiam todos que a luz é meramente um conjunto mínimo de acidentes pontuais no imenso manto de breu que é o universo infinito? Ausência de noite, é o que a luz é. Pequenos laivos de bondade nocturna, ocasionais aberturas de pálpebras.
E continuou nisto toda a noite, a noite, de tão ressabiada que se sentia.
Pouco depois, cansada, acordou.
Masai Mara, Quénia
Ole Odhiambo seguia, satisfeito da vida, pedalando na sua velha bicicleta de ferro. Estava só, como gostava de estar quando pedalava, e o sol generoso revia-se no seu manto carmim. Era algo digno de se ver, aquele homem que rasgava o silêncio da savana com o seu enorme sorriso. Seria pela curva demasiado apertada ou pelo excesso de confiança e velocidade, o que é certo é que aconteceu o que descrevemos a seguir.
Um solitário e descomunal elefante africano macho abanava as orelhas com impaciência bem no meio do trilho. Agastado, encontrava-se em plena época de cio sem uma única fêmea nas redondezas. A colisão era inevitável, mesmo que ainda tivesse travões. Ole Odhiambo saltou do selim, lançando-se nos braços de uma acácia. A velha bicicleta de ferro não teve a mesma sorte. O elefante, violentamente abalroado, ficou perdidamente apaixonado pelo velocípede (que sabemos ser 'de senhora') e desapareceu com ele pela vegetação. Ainda hoje as fogueiras ouvem histórias do elefante e da sua bicicleta.
Ole Odhiambo faz agora o trajecto de 12 quilómetros entre a sua aldeia e o eco-resort de luxo onde trabalha, a pé.
Esta história aconteceu mesmo, ainda que possa não ter sido exactamente assim.
20090618
Paris, FrançaMuito antes do verbo encher todo o grande vazio, um ponto de luz tinha já metido um requerimento formal para a iluminação em tempo parcial de alguns sectores. Problemas burocráticos, influências ou mero acaso (para mencionar apenas 3 das 4 situações possíveis) levaram a que o pedido fosse negligenciado em prol de um negrume total defendido por um grupo de gente sem qualquer tipo de visão, que defendia a inutilidade de iluminar um local ainda sem projecto de desenvolvimento aprovado. Curiosamente, de um dia para o outro, fez-se luz. (resta saber que garantias pode dar uma obra feita assim em cima do joelho)
20090609
Paris, França
Ingrata! É o que acontece quando se dá tanta liberdade á imaginação. Nunca mais lhe pomos as vistas em cima. É certo que qualquer pedaço de imaginação pisado por um par de olhos fica quebradiço e esfarela todo ao fim de poucos segundos. Mas perder uma imaginação em óptimo estado sem lhe ter dado ainda qualquer tipo de uso é, no mínimo, imoral, considerando que tanta boa gente por esse mundo fora nunca teve a oportunidade de imaginar o que quer que fosse.
Depois podemos sempre divagar mas acabamos invariavelmente num beco sem saída. E um beco sem saída é um lugar muito desconfortável.
É que um beco sem saída, não tem saída. Só entrada, imaginem.
20090606
Odemira, Portugal
Xiaomachang Wuqiao ficou sem rede. Preocupado, mudou várias vezes de posição, deu algumas voltas pelo recinto, levantou os braços, mas tudo em vão. Cautelosamente entrou em pânico; com tudo o que ainda tinha para fazer, perder aquele contacto podia ser fatal. As suas mãos começaram a suar abundantemente. Nesse preciso momento, deixou escapar a barra do trapézio.
O circo, perdeu a licença.
20090603
Pedreira de s'Hostal, Menorca
O responsável da firma entrou na reunião mensal de apresentação de contas com as entranhas revoltas. A princípio atribuiu essa incomodativa sensação de ter alugado os intestinos a um bando de forcados ao facto de ter andado a comer o pão que o diabo amassou.
- Nãa... - exclamou, e afastou de imediato essa ideia ao se lembrar das excelentes referências que tinha daqueles deliciosos pãezinhos integrais de semente de sésamo, milho e girassol cozidos em forno de lenha. E, alem disso, mantinha as melhores relações com o diabo, estabelecido desde 1816 na antiga Viela das Pombas.
(Nota: poucas semanas depois deste acontecimento, as relações entre o responsável da firma e o diabo foram levadas a público por um conhecido diário nacional o que levou ao encerramento do estabelecimento da antiga Viela das Pombas; o diabo anda a monte.)
20090529
Kairouan, Tunísia
Entrei descalço. Enrolado na cintura, um pano longo, usado por muitos, disfarçava a falta de fé. O chão, morno e bafiento, dava aos passos um silêncio desconfortável. Rapidamente fui levado por pátios curtos e lanços de escadas sem degraus enquanto era impudicamente envolvido por tecidos húmidos em busca de calor. A nossa passagem era displicentemente seguida por olhares que cumpriam tarefas.
Caminhamos assim por quatorze dias e dezasseis noites.
Violentamente fui empurrado por uma pesada porta ornamentada e caí de joelhos no interior de uma sala asfixiante. A toda a volta centenas de milhares de sapatos erguiam-se em paredes desconcertantes. O próprio tecto era uma teia de sandálias penduradas em cordões de pele. O cheiro a animal era profundo. Tinha chegado ao meu destino. Só me perguntava como iria sair dali calçado.
20090526
Tamerza, Tunísia
O projeccionista estava prestes a ficar sem a sua última pinga de sangue. Aquela gota preciosa tinha-a ele guardado para um momento especial. Mas agora era inevitável. Ia perdê-la.
Desesperado, desatou a comer os doces mais escandalosos numa tentativa de entupir as poucas artérias ainda em funcionamento e assim não deixar escapar os preciosos glóbulos. Ao mesmo tempo, envolveu-se em película aderente de marca branca dos pés à cabeça.
Quando o filme teve o seu clímax mórbido, o projeccionista já se encontrava no chão sufocado pelo seu próprio vómito de açucares.
20090516
Matmata (Tatooine), Tunísia
A longa coluna de grafismos deixava para trás um rasto de pictogramas indecifrável no lay-out agreste da paisagem. Pelo caminho, alguns símbolos mais antigos e uma ou outra marca menos eficaz deixavam-se ficar, agonizantes, orgulhosamente à espera da perda total de reconhecimento.
Fontes completamente secas exibiam os seus corpos ilegíveis numa tentativa fútil de acompanhar a pouca sinalética ainda em condições de fazer algum sentido. Ao acaso destacavam-se alguns 'highlights' completamente datados que murmuravam, sem nexo, promoções antigas.
Mais afastados, numa elevação do terreno, um pequeno grupo de logotipos rezava em silêncio por um 'restyling'.
20090512
Reserva da Jaqueira, Porto Seguro, Brasil
O administrador tomou as competências e, uma vez mais, analisou-as em profundidade. Considerou todas as valências dos pressupostos envolvidos e colocou, da melhor forma, os parâmetros de confidencialidade na mesa ao mesmo tempo que validava a dinâmica adequada para tornar o processo mais expedito.
Implementados a montante os procedimentos iniciais preparou-se para agendar uma análise posterior mais detalhada.
Subitamente ouviu o seu nome gritado em altos berros.
Num ápice, largou a fantasia corporativa e correu a lanchar o seu pãozinho com Tulicreme.

Arraial d'Ajuda, Brasil
Lemuel Gulliver devia ser extremamente baixo. Quem passava por ele nas margens do Liffey frequentemente lhe pontapeava as orelhas por distracção. No entanto, nunca nada disto foi documentado podendo mesmo ser atribuído a intrigas de gente muito baixa. Inquestionável é que Lemuel sofria de uma surdez incomodativa e alguém tinha de tentar explicar isso.
20090510
Sepilok, Bornéu, Malásia
- Tento evitar o contacto visual sempre que possível. É só para arranjar chatices. Já tocaram numa córnea gelatinosa de alguém com os dedos cheios de migalhas? Ou mesmo sentir uma pupila cheia de lágrimas com mãos de mudar o óleo do carro? É perfeitamente dispensável.
Os óculos nunca foram solução. Quando em contacto aleijam a cana do nariz, deformam as orelhas e muitas vezes partem, enfiando pedaços cheios de dioptrias pelos cristalinos adentro, contaminando o humor vítreo e obrigando a intervenções cirúrgicas dispendiosas.
Ando seriamente a pensar em comprar umas luvas de camurça com forro em pied de poule.
Florença, Itália
Era uma vez um homem só, que vivia num país cheio de uma língua muito distante da sua.
A toda a volta encostavam-se muros apertados que coavam as vozes da sua terra. Mesmo as suas memórias gritavam cada vez mais baixo, de tão mudas.
O homem só, gasto de tanto silêncio, deixou de ouvir. E de falar.
Foi então que, a meio de um gesto, deixou de se ver.
E ficou ali, vazio, mão estendida.
20090504
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