Xcaret, Península do Iucatão, México
À primeira vista era indubitavelmente um armário. A prová-lo, as madeiras escuras de uma ex-colónia protegiam, em motivos arbóreos, o verde denso de um vidro que, martelado, nunca partia. Colossal, para um tamanho pequeno, assentava em quatro pés barrocos adornados a joanetes reluzentes. Adivinhavam-se prateleiras sóbrias e resistentes com algumas reservas em suportar pertences mais vulgares. Em suma, um receptáculo imóvel a cumprir funções.
Mas quem, como eu, conhecia bem o interior deste armário soturno de sala de estudo, punha muitas reservas a uma definição tão marceneira.
É que este armário, o da minha avó, tinha coisas do arco da velha. Senão vejam: aqui, um bode grisalho bebia de um balde campestre ao comando de uma alavanca de cobre sem nunca ficar saciado nem o balde vazio; ali perto, um burguês bonacheirão ressonava de consciência tranquila enquanto lhe iam despejando, à manivela, uma chusma de ratinhos pela goela abaixo; subindo uma prateleira, era comum encontrar Júlio Verne carregado de volumes, a empurrar a Mãe de Gorki contra o Sexus de Miller; poucos sabiam, mas havia um frasco, pudicamente escondido atrás de uma roda de cores giratória, que aguardava em estado líquido a evolução de um parente antigo; já cá em baixo, sepultada num gavetão, a urna do pintor Henrique Cardoso assentava numa pira de carvões e esfuminhos.
Uma tarde destas terminava, com regularidade, pela audição de 'Pappa con Pomodoro' de Rika Zarai, em riscos de vinil sobre gramofone portátil.
20100425
Xcaret, Península do Iucatão, México
À primeira vista era indubitavelmente um armário. A prová-lo, as madeiras escuras de uma ex-colónia protegiam, em motivos arbóreos, o verde denso de um vidro que, martelado, nunca partia. Colossal, para um tamanho pequeno, assentava em quatro pés barrocos adornados a joanetes reluzentes. Adivinhavam-se prateleiras sóbrias e resistentes com algumas reservas em suportar pertences mais vulgares. Em suma, um receptáculo imóvel a cumprir funções.
Mas quem, como eu, conhecia bem o interior deste armário soturno de sala de estudo, punha muitas reservas a uma definição tão marceneira.
É que este armário, o da minha avó, tinha coisas do arco da velha. Senão vejam: aqui, um bode grisalho bebia de um balde campestre ao comando de uma alavanca de cobre sem nunca ficar saciado nem o balde vazio; ali perto, um burguês bonacheirão ressonava de consciência tranquila enquanto lhe iam despejando, à manivela, uma chusma de ratinhos pela goela abaixo; subindo uma prateleira, era comum encontrar Júlio Verne carregado de volumes, a empurrar a Mãe de Gorki contra o Sexus de Miller; poucos sabiam, mas havia um frasco, pudicamente escondido atrás de uma roda de cores giratória, que aguardava em estado líquido a evolução de um parente antigo; já cá em baixo, sepultada num gavetão, a urna do pintor Henrique Cardoso assentava numa pira de carvões e esfuminhos.
Uma tarde destas terminava, com regularidade, pela audição de 'Pappa con Pomodoro' de Rika Zarai, em riscos de vinil sobre gramofone portátil.
20100331
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
O ilhéu, separado do continente por um braço de mar, tinha uma fortaleza com seis canhões apontados para o lado errado. Às suas costas chegaram hordas de polipropilenos em jangadas de vasilhames que rapidamente surpreenderam a bateria sonolenta, enferrujando-a logo ali.
Tomado o ilhéu, a noite foi lambida a fogo, imolando-se os trastes num festim pagão. No dia seguinte, as cinzas reunidas em pequenos grupos envergonhados, dispersavam-se na aridez da impunidade.
Chichén Itzá, México
Em duas penadas: a escrita do caminhar tem sido inexplicavelmente negligenciada. Páginas e páginas de relatos literalmente arrasadas por correntes de ar viciado.
Não nos dizem tudo, as pegadas num areal? A linha funda e sinuosa de uma consciência pesada, o pé-ante-pé imponderável dos amantes, não deveria tudo isto ser medido, registado e cartografado? Para quê plagiar tendenciosamente com as mãos tudo o que os pés já deixaram bem claro na genuína espontaneidade de um corpo inconsciente?
E não me refiro apenas às zonas densamente povoadas onde todos deixam marcas e acabam por dizer muito pouco; levante-se o olhar do chão e conseguimos ver além, em solo agreste, tímidas linhas de passos arrojados, caminhados por anónimos calcorreadores.
Formem-se já batalhões de analistas de trajecto, licenciem-se os cartógrafos de rasto; urge seguir estas peugadas antes que sejam pisadas de novo.
No entanto, e para que não se ficcione a veracidade dos caminhos, o estudioso destas matérias deverá possuir uma de duas características que impeça que os seus próprios passos se imiscuam nos trajectos em estudo: ter algo de pássaro ou, em alternativa, de anjo; algo que mantenha o percurso intocado.
Poderá o leitor mais cínico dizer que, se pássaro, a atenção logo se virará para a mais gorda minhoca e se anjo, pouco ou nenhum interesse terá pelos assuntos terrenos, uma vez que sabe de antemão o destino de todas as coisas. Poderá.
20100330
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
Os barcos são lugares estranhos.
Soltos das regras da terra, nunca chegam a estar verdadeiramente ao nível do mar. Andam, navegam, pelo meio da ideia que os homens têm como destino.
Podemos pensar que encontramos um cargueiro atordoado a cravar os dentes na areia como que a repensar todos os erros que o colocaram nesse impasse, mas tudo não passa, como constatamos a seguir, de uma imprudência causada pela bruma seca com que as areias do deserto próximo nos confundem, impedindo a clara e enferrujada visão de décadas de coisas estranhas que teimam em flutuar.
20100328
Calheiros, Ponte de Lima, Portugal
O velho cetáceo corcunda deslizava numa migração tranquila quando sentiu um enorme desejo de saltar fora de água. Ora se numa baleia-de-bossa um desejo só pode ser enorme, a vontade de o concretizar é, inevitavelmente, imensa. E não pensou duas vezes pois isso implicaria um novo mergulho abissal seguido de um esguicho ciclópico que lhe causava imensas dores abdominais. Assim, sem mais demoras, flectiu a barbatana dorsal em movimentos ascendentes, impulsionou o gracioso volume na direcção da superfície e emergiu, lançando meio corpo fora de água, enquanto rasgava um sorriso de barbatana a barbatana, caindo a seguir de costas com um estrondoso sucesso.
Nesse mesmo instante, um turista demasiado obeso fez uma 'bomba' na piscina do resort enquanto o barman lançava uma pedra de gelo não tratado num copo meio cheio de grogue, salpicando o balcão já peganhento.
Pode-se verdadeiramente medir o nível de satisfação de um acto espontâneo pela magnitude da sua ostentação?
Uma gota de suor cai do corpo musculado num hibisco praticamente seco.
20100326
Kamakura, Japão
O pescoço taurino emergiu das águas trazendo consigo uma cabeça das mais redondas que se podem imaginar. Estava em paz, ondulando ao sabor agridoce da brisa soalheira.
Imaginavam-se dois olhos, pela atenção com que fixava a lonjura.
Alguns cínicos, agachados num ponto de vista mais seco, conjecturavam sobre o que escondia aquele pico de icebergue, mas nós, com uma experiência de anos à tona de água, sabemos bem que abaixo daquele pescoço hercúleo existe apenas uma longa corrente atada ao tampo de um ralo.
Nova Iorque, EUA
A vedação alta apanhou um magote de transeuntes. Com os dedos entrelaçados na rede, faziam leves sinais com a cabeça, entre eles, pontuados por um ou outro escarro lateral. Os lábios inferiores distendidos apontavam para a frente, em vigorosos movimentos de queixo.
Tinham os dias contados.
O responsável da obra não gostava de mirones. Mandou recolher as redes, entregar a apanha do dia a um lar de idosos e levantou um muro, o que lhe tirou a luz. Às cegas escavou um túnel, o que lhe tirou a escolha; foi sair do outro lado caindo na malha apertada da populaça. O que lhe tirou o pio.
20100304
Sydney, Austrália
Em plena savana de Masai Mara, uma curva apertada do rio Talek agarra um bosque de acácias. Na margem, uma tenda assiste à chegada da noite africana. Fechado no interior deste enclave um homem tenta, em vão, adormecer. Os dois metros quadrados do seu território não são fáceis de defender. Impotente, ele observa as sombras que entram e lentamente afundam o seu corpo em escuridão. Um cheiro hostil tinha já invadido o espaço e ressonava a um canto. As paredes mexem muito devagar, dando um ar irreal à sua insónia.
Deitado de costas ele sente os toques insistentes da lona, enquanto fixa a estrutura de alumínio, mantendo-a presa. Por instantes tenta perceber como foi capaz de deixar o conforto de uma vida picada a ponto para se deitar a perder nesta viagem de fanfarronice.
- Mulheres,... e aqueles palhaços da seguradora - rosnou, irritado. O som da sua voz soou-lhe estranho, naquele silêncio, e espantou as suas divagações. Estava de novo alerta; reparou que se mantinha vestido e calçado como se fosse a algum lado. Isso, e a impossibilidade de se levantar, com aquele pé direito, dava-lhe um certo ar de defunto.
A pouco e pouco os ouvidos começaram a abrir-se aos sons que acordam lá fora, deixando-o com a desconfortável sensação de estar isolado mas não sozinho. Cada guincho, cada resvalo, cada resfolgar longínquo, trazia consigo algo estranho, inquietante. A memória auditiva é um poderoso tranquilizante; um estouro de um escape livre, um ranger do soalho, um grito de mulher histérica, tudo pode ser digerido com um sorriso, conhecendo-lhe a causa; agora isto...
De súbito, um estalar seco de ramos quebrados com violência trazem uma respiração forte e possante ao lado de fora da tenda. Coberto por um formigueiro, o homem encolhe, pára de respirar e sente o impacto de 6735 folhas secas a serem esmagadas por 938 pequenos galhos secundários que se estilhaçam sobre si próprios, cravando farpas num solo já vermelho.
De súbito, o silêncio. Quase sem ar, o homem arrisca uma golfada lenta; lá fora, um exalar gutural seguido de dois passos secos fá-lo arrepender-se. O imponente colosso, pois só assim o pode ser, rodeia o perímetro em passadas que marcam o terreno. Pelo baque deve ter uns oito cepos por membros, atirando-os em movimentos lentos e descompassados. Parece não ter pressa. Parece que sabe o poder que exerce sobre aquele homem envolto em mortalha.
Entretanto o homem roda sobre si mesmo, expondo umas costas ensopadas em suor e olha fixamente para o fecho de abertura da tenda, agora à sua frente. Na escuridão total aquele fecho tem um brilho tentador, convidando-o a abrir os seus dentes afiados. Mas o homem não se mexe. Analisa o adversário, que parece dirigir-se agora para a borda d'água.
Um a um os oito troncos sulcam ruidosamente o leito do rio - um mero fio de nascente face àquele leviatão. Assim obstruído, o caudal transborda e aproxima-se perigosamente da tenda. O homem quase arrisca deslizar para mais perto da entrada quando um novo som redesenha-lhe o monstro; com os membros ainda a revolver a água, o topo de uma acácia é quebrado em dois numa chicotada. "Pelo menos três corpos de altura,...e uns vinte tentáculos.", pensou. Da ramagem arrancada, vinham sons triturados de um ruminar pastoso.
Já invadido pela água barrenta do rio, o homem experimenta deixar passar o calor de uma ligeira saudade das tardes tranquilas a preparar processos de fraude, em frente ao enorme relógio de parede do escritório, mas curiosamente a sensação não foi apaziguadora; era como se parte de si estivesse já a ser devorada pelo ser sem forma que se expandia lá fora, eriçando os seus instintos mais adormecidos. Chegou-se ainda mais perto do fecho dentado, sentindo-o roçar-lhe a testa. O odor à pele velha e húmida daquele gigante disforme, subia agora a margem na sua direcção.
Antecipando o confronto, o homem deixa-se tomar um pouco mais pela sua simetria e arqueia ligeiramente a espinha dorsal, juntando as omoplatas. Já não é só um homem. É o fim de uma hibernação. A tenda começa a tomar uma forma humana.
No exterior, a encarnação mitológica avança pesadamente pela zona pantanosa que agora envolve a tenda. Bruscamente, muda de direcção, contornando-a.
O homem, impossibilitado de rodar dentro do seu casulo, apercebe-se que o monstro se estendeu e que tem agora uma muralha de carne viva a envolvê-lo. Um bafo quente e húmido ensopa o ar de miasmas e acelera o seu metabolismo. As mãos cravam-se no fecho reluzente, aguardando a ordem que os dentes não descravam da língua muda.
Tudo se cala, na noite. Um frenesim contido vibra no couro da besta.
É então que um formidável bramido rasga a savana e estala a estrutura da tenda. De imediato duas mãos esventram o fecho metálico e um corpo arqueado lança-se em pleno ar num grito muito pouco humano.
Estremunhado, o velho elefante acorda, olhando em redor. A vinte passos, a toda a volta, continuava ali o fosso escuro. Depois, as grades em forma de lança africana. Mais além, depois do passeio bordado a relva artificial, estava o muro alto e, ao longe, os últimos andares de alguns prédios de escritórios.
Tirando o novo casal de hienas, em quarentena, todo o jardim zoológico dormia.
O paquiderme passou a tromba pelas têmporas enxugando alguns suores nocturnos. Não tinha memória de um pesadelo assim. E a sua memória era prodigiosa, diziam. Se bem que, sendo nascido e criado em cativeiro, a memória era coisa que não tinha muita utilidade. Tinha de admitir que podia muito bem estar a precisar de ajuda profissional. Fumou um cigarro, enquanto esticava as pernas pelo pátio, prometendo a si mesmo marcar uma consulta no dia seguinte, à primeira hora.
20100213
Porto, Portugal
Toda a gente fala de gigantes. Mas só uns poucos apanham as pontas de alinhavos esquecidas no soalho. E quase nenhuns semicerram os olhos aos padrões dos pavimentos de granito.
Um brado tonitruante assusta, mas também revela uma posição débil, enquanto que um sussurro atrás de reposteiros pesados pode silenciar uma multidão. Mas é de nuvens que as cabeças se alimentam e não das gotas de suor que se evaporam por elas.
Um esforço conjunto do polegar e indicador traz à atenção uma unha morta, curvada no seu próprio esquecimento. Seguram-na carinhosamente por uma das pontas facetadas enquanto sopram a mortalha de pó que a envolve. Ambos sentem uma angústia de perda, um amor parental distante, mas não conseguem evitar deitá-la à companhia de excrementos.
Xcaret, Península do Iucatão, México
- A minha filha fez febre – lançou a mãe, orgulhosa.
- Hm, uma febrezita? – bocejou a outra mãe, perdida em pensamentos de leite.
- Febrezita? Mais de 70 graus! Prostrou todo o infantário. – cantou gloriosa, a primeira, em honra da petiza rosada.
- A minha, – ignorou a outra com um sorriso – fez um berreiro tal, no Domingo, que derreteu a paciência da congregação inteira enquanto vomitava nos 27 cestos da colecta, o anjinho.
- Eu, quando chego a casa, – ribombou a progenitora como uma peça de artilharia – nunca sei o que vou encontrar; aliás, muitas vezes nem a encontro, de tão virada do avesso que está; é só entranhas, canos e mortos velhos, de tão levada da breca que a minha menina é.
- Nem queira saber o que a minha fez, ainda há dias; atirou com os sete volumes do Proust da estante abaixo e meteu à boca todas as páginas que tinham notas de rodapé escritas a lápis pelo pai. - esbofeteou com alvura a maternal adversária.
Nisto, uma terceira mãe entra em cena - "Mui alegre e prazenteira, mui ufana e esclarecida, mui perfeita e mui luzida, muito mais que de antes era."
20100206
Uluru, Austrália
qual é a coisa, qual é ela
que se diz e por dizer, enrola
a glote antes da língua
do bolor raspa a penugem
e aquelas manchas que custam a sair
e desmancha
os ombros encolhem mas não estão indiferentes
ao frio que racha a fala
todos são nada do que fui e regurgitam
biscuit de fancaria
que disponho religiosamente em
escaparates de incineradoras
onde me mostro e acabo também,
diluído em nada meu, parasita
hospedeiro
sorrateiro
sublimo aquela coisa, que faz franzir a pose
e leva vara, manada e cardume dócil
cubro-me de pele alheia e
vou dando fisgadas em cada boca que se abre,
escondido
mas nunca sei qual é ela.
Tóquio, Japão
Novelo em punho, entro no labirinto de ideias-não-concebidas. Demasiado tarde percebo que devia ter deixado uma ponta de fio presa à realidade. Olho para a emaranhada felpuda, e noto um esgar sarcástico.
Ainda tento domesticá-la, tricotando um mapa, mas os dedos picam-me como agulhas. Irritado, desenrolo o fio matreiro em forma de palavras acesas que, de tão rubras, rapidamente se transformam num rastilho a chispar na minha cauda. Só de pensar na bomba de coisas ensarilhadas que tenho entre mãos, desato a escrever uma saída.
20100131
Miami Beach, Florida, EUA
Os dois casais entraram no hall do Delano montados em magníficos alazões surrealistas, ainda frescos. O rasto de tinta em forma de costelas-de-adão foi notado pela consierge, que vivia na cave devido à sua condição inferior. No entanto, Terence, o gerente de dia, afirmava a pés juntos que a condição inferior dela advinha do facto de habitar uma cave, o que deixava alguns a pensar. Mas quase todos lhe davam um desconto tendo em conta que ele era um homem apaixonado e impossibilitado de caminhar de outro modo que não fosse aos saltos. Foi à conta desses descontos que Terence conseguiu iniciar um negociozinho por conta própria em Collins Ave, não se encontrando já no hotel quando os dois casais trotaram por ele adentro, pisoteando a consierge.
20100130
Chichén Itzá, México
Esta aplicação tem um anexo de pente variável. O cortante é precisão-afiado, dano e dano. Tape o adaptador dentro de uma cova alcançável. Por favor armazene o cabelo e barba em lugar seguro. Não use a aplicação que próximas bacias encheram de água. Antes de usar pela primeira vez e para a seguinte por favor carregue períodos. Pode ser operado durante aproximadamente 60 atas. Para alongar as baterias deveria-lhes permitir correr completamente antes de carregar para cima. Nunca use se é conectado à provisão. Remova o anexo se quiser cortar o cabelo a um comprimento. Segure o cortador de tal modo que o anexo do pente mente tão plano quanto possível. Corte da nuca do pescoço para o topo da cabeça, ou da testa ou templos para o meio. Para cortar esboços directos à nuca do pescoço e a costeletas, vire o círculo de aplicação de forma que a parte de trás está enfrentando acima. Este dispositivo é projectado para aparar o nariz. Vire o interruptor e cuidadosamente insira a gorjeta da lâmina na sua narina; não insira mais adiante. Aperte a cabeça para trás e remova. Usando o arbusto de limpeza provido remova qualquer esquerda. Insira o mais baixo clipe de cabeça na abertura do alojamento até ouvir isto fazer tique-taque no lugar. Uma gota de óleo é suficiente para uma operação lisa. Remova a bateria como era proibido para dispor pelo refugo doméstico legalmente.
Debaixo das nossas condições de garantia, garantimos nós.
(sobre instruções de um conjunto de aparar a barba)
20100129
20100127
Porto, Portugal
Uma mulher difusa tosse no metro.
A cada ataque, enrola-se mais num casaco de penas de ganso.
De quando em quando pára, envelhece, e dá um beijo infectado a um homem sentado em frente a ela.
As estações passam e ela é já uma almofada de penas, no banco.
Já não tosse, aninha. Um bico ocre vigoroso desponta da farta penugem branca.
Na Lapa, um telemóvel toca.
Assustada, levanta voo arrastando, enrodilhados, um ror de cachecóis de várias cores.
No cais, um caçador de faisões toma-a por uma dessas aves de mesa, e dispara.
Mais tarde, ao jantar, o único filho do caçador começa a tossir e a embelezar-se com as penas coloridas do faisão.
20100123
Xcaret, México
Analisar o alter-ego do demo sempre deliciou o doutor Brodheim. Embora tivesse de juntar duas marquesas para acomodar tão enorme e diabólico paciente, tudo valia a pena quando conseguia extrair algumas lágrimas de vapor daqueles olhos de cabrão.
"Um bicho indomesticável", diziam os seus pedantes colegas de cátedra. Mas o doutor Brodheim tinha técnicas, olá se as tinha.
Naquela sessão em particular, dirigiu-se ao fundo falso da secretária e retirou de lá um arco em chamas - Ó diabo! - gritaram os dois, com entoações diferentes. Então, com a ajuda de uma chibata azul celeste, obrigou o velho mefistófeles a pular através do arco, de um lado para o outro, até à exaustão. O medo começou a transparecer nos olhos do demo; o doutor estalava a vergasta sem descanso. Com um soluço, o diabo começou a desfazer-se; primeiro caiu um corno já baço, depois o outro, meio ratado, desenroscou-se, a chiar. Em seguida os cascos derreteram-se numa poça de óleo deixando um cheiro a bolas de Berlim algarvias.
O doutor exultava e saltava ao eixo por cima dele, em calções.
A coisa ruim, agora em hipotermia vertiginosa, passava de um azul hirto a um roxo mirrado.
- A vitória da ciência! - coçava-se orgulhoso, o doutor, como uma tangerineira com formigas.
Grumos agonizantes saíam daquela figura medrosa dobrada em feto a um canto do consultório. Corredores de arrepios percorriam tanto o tratado como o tratante. Um bafo de paz encheu a sala. O demo, agora medo, ofegava; o doutor, arfava. A sala, ganhava focos de humidade.
Aquela sessão ficaria para os anais - Aqueles lentes caras-de-cu. - rilhou Brodheim.
20100121
Kata Tjuta, Austrália
Mal se ouvem os primeiros rumores de Inverno, é certo e sabido que a Viscondessa da Luz, florzinha de estufa, se fecha entre parêntesis a podar as suas didascálias premiadas. Com uma tesourinha muito peculiar, é vê-la, pressurosa, a aparar as atitudes menos dignas de qualquer general caído em desgraça, a cortar silêncios desagradáveis de um casal amargo ou até a desbastar catadupas de descrições enfadonhas e irrelevantes. Depois, com uma limazinha de meia-cana, entretém-se a amaciar compleições físicas de homens rudes e a enrubescer as faces de senhoras pudicas. Por vezes, permite-se mesmo fazer pequenos enxertos de ambientes românticos em cenas mais modernistas. A Viscondessa tem uma paixão itálica por tudo o que fica por dizer.
No entanto, há quem diga à boca cheia que a Viscondessa da Luz é o ser mais mesquinho e abjecto que jamais existiu; que merecia todas as pancadas que Molière lhe conseguisse acertar. Aos portões do seu palacete, magotes de personagens encarnados por actores perdidos, lançam-lhe falas soltas, desesperados por indicações de cena.
No recato dos seus parêntesis, a Viscondessa só pensa nos rebentos de floreados que irão brotar das suas didascálias, aos bocejos da Primavera.
20100110
Edfu, Egipto
Aqui não cai foleca. Só tisna.
A chibata dá-se em lombo peludo ou pelado; é que do alto da burra fala-se de cadeira. Mas a história só tem calhaus daqueles graúdos que vergam de vergonha os costados moles.
Nas rebessas das esquinas está o medo, com rebites. Protege pedra velha com carne fraca enquanto a bosta escorrega nos bueiros.
Mas é uma maravilha, atrai moscas gordas.
20100109
Key Largo, Florida, EUA
Havia um homem que queria ter um sonho.
Havia um sonho que queria ser pensado por um homem.
Opção 1: Quis o destino que nunca se encontrassem para poder usar ele mesmo esse sonho, que não era nada mais nada menos do que a morte do homem.
Opção 2: O homem encontra o sonho e este mata-o.
(o leitor escolhe, mas o homem não pode fugir ao destino)
20091224
Nubia, Egipto
Nicolau carregava alegremente o enorme saco de roupa suja a caminho da tinturaria mais prestigiada do bairro (a tingir desde 1822), imaginando-se de todas as cores agora que o contracto de exclusividade com a marca vermelha de refrigerantes estava a caducar. Enquanto isso, Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago, faziam fila na conservatória para legalizar os seus nomes de baptismo, Teixeira, Firmina, Telmo, Silva, Maria Teresa, Cesaltina, Bastos , Álvaro Jorge e Jorge.
Preocupado, o menino franzia o sobrolho, quer pelo cheiro nauseabundo de palha e fezes quer pelo facto de pensar que em menos de quatro meses iria estar entre dois ladrões. Ignorantes destes desígnios, burro e vaca, que sofriam com dores atrozes nas articulações e cervical pela sua postura estática, entreolhavam-se, questionando as razões pouco morais de partilharem a mesma manjedoura.
Completamente perdidos para os lados de Al Suwayda, seis astrólogos zoroastras, cabeças no ar, decidiram separar-se para cobrir mais terreno. Três deles, rumaram a Tripoli, por razões fonéticas; os outros 3 acabaram em Belém a vender uma parafernália de utilidades como guizos dourados, velas de incenso e bálsamo de mirra para assaduras.
É por isto que os limpa-chaminés de Dickens têm as meias rotas.
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