Chapada Diamantina, Brasil
Três gerações cantavam, juntas, o mesmo tema. As mesmas palavras davam lustro às três línguas e fechavam-lhes os olhos humedecidos de prazer. Graves, os sons investiam crus contra aqueles três peitos abertos, remexendo com rudeza as débeis vísceras desatentas.
Estavam sós de cada um, no meio da horda; mas ondulavam como um só. O ritmo que lhes dava corda podia ser o mesmo mas o tom que os manipulava não podia ser mais dissonante.
O velho, sentia as pancadas de um bombo que lhe reanimava o coração de outrora enquanto cerrava os olhos às luzes fortes que o começavam a puxar. O adulto, vestia amuletos de sangue novo e exorcizava medos velhos. O jovem, sôfrego pelas vidas gastas que o rodeavam, envelhecia a cada pose.
Dormentes pelo sofrimento atroz que lhes causava cada passo, a banda punia a multidão com aguilhoadas de coisas irrepetíveis.
20091120
Chapada Diamantina, Brasil
Três gerações cantavam, juntas, o mesmo tema. As mesmas palavras davam lustro às três línguas e fechavam-lhes os olhos humedecidos de prazer. Graves, os sons investiam crus contra aqueles três peitos abertos, remexendo com rudeza as débeis vísceras desatentas.
Estavam sós de cada um, no meio da horda; mas ondulavam como um só. O ritmo que lhes dava corda podia ser o mesmo mas o tom que os manipulava não podia ser mais dissonante.
O velho, sentia as pancadas de um bombo que lhe reanimava o coração de outrora enquanto cerrava os olhos às luzes fortes que o começavam a puxar. O adulto, vestia amuletos de sangue novo e exorcizava medos velhos. O jovem, sôfrego pelas vidas gastas que o rodeavam, envelhecia a cada pose.
Dormentes pelo sofrimento atroz que lhes causava cada passo, a banda punia a multidão com aguilhoadas de coisas irrepetíveis.
20091022
MoMA, Nova Iorque, EUA
Àquela distância, as pessoas pareciam formigas; as formigas pareciam baratas tontas; as baratas, propriamente ditas, irritadas com o comportamento insultuoso das formigas, ficaram piores que um urso; pior que um urso, na perspectiva de uma foca comum sem grandes habilitações ou estatuto social, só mesmo uma baleia assassina; ora, as baleias, que levam muito a peito este tipo de maledicências, passaram o resto da tarde em cânticos lúgubres, capazes de acordar um morto; os mortos, estremunhados, descompuseram coroas, desalinharam lápides e ficaram com um humor de cão, para o resto da eternidade; o pobre cão, privado da originalidade do humor, ganha-pão das suas noites burlescas, tornou-se cinzento; a paleta de cores, incomodada com o ganir do cinza, refugiou-se na cúpula mais alta da catedral e comentou:
- Curioso, a esta distância as pessoas parecem formigas.
20091014
Düsseldorf, Alemanha
A mosca-varejeira arregalou cada um dos seus mil e seiscentos omatídios enquanto pairava elegantemente no ar da pastelaria Ribeiro. Tanto inchou de gula que o seu tom verde-metálico chamou a atenção do pasteleiro-chefe. Tomando-a por uma das suas levíssimas cerejas verdes de Delémont, envolveu-a numa calda de açúcar e depositou-a com muito cuidado no topo da Bavaroise de damascos. De imediato fechou o frasco de vidro antes que o resto das frutas começasse a gravitar pela sua cozinha. Foi então que notou o pequeno mirtilo que desfiava uma teia no canto do tecto - Certamente de alcaçuz. - pensou alegremente enquanto se apressava a untar uma forma de tarte.
20090930
MoMA, Nova Iorque, EUA
O homem, lívido, entrou de rompante na sala de espera. Como seria de esperar, imobilizou-se de imediato. No seu interior, não o do homem (que era bastante peculiar uma vez que possuía três rins) mas o da sala, já se encontravam algumas pessoas, um ou outro animal selvagem e várias promulgações importantes. Todos também parados, à espera.
A sala, de uns cinco por cinco metros, dir-se-ia quadrada não fossem as quatro portas de canto darem-lhe um ilusório aspecto octogonal. No seu exterior imaginam-se a rodeá-la corredores amplos, iluminados a fluorescentes de 6.000 kelvins, imaculadamente mantidos por uma conceituada empresa de manutenção.
O homem, ainda lívido mas agora num tom mais para o antracite-violáceo, enquanto esperava analisava o seu ângulo de visão: mesmo à sua frente esperava um belo tigre-de-bengala branco, praticamente extinto, numa ridícula posição circense; logo atrás um estafeta de uma companhia de transportes ibérica esperava, encurralado por três decretos-lei bastante mais velhos do que ele; à direita destes, já a sair do seu campo de visão, percebia parte de uma saia travada com sandália argentina de tacão alto (mas isto atribuiu a um devaneio do seu campo de visão puritano).
Esperou cerca de quarenta e cinco loops de um trecho de Cantaloop dos Us3 até que, furioso por não ser atendido, resignou-se à espera.
Cá fora, num dos corredores luminosos, o encarregado da sala chegava, esbaforido, a resmungar com o trânsito de gaivotas que grassava no lago. Com uma eficiência de quem tem o rigor como método e odeia Murphy, apressou-se a analisar o nível de capturas da sala de espera; considerando-o satisfatório, procedeu lesto a correr o ferrolho das quatro portas de canto. Em seguida abriu a sua pasta de pele de onde retirou as quatro novas placas de identificação das portas, onde se lia 'Sala de Jantar', e pelas quais passou, pressuroso, um paninho sintético próprio. Assim que as colocou no suporte das quatro portas de canto, todo o conteúdo da sala anteriormente designada como 'de espera' foi imediatamente processado em doses alimentares, prontamente servidas em mesas ali colocadas para o efeito.
O encarregado suspirou de alívio, os digníssimos convidados acabavam de chegar.
20090923
Ponte de Lima, Portugal
Mesmo antes de arrancar a contagem do tempo, quando tudo se resumia dois pedacitos e meio de vazio e a gravidade dos assuntos era igual a zero, deu-se a primeira grande manifestação de pensamento conceptual criativo. O grande nada, encarado como infrutuoso e demasiado vazio originou, num golpe de génio, a ideia do promissor tudo; e num deadline apertado.
O procedimento que leva a este tipo de absurdo-aparente pode ser executado substituindo o sistema de raciocínio cerebral clássico por um mecanismo de exercício conceptual totalmente oposto como, por exemplo, a reflexão in pés. Abordar as questões por hemisférios alternativos aos usuais, pontos sensoriais com experiências totalmente diversas do comum, resulta em respostas muito díspares das neurologicamente programadas e, usualmente, mais originais.
Podemos também raciocinar sem pés nem cabeça, utilizando práticas mais subtis como a reflexão de anca, o juízo inguinal, a sistematização de cotovelos, a lógica biliar ou, em casos muito particulares, o intelecto abdominal.
Algumas das mais extraordinárias manifestações criativas da história foram corporizadas sem qualquer tipo de actividade neurológica. Uma das mais reveladoras conferências TED de 2008 em Monterey, na Califórnia, sob o tema "The brighter sparks of dark places", foi apresentada por um eloquente sovaco, mestre summa cum laude em Berkeley. Existem várias representações impressionistas no Musée d'Orsay da autoria de uma grotesca barba hirsuta, considerada uma das produtoras de arte mais criativas dos finais do século dezanove. O museu do Cairo destaca em sala própria um vaso funerário da dinastia Ptolomaica que se acredita conservar os restos mumificados do único joelho que governou o antigo Egipto.
Estas mesmas linhas foram escritas por uma glote inflamada, sem qualquer intervenção intelectual.
20090920
Ordino, Principado de Andorra
As catenárias estalavam como látegos nervosos nos costados da composição mantendo-a firme na bitola de via larga. O condutor, à pendura na traseira, soltava impropérios aos transeuntes sob o olhar aterrorizado de dois fiscais que viajavam na última carruagem. As portas abriam e fechavam, ritmadas, afatiando o miolo de utentes que se lançava para o exterior. Os altifalantes, mudos como eunucos, entraram em manutenção.
No interior do veículo, calmamente sentado à janela com as costas muito direitas, um jovem de óculos escuros lia, em Braille, uma história rocambolesca - "As catenárias estalavam como látegos nervosos nos costados da composição mantendo-a firme na bitola de via larga. O condutor, à pendura na traseira, soltava impropérios aos transeuntes sob o olhar aterrorizado de dois fiscais que viajavam na última carruagem. As portas abriam e fechavam, ritmadas, afatiando o miolo de utentes que se lançava para o exterior. Os altifalantes, mudos como eunucos, entraram em manutenção."
20090915
Milford Sound, Nova Zelândia
Seja Bravo de Esmolfe, Reineta ou qualquer outra variedade menos comum, a maçã orgulha-se de ser encarada com a maior gravidade. O morango leviano ou o libertino damasco não são comparáveis a este fruto de trabalho sério.
Quem mais, de modo tão brilhante e apaixonado, mostrou que uma queda esconde uma atracção irrefreável? Que os corpos se atraem? Que o amor choca?
Um salto no vazio traz o coração à boca e faz amar a vida como nunca. O suicida arrepende-se e o radical suspira de alívio. Subtilmente e cheio de paixão, o próprio planeta cai.
É por tudo isto que as maçãs apanhadas do chão são as mais saborosas.
20090911
Península de Otago, Nova Zelândia (foto Rute Lucas)
A diminuta varanda triangular não era um local particularmente agradável. Baixa, excrescente de uma sobreloja, roçava o caótico da vida pública. Resignada a uma sombra de vizinhanças altivas, era depósito de beatas e aerossóis peganhentos. Em vão se procurava uma nesga de vista.
Todo e qualquer transeunte juraria a pés juntos não existir ali mais do que uma fenda na fachada lisa, tal era a insignificância da sua dimensão. Dir-se-ia uma cilada retorcida de um arquitecto maldoso. No seu parapeito carcomido nunca se debruçou uma begónia ou sardinheira. Mesmo a lâmpada amarelenta, ignorada pelas falenas, fundiu-se.
Local solitário e indiferente, esta varanda irreal era o espaço mais cheio de todo o piso vazio. Magnífico altar à relatividade das coisas, testemunhava em silêncio as mais díspares exalações humanas. Transpor a caixilharia anodizada e assomar-se ao seu peitoril era a mais libertária das emoções, tão esmagadas que estavam entre a loja e o primeiro piso. A exposição ao mundo livre, gerava arrepios de possibilidades e angústias de lucidez. A sós, era palco de solilóquios arrebatadores, juras e longas inspirações de exaustão. Menos sós eram as comunhões de ideais, as tramas e os risos. Vagas de emoções batiam-se naquela escarpa.
Abnegada e aberta, a imensa varanda insuflava, em correntes, todo o ar que ali se respirava.
Indiferentes a tudo, os cabelos esvoaçavam.
20090908
Glaciar Franz Josef, Nova Zelândia
Um grupo de porteiros de hotel reunia-se em segredo, todas as segundas-feiras à noite, num conhecido barracão abandonado dos arredores da cidade. Sendo um dos não-lugares mais em voga do momento, era comum encontrar ali equipas de casting em sessões fotográficas, velhos párias embrulhados em cartão e mesmo alguns membros saudosos de grupos terroristas desactivados a ditarem as suas memórias.
Ora sendo a segunda-feira o dia da semana em que, por norma, os restaurantes fecham e os museus encerram, o conhecido barracão abandonado estava, normalmente, à pinha, o que deixava sempre o grupo de porteiros de hotel que se reunia em segredo, bastante desconfortável. Não que alguém lhes dirigisse a palavra ou pousasse sequer um olhar mais inquisidor sobre os seus conluios. A situação confrangedora ocorria quando alguém se aproximava das instalações; de imediato um dos porteiros saía disparado e abria o empenado portão com um sorriso de boa noite.
Após tão lamentável reacção era normal e esperado por todos que, ao cair em si, o fraco membro cometesse de imediato suicídio, colocando o portão entreaberto e deixando-se atingir corajosamente por uma violenta corrente de ar.
O mais constrangedor foi que o desenvolvimento desta situação se tornou de tal modo repetitivo que o único resultado prático destas reuniões foi o de tornar o portão mais perro, pelo acumular de corpos na entrada, e reduzir o grupo secreto de porteiros de hotel a um velho reformado do Winter Palace, cego e surdo, que continuava a ditar os estatutos da associação.
20090830
Key Largo, Florida, EUA
Numa praia agreste da costa norte um meteorologista foi sequestrado por um grupo de pára-ventos, segundo consta, com a chocante conivência de um guarda-sol de uma zona concessionada.
Num comunicado vídeo enviado pelos perpetradores a uma estação de televisão local o meteorologista apresentava-se bastante desidratado, com sinais de queimaduras solares fortes, enquanto lia uma declaração onde dizia que se encontrava bem e que a previsão para os próximos dias seria de céu limpo, vento forte do quadrante norte ao longo de toda a faixa costeira com ondulação de nordeste de 3 a 4 metros.
20090825
Glaciar Fox, Nova Zelândia
A camisa branca, a sua favorita, estava sempre impecavelmente encorrilhada. Cada vinco, prega, dobra ou engelha escondia uma indiscrição. Nos sulcos profundos do linho cresciam rebentos de borboto irrigados pelo suor espesso. O tom era denso e texturado. No entanto, teimava que era branca. E camisa.
Tudo falso. Rapidamente se descobriu que era um embusteiro e que todos os improvisos que vestia já os tinha escrito antes em círculos de ficção.
20090810
Parque Nacional Abel Tasman, Nova Zelândia
Logo após terem morto um conhecido actor de teatro e um cantor pop as notícias reduziram a cinzas uma parte considerável da mata atlântica brasileira. No mesmo instante flashes noticiosos fizeram explodir um acampamento das forças de manutenção da paz no Médio Oriente enquanto media locais destituíam um governo sul-americano e faziam cair em desgraça o líder da oposição. Entretanto a informação actualizada ia infectando dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo com o vírus letal. Pela hora do jantar um furo jornalístico fez explodir um avião russo de passageiros ao mesmo tempo que uma nota de rodapé condenava à fome um quinto da população do Sudão.
A edição de fecho fazia nascer, num zoo da Califórnia, a primeira cria de panda albino.
20090805
Oamaru, Nova Zelândia
Um homem, aparentando sessenta e muitos, caminhava pela rua há vários anos com um par de sapatos, tipo luva, na mão. O modo seguro e carinhoso com que pendurava os sapatos nos dedos médio e indicador dizia muito sobre o seu carácter determinado. Curiosamente este homem em mangas de camisa e calças de vinco estava calçado e teimava em caminhar sempre pela mesma rua. A rua, não querendo ficar atrás deste homem obstinado, prolongava-se há anos, continuamente, sempre uns metros à sua frente. Ao longo desta curiosa competição calada foram nascendo vivendas geminadas unifamiliares, notários, lojas de conveniência, esplanadas e penhoristas, todos com nomes associados à temática do calçado e da persistência. Chegou mesmo a notar-se algum movimento de apoio a este homem solitário. Uma senhora da classe alta acompanhou-o durante uma tarde segurando uns Louboutin e um grupo de Carmelitas Descalças seguiram-no em vigília, seguras apenas pela sua fé, até perceberem que o homem tinha um passo agnóstico.
Indiferente a tudo isto e aproveitando um dia em que a brisa de leste passou a nortada, o homem parou, trocou de sapatos, segurou no par velho com o indicador e o dedo médio, voltou-se no sentido contrário com o vento pela frente para melhor arejar o calçado e encetou o seu novo caminho de volta.
Apanhada de surpresa, a rua começou de imediato a recuar, obliterando assim toda a vida recém-construída que a ladeava.
20090804
Cairns, Australia (foto Rute Lucas)
Os dois finalistas do popular concurso televisivo “TODOS OS MILHÕES QUE CONSEGUIR COMER À FRENTE DO SEU FILHO ENQUANTO ELE DESPERTA PARA SENTIMENTOS HOMOSEXUAIS” tinham ainda uma dura prova pela frente antes de atacarem o tão almejado prémio final. As regras eram simples. Os concorrentes eram deixados num local inóspito e desabitado, sem qualquer tipo de alimento ou toalhas de rosto, com o único objectivo de se convencerem mutuamente a desistir. Não era permitido qualquer tipo de contacto físico e, para dificultar a prova e tornar as coisas mais divertidas para os telespectadores lá em casa, cada um dos participantes só poderia comunicar no dialecto impronunciável que lhe seria indicado em envelope fechado. Tudo isto seria transmitido em directo, ininterruptamente, através de uma rede de câmaras montadas em locais dissimulados devidamente fiscalizados por três elementos soturnos do Governo Civil.
Entretanto a novela ia começar. Mudei de canal.
20090729

Kata Tjuta, Austrália
Desde muito novo que Joseba se habituara à ideia de ter um corvo pousado no ombro. Durante o dia o pássaro pouco o incomodava. Mantinha-se discretamente empoleirado a olhar fixamente para o interior da sua orelha com um ar reprovador. À noite, mal Joseba adormecia de barriga para baixo, a ave negra mudava-se para o topo da sua omoplata, aproximava o bico aguçado da orelha sonolenta e soltava um excruciante crocito. Desde muito novo que Joseba passava as noites em claro desespero.
Uma noite, mais colérico do que nunca, o corvo aproximou demasiado o bico e furou-lhe o tímpano, ensanguentando a fronha. Desorientado e enjoado, Joseba regurgitou, um a um, todos os filhotes de corvo que tinha comido ao longo dos anos.
20090726
Uluru, Austrália
À trinta e nove anos que Macquaire-Hage, actor antropólogo, procura os restos imortais de Deus.
Na década de 80 iludiu-se com umas ovas de esturjão fossilizadas que viriam, mais tarde, a ser atribuídas a uma ceia tardia de Siddhartha Gautama. Já nos anos 90 ficou conhecido pela descoberta das famosas sementes petrificadas de Rambutan, desenterradas no deserto Núbio do Sudão, posteriormente identificadas, com grande pesar, como parte de uma merenda de viagem de Ibn Battuta.
Entretanto, na vida real, Macquaire-Hage vive num mundo imaginário.
20090725
Sidney, Austrália
Às nove da manhã o investigador privado apresentou-se - Venho da parte da tarde - disse, com a segurança de quem tem as costas quentes.
A mulher pública, pouco impressionada com a temperatura das suas espaldas, retorquiu - Logo à tardinha irei receber um colega seu que vem da parte da manhã, o que me parece ser uma recomendação bastante mais adequada a este caso.
Agastado, o investigador privado nacionalizou-se.
20090721
Barca d'Alva, PortugalEducadamente, Paulino pegou numa palavra, uma das mais pequenas, e mordiscou-lhe a pontinha, uma vogal rechonchuda e sumarenta. Pelo canto da boca escorreu-lhe um fio de acentos que rapidamente lambeu.
- Nada mau. – pensou, enquanto cobiçava um pratinho de versículos conventuais.
À terceira lengalenga enfarinhada sentiu um pouco de bílis a vir-lhe à boca. Sôfrego, ainda arriscou umas quantas citações quentes com molho de verborreia. Nem teve tempo de chegar à casa de banho; vomitou no meio da sala uma notícia 'cor-de-rosa'.
Sidney, Austrália
No aviso lia-se: "Por favor sintam a relva debaixo dos vossos pés, abracem as árvores e afaguem as flores, deixem o musgo das pedras quentes fazerem-vos cócegas no nariz e, acima de tudo, sujem-se de verde."
Isto deixou-me de pé atrás, não era coisa de gente séria. Resolutamente lancei o outro pé também para trás e caí na relva a rir como um perdido.
20090720
Tóquio, Japão (foto Rute Lucas)
O purgatório de Jingu Bashi era muito bem frequentado. Os seus estádios de purificação eram dos mais conceituados e davam acesso garantido ao paraíso de Meiji Jingu.
As almas aí presentes, depois de muito bem lavadas com soda cáustica eram postas a secar ao sol nascente e posteriormente passadas a pente fino adquirindo assim aquele aspecto desfrisado celestial. E não se pense que era utilizado um qualquer pente de fancaria ou desfrisador mecânico em tão ilustre tarefa. Apenas uma selecção criteriosa de conchas de choco Sepia Officinalis era utilizada na confecção destes penteadores, minuciosamente trabalhados em finos dentes.
As almas, assim fluídas, eram tomadas por redemoinhos de bons ventos e enviadas para os organismos competentes para certificação.
20090717
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