20100713

Porto, Portugal A solidão apoia-se numa só perna. Cada braço inerte esconde-se do outro atrás do corpo baço. Pergunta quem passa "Como se tem em pé?", alheios ao desequilíbrio que provoca tal arremesso. Um salto a pé-coxinho pressupõe uma esperança de elevação, ao início, e um desânimo cansado, na queda. Ou será antes uma vontade de se lançar no vazio logo agrilhoada por uma réstia de teimosia? O espelho baixa-lhe os olhos, pois traz a ilusão de partilha na franqueza de um retrato cru. A outra perna tem cãibras.

20100712

Vila Nova de Gaia, Portugal O polegar e o indicador tamborilam, impacientes. Aguardam ordens. O ritmo é caribenho; a fome é negra. Sem cerimónia, entram juntos no estreito pacote metalizado. Assim como entram, logo param, assustados. À sua volta, as paredes quebradas espelham milhares de dedos disformes numa agressiva posição de tenaz. Não fosse a gordura que as embacia, tinham perdido o tino e ganho tonturas. Resolvem fechar os olhos e ir mais fundo, à cata da última batata. Mas esta é fina e mete-se no canto do pacote. Os dedos, de tanto foçar, espetam migalhas duras debaixo das unhas. Feridos e sebentos, recuam amuados, deixando um rasto de sangue gordo. O pacote é abandonado no entulho. Dois dias depois, a batata assume que é seguro sair. Mal põe o pé de fora é devorada por um Diabo da Tasmânia que ali montava cerco desde que tinha sentido o odor do tubérculo. Em alturas de escassez estes mamíferos marsupiais podem também comer insectos, cobras e frutos.

20100704

Nova Iorque, EUA Um escritor publicado lia, num silêncio atento, o primeiro manuscrito de um jovem sentado à mesma mesa redonda. Ao seu lado, um romancista de referência deitava uns olhos curiosos às provas corrigidas do mais recente trabalho deste escritor. Entre o romancista e o jovem - como a mesa é pequena! - um laureado das letras tomava, com mão céptica, o peso do último romance publicado pelo autor de referência. De um lugar por onde nunca se imaginaria aparecer tal coisa, emergiu uma garoupa que abocanhou o laureado, cuspindo o romance. E assim por diante.

20100608

Ilha da Boa Vista, Cabo Verde Tomei nota. Tomava água, de melhor grado. Sou reles e daninha, não se deixem enganar pela aparência verde; na melhor oportunidade abafo-os. Aos poetas, basta lançar-lhes um punhado de palavras quietas para cuspirem ordeiramente frutos desabrochados; eu, rastejo-lhes nas pernas, sugando a sombra, crescendo na sua humidade. Ouvi. Gritava-lhes palavrões, se tivesse boca. Sou lesma, de baba e rasto, nem um nem outro, e roo-lhes as faces. Existo no meu, para lhes dar o outro lado.

20100606

Barca d'Alva, Portugal O pássaro branco debicava aperitivos entre duas Estrelas da Galiza. Do outro lado do passadiço, duas galegas fingiam não se ruborizar com a sua pinta encarnada, por onde iam resvalando sobras de milho tostado. Ele pediu uma terceira cerveja enquanto dava uma volta larga sobre a cabeça delas. Revelaram-se ser apenas uma, em pleno exercício de pregoeira. O viril emplumado perdeu o interesse e esvoaçou em busca de caudas mais arvoradas.

20100530

Key Largo, Florida, EUA "É tão grande que podia bem encher-se de importância.", comentava uma senhora sentada. Alheio a isto, um penhorista, cheio de cautelas, tem a infelicidade de entrar com o pé esquerdo num charco de águas paradas, pisando os bigodes a um barbo. De imediato desfaz-se em desculpas, que ficam a boiar, espalhadas. O peixe, que pela sua natureza não pode evitar de engolir todas aquelas migalhas suculentas à tona d'água, atribui algum exagero à reacção do penhorista, mas o bigode dorido toma o partido contrário. Um velho, estranhamente parecido com um assessor de colégio, finge-se atento a um enorme Metrosídero, aborrecido por o terem feito meter o nariz nesta história. Curiosamente, todas estas coisas aparentemente soltas, têm um fio condutor. Não precisamos todos de umas palavras de salvação?

20100517

Uluru, Austrália E, numa pirueta, rebentaram-lhe as águas; um grupo de laureados que ali passava, aplaudiu com ruidosas gargalhadas. O batoque escuro, penteado a cascatas, recortava-se no terreno a golpes de canivete. A coisa ia ganhando forma e o público descalçava-se de admiração. Um funcionário zeloso, recolhia os atacadores numa bobine larga, unindo-os com nós tão pequenos que ia ser o cabo dos trabalhos para os desatar. Nisto, uma gralha listada desceu sobre a bobine, jurando a pés juntos avistar a mais fabulosa reunião de minhocas que jamais tinha tido o prazer de picar sobre. Fazemos aqui um parêntesis para confirmar aquilo que todos já suspeitavam: o desfocado pássaro enrodilhou-se nos cordões, desconfigurando a bobine; o funcionário, esse, foi conduzido à loucura, com indicações para nunca mais ter a indelicadeza de regressar.

20100505

Milford Road, Nova Zelândia (foto Rute Lucas) A criatura foi de uma delicadeza extrema. Quem a observasse com alguma frieza, sentiria nela aquele embaraço, que muitas vezes se sente, quando, por exemplo, espalmamos uma centopeia que entra no meio do texto no momento em que encerrávamos a obra com violência, possivelmente irritados pela falta de concentração necessária para usufruir daquele momento irrepetível. No entanto, a maioria dos embarcadiços segue atentamente a viagem do guarda-chuva, indiferentes ao facto de que, se ele se encontra fechado, não protege da secura e, se aberto, impede a vista de desatar a voar. Felizmente há quem se sente num bom banco talhado em madeira, para poder, com ponderação, permitir que a doce criatura tome santuário num recanto de uma atitude cúmplice.

20100502

Mangue Seco, Brasil Um furacão, digo-vos eu. Aqueles braços meigos empurram um par de mãos a velocidades de queimar um fogão. A falar encanta, num dialecto de gestos únicos: o polegar que desenha círculos na palma da outra mão, é só um bocadinho. Se as ondas ameaçam falta de ar, demove-as com gestos delicados. Faz cara de laranja azeda a todos os que não lhe tem doçura, mas não guarda lembrança dos podres. Joga o jogo-do-contente como ninguém; para soltar os restos de tristeza, bate com o ralo da banca nas paredes do lixo. Frágil, deixa marcas no que não está quieto e dá novas formas ao obsoleto. Uma opereta de gritos solta o riso do sisudo e de quem mais passa por Alcobaça. Não há quem não fique assombrado pelo ribombar da escadaria galgada em torrente; até os animais se encolhem, em reverência. Pinta uma tela e o nariz, a golpes soltos de cafeína. Se alguém lhe pede para sentar, já o tinha feito e, quando nos lembramos que precisamos de algo, já o providenciou. Tem quatro anéis à volta de uma vida e guarda o amor do mundo em bolsos esburacados. Falou a beduínos e banhou-se em terras de selva quente, mas uma barata descontrola-lhe as chineladas. Rescreve literatura e une a família. Só não quer é incomodar.

20100425

Xcaret, Península do Iucatão, México À primeira vista era indubitavelmente um armário. A prová-lo, as madeiras escuras de uma ex-colónia protegiam, em motivos arbóreos, o verde denso de um vidro que, martelado, nunca partia. Colossal, para um tamanho pequeno, assentava em quatro pés barrocos adornados a joanetes reluzentes. Adivinhavam-se prateleiras sóbrias e resistentes com algumas reservas em suportar pertences mais vulgares. Em suma, um receptáculo imóvel a cumprir funções. Mas quem, como eu, conhecia bem o interior deste armário soturno de sala de estudo, punha muitas reservas a uma definição tão marceneira. É que este armário, o da minha avó, tinha coisas do arco da velha. Senão vejam: aqui, um bode grisalho bebia de um balde campestre ao comando de uma alavanca de cobre sem nunca ficar saciado nem o balde vazio; ali perto, um burguês bonacheirão ressonava de consciência tranquila enquanto lhe iam despejando, à manivela, uma chusma de ratinhos pela goela abaixo; subindo uma prateleira, era comum encontrar Júlio Verne carregado de volumes, a empurrar a Mãe de Gorki contra o Sexus de Miller; poucos sabiam, mas havia um frasco, pudicamente escondido atrás de uma roda de cores giratória, que aguardava em estado líquido a evolução de um parente antigo; já cá em baixo, sepultada num gavetão, a urna do pintor Henrique Cardoso assentava numa pira de carvões e esfuminhos. Uma tarde destas terminava, com regularidade, pela audição de 'Pappa con Pomodoro' de Rika Zarai, em riscos de vinil sobre gramofone portátil.

20100331

Ilha da Boa Vista, Cabo Verde O ilhéu, separado do continente por um braço de mar, tinha uma fortaleza com seis canhões apontados para o lado errado. Às suas costas chegaram hordas de polipropilenos em jangadas de vasilhames que rapidamente surpreenderam a bateria sonolenta, enferrujando-a logo ali. Tomado o ilhéu, a noite foi lambida a fogo, imolando-se os trastes num festim pagão. No dia seguinte, as cinzas reunidas em pequenos grupos envergonhados, dispersavam-se na aridez da impunidade.
Chichén Itzá, México Em duas penadas: a escrita do caminhar tem sido inexplicavelmente negligenciada. Páginas e páginas de relatos literalmente arrasadas por correntes de ar viciado. Não nos dizem tudo, as pegadas num areal? A linha funda e sinuosa de uma consciência pesada, o pé-ante-pé imponderável dos amantes, não deveria tudo isto ser medido, registado e cartografado? Para quê plagiar tendenciosamente com as mãos tudo o que os pés já deixaram bem claro na genuína espontaneidade de um corpo inconsciente? E não me refiro apenas às zonas densamente povoadas onde todos deixam marcas e acabam por dizer muito pouco; levante-se o olhar do chão e conseguimos ver além, em solo agreste, tímidas linhas de passos arrojados, caminhados por anónimos calcorreadores. Formem-se já batalhões de analistas de trajecto, licenciem-se os cartógrafos de rasto; urge seguir estas peugadas antes que sejam pisadas de novo. No entanto, e para que não se ficcione a veracidade dos caminhos, o estudioso destas matérias deverá possuir uma de duas características que impeça que os seus próprios passos se imiscuam nos trajectos em estudo: ter algo de pássaro ou, em alternativa, de anjo; algo que mantenha o percurso intocado. Poderá o leitor mais cínico dizer que, se pássaro, a atenção logo se virará para a mais gorda minhoca e se anjo, pouco ou nenhum interesse terá pelos assuntos terrenos, uma vez que sabe de antemão o destino de todas as coisas. Poderá.

20100330

Ilha da Boa Vista, Cabo Verde Os barcos são lugares estranhos. Soltos das regras da terra, nunca chegam a estar verdadeiramente ao nível do mar. Andam, navegam, pelo meio da ideia que os homens têm como destino. Podemos pensar que encontramos um cargueiro atordoado a cravar os dentes na areia como que a repensar todos os erros que o colocaram nesse impasse, mas tudo não passa, como constatamos a seguir, de uma imprudência causada pela bruma seca com que as areias do deserto próximo nos confundem, impedindo a clara e enferrujada visão de décadas de coisas estranhas que teimam em flutuar.

20100328

Calheiros, Ponte de Lima, Portugal O velho cetáceo corcunda deslizava numa migração tranquila quando sentiu um enorme desejo de saltar fora de água. Ora se numa baleia-de-bossa um desejo só pode ser enorme, a vontade de o concretizar é, inevitavelmente, imensa. E não pensou duas vezes pois isso implicaria um novo mergulho abissal seguido de um esguicho ciclópico que lhe causava imensas dores abdominais. Assim, sem mais demoras, flectiu a barbatana dorsal em movimentos ascendentes, impulsionou o gracioso volume na direcção da superfície e emergiu, lançando meio corpo fora de água, enquanto rasgava um sorriso de barbatana a barbatana, caindo a seguir de costas com um estrondoso sucesso. Nesse mesmo instante, um turista demasiado obeso fez uma 'bomba' na piscina do resort enquanto o barman lançava uma pedra de gelo não tratado num copo meio cheio de grogue, salpicando o balcão já peganhento. Pode-se verdadeiramente medir o nível de satisfação de um acto espontâneo pela magnitude da sua ostentação? Uma gota de suor cai do corpo musculado num hibisco praticamente seco.

20100326

Kamakura, Japão O pescoço taurino emergiu das águas trazendo consigo uma cabeça das mais redondas que se podem imaginar. Estava em paz, ondulando ao sabor agridoce da brisa soalheira. Imaginavam-se dois olhos, pela atenção com que fixava a lonjura. Alguns cínicos, agachados num ponto de vista mais seco, conjecturavam sobre o que escondia aquele pico de icebergue, mas nós, com uma experiência de anos à tona de água, sabemos bem que abaixo daquele pescoço hercúleo existe apenas uma longa corrente atada ao tampo de um ralo.
Nova Iorque, EUA A vedação alta apanhou um magote de transeuntes. Com os dedos entrelaçados na rede, faziam leves sinais com a cabeça, entre eles, pontuados por um ou outro escarro lateral. Os lábios inferiores distendidos apontavam para a frente, em vigorosos movimentos de queixo. Tinham os dias contados. O responsável da obra não gostava de mirones. Mandou recolher as redes, entregar a apanha do dia a um lar de idosos e levantou um muro, o que lhe tirou a luz. Às cegas escavou um túnel, o que lhe tirou a escolha; foi sair do outro lado caindo na malha apertada da populaça. O que lhe tirou o pio.

20100304

Sydney, Austrália Em plena savana de Masai Mara, uma curva apertada do rio Talek agarra um bosque de acácias. Na margem, uma tenda assiste à chegada da noite africana. Fechado no interior deste enclave um homem tenta, em vão, adormecer. Os dois metros quadrados do seu território não são fáceis de defender. Impotente, ele observa as sombras que entram e lentamente afundam o seu corpo em escuridão. Um cheiro hostil tinha já invadido o espaço e ressonava a um canto. As paredes mexem muito devagar, dando um ar irreal à sua insónia. Deitado de costas ele sente os toques insistentes da lona, enquanto fixa a estrutura de alumínio, mantendo-a presa. Por instantes tenta perceber como foi capaz de deixar o conforto de uma vida picada a ponto para se deitar a perder nesta viagem de fanfarronice. - Mulheres,... e aqueles palhaços da seguradora - rosnou, irritado. O som da sua voz soou-lhe estranho, naquele silêncio, e espantou as suas divagações. Estava de novo alerta; reparou que se mantinha vestido e calçado como se fosse a algum lado. Isso, e a impossibilidade de se levantar, com aquele pé direito, dava-lhe um certo ar de defunto. A pouco e pouco os ouvidos começaram a abrir-se aos sons que acordam lá fora, deixando-o com a desconfortável sensação de estar isolado mas não sozinho. Cada guincho, cada resvalo, cada resfolgar longínquo, trazia consigo algo estranho, inquietante. A memória auditiva é um poderoso tranquilizante; um estouro de um escape livre, um ranger do soalho, um grito de mulher histérica, tudo pode ser digerido com um sorriso, conhecendo-lhe a causa; agora isto... De súbito, um estalar seco de ramos quebrados com violência trazem uma respiração forte e possante ao lado de fora da tenda. Coberto por um formigueiro, o homem encolhe, pára de respirar e sente o impacto de 6735 folhas secas a serem esmagadas por 938 pequenos galhos secundários que se estilhaçam sobre si próprios, cravando farpas num solo já vermelho. De súbito, o silêncio. Quase sem ar, o homem arrisca uma golfada lenta; lá fora, um exalar gutural seguido de dois passos secos fá-lo arrepender-se. O imponente colosso, pois só assim o pode ser, rodeia o perímetro em passadas que marcam o terreno. Pelo baque deve ter uns oito cepos por membros, atirando-os em movimentos lentos e descompassados. Parece não ter pressa. Parece que sabe o poder que exerce sobre aquele homem envolto em mortalha. Entretanto o homem roda sobre si mesmo, expondo umas costas ensopadas em suor e olha fixamente para o fecho de abertura da tenda, agora à sua frente. Na escuridão total aquele fecho tem um brilho tentador, convidando-o a abrir os seus dentes afiados. Mas o homem não se mexe. Analisa o adversário, que parece dirigir-se agora para a borda d'água. Um a um os oito troncos sulcam ruidosamente o leito do rio - um mero fio de nascente face àquele leviatão. Assim obstruído, o caudal transborda e aproxima-se perigosamente da tenda. O homem quase arrisca deslizar para mais perto da entrada quando um novo som redesenha-lhe o monstro; com os membros ainda a revolver a água, o topo de uma acácia é quebrado em dois numa chicotada. "Pelo menos três corpos de altura,...e uns vinte tentáculos.", pensou. Da ramagem arrancada, vinham sons triturados de um ruminar pastoso. Já invadido pela água barrenta do rio, o homem experimenta deixar passar o calor de uma ligeira saudade das tardes tranquilas a preparar processos de fraude, em frente ao enorme relógio de parede do escritório, mas curiosamente a sensação não foi apaziguadora; era como se parte de si estivesse já a ser devorada pelo ser sem forma que se expandia lá fora, eriçando os seus instintos mais adormecidos. Chegou-se ainda mais perto do fecho dentado, sentindo-o roçar-lhe a testa. O odor à pele velha e húmida daquele gigante disforme, subia agora a margem na sua direcção. Antecipando o confronto, o homem deixa-se tomar um pouco mais pela sua simetria e arqueia ligeiramente a espinha dorsal, juntando as omoplatas. Já não é só um homem. É o fim de uma hibernação. A tenda começa a tomar uma forma humana. No exterior, a encarnação mitológica avança pesadamente pela zona pantanosa que agora envolve a tenda. Bruscamente, muda de direcção, contornando-a. O homem, impossibilitado de rodar dentro do seu casulo, apercebe-se que o monstro se estendeu e que tem agora uma muralha de carne viva a envolvê-lo. Um bafo quente e húmido ensopa o ar de miasmas e acelera o seu metabolismo. As mãos cravam-se no fecho reluzente, aguardando a ordem que os dentes não descravam da língua muda. Tudo se cala, na noite. Um frenesim contido vibra no couro da besta. É então que um formidável bramido rasga a savana e estala a estrutura da tenda. De imediato duas mãos esventram o fecho metálico e um corpo arqueado lança-se em pleno ar num grito muito pouco humano. Estremunhado, o velho elefante acorda, olhando em redor. A vinte passos, a toda a volta, continuava ali o fosso escuro. Depois, as grades em forma de lança africana. Mais além, depois do passeio bordado a relva artificial, estava o muro alto e, ao longe, os últimos andares de alguns prédios de escritórios. Tirando o novo casal de hienas, em quarentena, todo o jardim zoológico dormia. O paquiderme passou a tromba pelas têmporas enxugando alguns suores nocturnos. Não tinha memória de um pesadelo assim. E a sua memória era prodigiosa, diziam. Se bem que, sendo nascido e criado em cativeiro, a memória era coisa que não tinha muita utilidade. Tinha de admitir que podia muito bem estar a precisar de ajuda profissional. Fumou um cigarro, enquanto esticava as pernas pelo pátio, prometendo a si mesmo marcar uma consulta no dia seguinte, à primeira hora.

20100213

Porto, Portugal Toda a gente fala de gigantes. Mas só uns poucos apanham as pontas de alinhavos esquecidas no soalho. E quase nenhuns semicerram os olhos aos padrões dos pavimentos de granito. Um brado tonitruante assusta, mas também revela uma posição débil, enquanto que um sussurro atrás de reposteiros pesados pode silenciar uma multidão. Mas é de nuvens que as cabeças se alimentam e não das gotas de suor que se evaporam por elas. Um esforço conjunto do polegar e indicador traz à atenção uma unha morta, curvada no seu próprio esquecimento. Seguram-na carinhosamente por uma das pontas facetadas enquanto sopram a mortalha de pó que a envolve. Ambos sentem uma angústia de perda, um amor parental distante, mas não conseguem evitar deitá-la à companhia de excrementos.
Xcaret, Península do Iucatão, México - A minha filha fez febre – lançou a mãe, orgulhosa. - Hm, uma febrezita? – bocejou a outra mãe, perdida em pensamentos de leite. - Febrezita? Mais de 70 graus! Prostrou todo o infantário. – cantou gloriosa, a primeira, em honra da petiza rosada. - A minha, – ignorou a outra com um sorriso – fez um berreiro tal, no Domingo, que derreteu a paciência da congregação inteira enquanto vomitava nos 27 cestos da colecta, o anjinho. - Eu, quando chego a casa, – ribombou a progenitora como uma peça de artilharia – nunca sei o que vou encontrar; aliás, muitas vezes nem a encontro, de tão virada do avesso que está; é só entranhas, canos e mortos velhos, de tão levada da breca que a minha menina é. - Nem queira saber o que a minha fez, ainda há dias; atirou com os sete volumes do Proust da estante abaixo e meteu à boca todas as páginas que tinham notas de rodapé escritas a lápis pelo pai. - esbofeteou com alvura a maternal adversária. Nisto, uma terceira mãe entra em cena - "Mui alegre e prazenteira, mui ufana e esclarecida, mui perfeita e mui luzida, muito mais que de antes era."

20100206

Uluru, Austrália qual é a coisa, qual é ela que se diz e por dizer, enrola a glote antes da língua do bolor raspa a penugem e aquelas manchas que custam a sair e desmancha os ombros encolhem mas não estão indiferentes ao frio que racha a fala todos são nada do que fui e regurgitam biscuit de fancaria que disponho religiosamente em escaparates de incineradoras onde me mostro e acabo também, diluído em nada meu, parasita hospedeiro sorrateiro sublimo aquela coisa, que faz franzir a pose e leva vara, manada e cardume dócil cubro-me de pele alheia e vou dando fisgadas em cada boca que se abre, escondido mas nunca sei qual é ela.
Blue Mountains, Austrália O ar seca, numa guelra de nervos ofegante entre tacto e toque; escapa-se o suor entre os medos.
Tóquio, Japão Novelo em punho, entro no labirinto de ideias-não-concebidas. Demasiado tarde percebo que devia ter deixado uma ponta de fio presa à realidade. Olho para a emaranhada felpuda, e noto um esgar sarcástico. Ainda tento domesticá-la, tricotando um mapa, mas os dedos picam-me como agulhas. Irritado, desenrolo o fio matreiro em forma de palavras acesas que, de tão rubras, rapidamente se transformam num rastilho a chispar na minha cauda. Só de pensar na bomba de coisas ensarilhadas que tenho entre mãos, desato a escrever uma saída.