20090920

Ordino, Principado de Andorra As catenárias estalavam como látegos nervosos nos costados da composição mantendo-a firme na bitola de via larga. O condutor, à pendura na traseira, soltava impropérios aos transeuntes sob o olhar aterrorizado de dois fiscais que viajavam na última carruagem. As portas abriam e fechavam, ritmadas, afatiando o miolo de utentes que se lançava para o exterior. Os altifalantes, mudos como eunucos, entraram em manutenção. No interior do veículo, calmamente sentado à janela com as costas muito direitas, um jovem de óculos escuros lia, em Braille, uma história rocambolesca - "As catenárias estalavam como látegos nervosos nos costados da composição mantendo-a firme na bitola de via larga. O condutor, à pendura na traseira, soltava impropérios aos transeuntes sob o olhar aterrorizado de dois fiscais que viajavam na última carruagem. As portas abriam e fechavam, ritmadas, afatiando o miolo de utentes que se lançava para o exterior. Os altifalantes, mudos como eunucos, entraram em manutenção."

20090915

Milford Sound, Nova Zelândia Seja Bravo de Esmolfe, Reineta ou qualquer outra variedade menos comum, a maçã orgulha-se de ser encarada com a maior gravidade. O morango leviano ou o libertino damasco não são comparáveis a este fruto de trabalho sério. Quem mais, de modo tão brilhante e apaixonado, mostrou que uma queda esconde uma atracção irrefreável? Que os corpos se atraem? Que o amor choca? Um salto no vazio traz o coração à boca e faz amar a vida como nunca. O suicida arrepende-se e o radical suspira de alívio. Subtilmente e cheio de paixão, o próprio planeta cai. É por tudo isto que as maçãs apanhadas do chão são as mais saborosas.

20090911

Península de Otago, Nova Zelândia (foto Rute Lucas) A diminuta varanda triangular não era um local particularmente agradável. Baixa, excrescente de uma sobreloja, roçava o caótico da vida pública. Resignada a uma sombra de vizinhanças altivas, era depósito de beatas e aerossóis peganhentos. Em vão se procurava uma nesga de vista. Todo e qualquer transeunte juraria a pés juntos não existir ali mais do que uma fenda na fachada lisa, tal era a insignificância da sua dimensão. Dir-se-ia uma cilada retorcida de um arquitecto maldoso. No seu parapeito carcomido nunca se debruçou uma begónia ou sardinheira. Mesmo a lâmpada amarelenta, ignorada pelas falenas, fundiu-se. Local solitário e indiferente, esta varanda irreal era o espaço mais cheio de todo o piso vazio. Magnífico altar à relatividade das coisas, testemunhava em silêncio as mais díspares exalações humanas. Transpor a caixilharia anodizada e assomar-se ao seu peitoril era a mais libertária das emoções, tão esmagadas que estavam entre a loja e o primeiro piso. A exposição ao mundo livre, gerava arrepios de possibilidades e angústias de lucidez. A sós, era palco de solilóquios arrebatadores, juras e longas inspirações de exaustão. Menos sós eram as comunhões de ideais, as tramas e os risos. Vagas de emoções batiam-se naquela escarpa. Abnegada e aberta, a imensa varanda insuflava, em correntes, todo o ar que ali se respirava. Indiferentes a tudo, os cabelos esvoaçavam.

20090908

Glaciar Franz Josef, Nova Zelândia Um grupo de porteiros de hotel reunia-se em segredo, todas as segundas-feiras à noite, num conhecido barracão abandonado dos arredores da cidade. Sendo um dos não-lugares mais em voga do momento, era comum encontrar ali equipas de casting em sessões fotográficas, velhos párias embrulhados em cartão e mesmo alguns membros saudosos de grupos terroristas desactivados a ditarem as suas memórias. Ora sendo a segunda-feira o dia da semana em que, por norma, os restaurantes fecham e os museus encerram, o conhecido barracão abandonado estava, normalmente, à pinha, o que deixava sempre o grupo de porteiros de hotel que se reunia em segredo, bastante desconfortável. Não que alguém lhes dirigisse a palavra ou pousasse sequer um olhar mais inquisidor sobre os seus conluios. A situação confrangedora ocorria quando alguém se aproximava das instalações; de imediato um dos porteiros saía disparado e abria o empenado portão com um sorriso de boa noite. Após tão lamentável reacção era normal e esperado por todos que, ao cair em si, o fraco membro cometesse de imediato suicídio, colocando o portão entreaberto e deixando-se atingir corajosamente por uma violenta corrente de ar. O mais constrangedor foi que o desenvolvimento desta situação se tornou de tal modo repetitivo que o único resultado prático destas reuniões foi o de tornar o portão mais perro, pelo acumular de corpos na entrada, e reduzir o grupo secreto de porteiros de hotel a um velho reformado do Winter Palace, cego e surdo, que continuava a ditar os estatutos da associação.

20090830

Key Largo, Florida, EUA Numa praia agreste da costa norte um meteorologista foi sequestrado por um grupo de pára-ventos, segundo consta, com a chocante conivência de um guarda-sol de uma zona concessionada. Num comunicado vídeo enviado pelos perpetradores a uma estação de televisão local o meteorologista apresentava-se bastante desidratado, com sinais de queimaduras solares fortes, enquanto lia uma declaração onde dizia que se encontrava bem e que a previsão para os próximos dias seria de céu limpo, vento forte do quadrante norte ao longo de toda a faixa costeira com ondulação de nordeste de 3 a 4 metros.

20090825

Glaciar Fox, Nova Zelândia

A camisa branca, a sua favorita, estava sempre impecavelmente encorrilhada. Cada vinco, prega, dobra ou engelha escondia uma indiscrição. Nos sulcos profundos do linho cresciam rebentos de borboto irrigados pelo suor espesso. O tom era denso e texturado. No entanto, teimava que era branca. E camisa.
Tudo falso. Rapidamente se descobriu que era um embusteiro e que todos os improvisos que vestia já os tinha escrito antes em círculos de ficção.

20090810

Parque Nacional Abel Tasman, Nova Zelândia Logo após terem morto um conhecido actor de teatro e um cantor pop as notícias reduziram a cinzas uma parte considerável da mata atlântica brasileira. No mesmo instante flashes noticiosos fizeram explodir um acampamento das forças de manutenção da paz no Médio Oriente enquanto media locais destituíam um governo sul-americano e faziam cair em desgraça o líder da oposição. Entretanto a informação actualizada ia infectando dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo com o vírus letal. Pela hora do jantar um furo jornalístico fez explodir um avião russo de passageiros ao mesmo tempo que uma nota de rodapé condenava à fome um quinto da população do Sudão. A edição de fecho fazia nascer, num zoo da Califórnia, a primeira cria de panda albino.

20090805

Oamaru, Nova Zelândia Um homem, aparentando sessenta e muitos, caminhava pela rua há vários anos com um par de sapatos, tipo luva, na mão. O modo seguro e carinhoso com que pendurava os sapatos nos dedos médio e indicador dizia muito sobre o seu carácter determinado. Curiosamente este homem em mangas de camisa e calças de vinco estava calçado e teimava em caminhar sempre pela mesma rua. A rua, não querendo ficar atrás deste homem obstinado, prolongava-se há anos, continuamente, sempre uns metros à sua frente. Ao longo desta curiosa competição calada foram nascendo vivendas geminadas unifamiliares, notários, lojas de conveniência, esplanadas e penhoristas, todos com nomes associados à temática do calçado e da persistência. Chegou mesmo a notar-se algum movimento de apoio a este homem solitário. Uma senhora da classe alta acompanhou-o durante uma tarde segurando uns Louboutin e um grupo de Carmelitas Descalças seguiram-no em vigília, seguras apenas pela sua fé, até perceberem que o homem tinha um passo agnóstico. Indiferente a tudo isto e aproveitando um dia em que a brisa de leste passou a nortada, o homem parou, trocou de sapatos, segurou no par velho com o indicador e o dedo médio, voltou-se no sentido contrário com o vento pela frente para melhor arejar o calçado e encetou o seu novo caminho de volta. Apanhada de surpresa, a rua começou de imediato a recuar, obliterando assim toda a vida recém-construída que a ladeava.

20090804

Cairns, Australia (foto Rute Lucas) Os dois finalistas do popular concurso televisivo “TODOS OS MILHÕES QUE CONSEGUIR COMER À FRENTE DO SEU FILHO ENQUANTO ELE DESPERTA PARA SENTIMENTOS HOMOSEXUAIS” tinham ainda uma dura prova pela frente antes de atacarem o tão almejado prémio final. As regras eram simples. Os concorrentes eram deixados num local inóspito e desabitado, sem qualquer tipo de alimento ou toalhas de rosto, com o único objectivo de se convencerem mutuamente a desistir. Não era permitido qualquer tipo de contacto físico e, para dificultar a prova e tornar as coisas mais divertidas para os telespectadores lá em casa, cada um dos participantes só poderia comunicar no dialecto impronunciável que lhe seria indicado em envelope fechado. Tudo isto seria transmitido em directo, ininterruptamente, através de uma rede de câmaras montadas em locais dissimulados devidamente fiscalizados por três elementos soturnos do Governo Civil. Entretanto a novela ia começar. Mudei de canal.

20090729


Kata Tjuta, Austrália

Desde muito novo que Joseba se habituara à ideia de ter um corvo pousado no ombro. Durante o dia o pássaro pouco o incomodava. Mantinha-se discretamente empoleirado a olhar fixamente para o interior da sua orelha com um ar reprovador. À noite, mal Joseba adormecia de barriga para baixo, a ave negra mudava-se para o topo da sua omoplata, aproximava o bico aguçado da orelha sonolenta e soltava um excruciante crocito. Desde muito novo que Joseba passava as noites em claro desespero.
Uma noite, mais colérico do que nunca, o corvo aproximou demasiado o bico e furou-lhe o tímpano, ensanguentando a fronha. Desorientado e enjoado, Joseba regurgitou, um a um, todos os filhotes de corvo que tinha comido ao longo dos anos.

20090726

Uluru, Austrália À trinta e nove anos que Macquaire-Hage, actor antropólogo, procura os restos imortais de Deus. Na década de 80 iludiu-se com umas ovas de esturjão fossilizadas que viriam, mais tarde, a ser atribuídas a uma ceia tardia de Siddhartha Gautama. Já nos anos 90 ficou conhecido pela descoberta das famosas sementes petrificadas de Rambutan, desenterradas no deserto Núbio do Sudão, posteriormente identificadas, com grande pesar, como parte de uma merenda de viagem de Ibn Battuta. Entretanto, na vida real, Macquaire-Hage vive num mundo imaginário.

20090725

Sidney, Austrália Às nove da manhã o investigador privado apresentou-se - Venho da parte da tarde - disse, com a segurança de quem tem as costas quentes. A mulher pública, pouco impressionada com a temperatura das suas espaldas, retorquiu - Logo à tardinha irei receber um colega seu que vem da parte da manhã, o que me parece ser uma recomendação bastante mais adequada a este caso. Agastado, o investigador privado nacionalizou-se.

20090721

Barca d'Alva, Portugal

Educadamente, Paulino pegou numa palavra, uma das mais pequenas, e mordiscou-lhe a pontinha, uma vogal rechonchuda e sumarenta. Pelo canto da boca escorreu-lhe um fio de acentos que rapidamente lambeu.
- Nada mau. – pensou, enquanto cobiçava um pratinho de versículos conventuais.
À terceira lengalenga enfarinhada sentiu um pouco de bílis a vir-lhe à boca. Sôfrego, ainda arriscou umas quantas citações quentes com molho de verborreia. Nem teve tempo de chegar à casa de banho; vomitou no meio da sala uma notícia 'cor-de-rosa'.
Sidney, Austrália No aviso lia-se: "Por favor sintam a relva debaixo dos vossos pés, abracem as árvores e afaguem as flores, deixem o musgo das pedras quentes fazerem-vos cócegas no nariz e, acima de tudo, sujem-se de verde." Isto deixou-me de pé atrás, não era coisa de gente séria. Resolutamente lancei o outro pé também para trás e caí na relva a rir como um perdido.

20090720

Tóquio, Japão (foto Rute Lucas) O purgatório de Jingu Bashi era muito bem frequentado. Os seus estádios de purificação eram dos mais conceituados e davam acesso garantido ao paraíso de Meiji Jingu. As almas aí presentes, depois de muito bem lavadas com soda cáustica eram postas a secar ao sol nascente e posteriormente passadas a pente fino adquirindo assim aquele aspecto desfrisado celestial. E não se pense que era utilizado um qualquer pente de fancaria ou desfrisador mecânico em tão ilustre tarefa. Apenas uma selecção criteriosa de conchas de choco Sepia Officinalis era utilizada na confecção destes penteadores, minuciosamente trabalhados em finos dentes. As almas, assim fluídas, eram tomadas por redemoinhos de bons ventos e enviadas para os organismos competentes para certificação.

20090717

Hakonen, Japão Andei à sua volta deixando, curioso, que os meus dedos toquem a sua pele negra. Confiei-lhe tudo. Partimos juntos. Agora passa por mim, provocadora e trocista, uma, outra e outra vez, tão desalinhada pelas cambalhotas dadas que não a reconheço. Desesperado, eu só quero é a mala.

20090714

Porto, Portugal Acordou mudo de um pesadelo mudo com a boca cheia de gritos. Aos pés da cama, o gato sorria com a (sua) língua ainda de fora.

20090713

Matosinhos, Portugal

A vaga de calor galgou os dois lanços de escadas e entrou, deixando todos encharcados em suor. O ar, acorrentado, tornou-se pegajoso e mal-disposto. Um a um, caíram como tordos. Lá fora, os tordos caíam como gente grande. As ventoinhas olhavam de um lado para o outro, desesperadas. O corpo dos bombeiros jazia imóvel no chão.

20090712

Sardenha, Itália Numa das suas típicas caminhadas pós-almoço domingueiro o funcionário público teve uma epifania, mais literária que religiosa, que lhe provocou um calafrio. Assim sem mais nem menos teve consciência de que cada um dos seus passos era mecanicamente repetido, simétrica e alternadamente. O mesmo movimento passo após passo, passeio após passeio, mantinha-o, á vários anos, numa monótona linha recta de pensamento. Chorou convulsivamente durante sete passos mais e, antes de repetir o oitavo, tomou a decisão que iria mudar por completo a sua vida: a partir do seu próximo passo iria ser a pessoa mais assimétrica a caminhar à face da terra; todo ele seria um modelo de desequilíbrio. Daí em diante só caminhava apoiado em partes do corpo alternadas, pé, joelho, orelha, omoplata, e por aí em diante. E não se ficou pelo andar. Começou a nadar contra a corrente, a comer com os olhos, a falar pelos cotovelos e a pensar com a barriga. Sentia-se completamente diferente de tudo e de todos. Feliz. Inexplicavelmente, quando chegou à repartição onde trabalhava, vestido com uma salada de arenque e tampas de corrector e se sentou no arquivo morto para começar o seu dia a enrolar fita-cola de dupla face, o único comentário que ouviu dos seus colegas foi devastador: "És sempre o mesmo!"

20090709

Masai Mara, Quénia - Raio de azar, - murmurou entre dentes quando percebeu que aquela ia ser a sua última ceia - nunca mais marco mesa para 13.

20090705

Lençóis, Chapada Diamantina, Brasil A noite sentia-se particularmente contrariada. Como se não bastasse a pouca imparcialidade em chamar 'dia' às 24 horas que compunham os iguais períodos de luz e escuridão, as horas preciosas em que impunha o seu domínio eram cada vez mais esventradas por desrespeitadoras luzes construídas. E ainda por cima chamavam-lhe a si, noite profunda, 'ausência de luz'. Como se não tivesse conquistado por mérito próprio, o direito ao seu nome: noite. Não saberiam todos que a luz é meramente um conjunto mínimo de acidentes pontuais no imenso manto de breu que é o universo infinito? Ausência de noite, é o que a luz é. Pequenos laivos de bondade nocturna, ocasionais aberturas de pálpebras. E continuou nisto toda a noite, a noite, de tão ressabiada que se sentia. Pouco depois, cansada, acordou.
Masai Mara, Quénia

Ole Odhiambo seguia, satisfeito da vida, pedalando na sua velha bicicleta de ferro. Estava só, como gostava de estar quando pedalava, e o sol generoso revia-se no seu manto carmim. Era algo digno de se ver, aquele homem que rasgava o silêncio da savana com o seu enorme sorriso. Seria pela curva demasiado apertada ou pelo excesso de confiança e velocidade, o que é certo é que aconteceu o que descrevemos a seguir.
Um solitário e descomunal elefante africano macho abanava as orelhas com impaciência bem no meio do trilho. Agastado, encontrava-se em plena época de cio sem uma única fêmea nas redondezas. A colisão era inevitável, mesmo que ainda tivesse travões. Ole Odhiambo saltou do selim, lançando-se nos braços de uma acácia. A velha bicicleta de ferro não teve a mesma sorte. O elefante, violentamente abalroado, ficou perdidamente apaixonado pelo velocípede (que sabemos ser 'de senhora') e desapareceu com ele pela vegetação. Ainda hoje as fogueiras ouvem histórias do elefante e da sua bicicleta.
Ole Odhiambo faz agora o trajecto de 12 quilómetros entre a sua aldeia e o eco-resort de luxo onde trabalha, a pé.
Esta história aconteceu mesmo, ainda que possa não ter sido exactamente assim.