Ilhas Cies, Galiza, Espanha
Há qualquer coisa de assustador num arbusto. Numa moita há, quando muito, uma coisa qualquer. Agora num bueiro sombrio, isso já é outra história e começa assim: “O último raio de sol penetrava a sarjeta, morno e indiferente à sua condição estéril.” Os estudiosos que seguem, na última década, a migração rolada do arbusto seco norte-americano, começam a suspeitar que isso não os está a levar a lado nenhum, que estão a ser ludibriados pela astuciosa carcaça. No seu desespero percebe-se o quanto de sofrimento humano há na pose petrificada de um galho. À flor da pele abrem-se nervuras e fecham-se as larvas que nos vão ratando aos poucos. É por isso que a água das jarras muda; pelo medo de envelhecer.
20100917
Ilhas Cies, Galiza, Espanha
Há qualquer coisa de assustador num arbusto. Numa moita há, quando muito, uma coisa qualquer. Agora num bueiro sombrio, isso já é outra história e começa assim: “O último raio de sol penetrava a sarjeta, morno e indiferente à sua condição estéril.” Os estudiosos que seguem, na última década, a migração rolada do arbusto seco norte-americano, começam a suspeitar que isso não os está a levar a lado nenhum, que estão a ser ludibriados pela astuciosa carcaça. No seu desespero percebe-se o quanto de sofrimento humano há na pose petrificada de um galho. À flor da pele abrem-se nervuras e fecham-se as larvas que nos vão ratando aos poucos. É por isso que a água das jarras muda; pelo medo de envelhecer.
20100908
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
Ainda há gente séria. Gente a quem a gargalhada forra as entranhas e, quando solta, sopra as brasas frias das almas que arrepanha. São aqueles poucos que, pela rectidão da sua postura pantomineira, poupam as vidas das cidades condenadas.
A gente séria assim, podemos-lhe confiar, se não a vida, pelo menos o almoço, já servido na boa faiança, assim como a carteira e os óculos, esquecidos na mesa, enquanto saímos apressadamente para atender uma chamada.
A fazer fé num estudo de cientistas de uma universidade obrigatoriamente norte-americana, tal estado de graça é a imagem, esculpida em Carrara, de quem tem como ofício algo que não suporta. Se queremos ver alguém mortificado é olhar o pateta que enfunou o coração ao abraçar uma carreira a seu gosto; vê-lo-emos arrastar esse devaneio pela vida fora, qual pano do pó pendurado no bolso de trás, limpando com ele toda a baba dos batráquios intragáveis que, prazenteiros, se vão alinhando à sua frente, até que aquilo para o que nasceu, o seu dom-de-musa, mirra entre as almofadas do sofá.
O segredo está, permito-me dizê-lo aqui numa perspectiva fundamentalmente altruísta, na satisfação que é tomar e amarrar a profissão mais abominável a uma parelha de cavalos Frísios e galopar assim pelo empedrado da vida, rindo seriamente a cada solavanco. O ponto será picado sem causar qualquer tipo de habituação e podemos guardar por debaixo daquela tábua solta do soalho, tudo aquilo que nos vai fazer sorrir.
Quem fraquejar e se tentar a olhar para trás, arrisca-se a ficar transformado numa figura azeda.
20100814
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
De labaredas ao vento, o jovem fogacho lavra em terreno seco. Nivela a mata suja, espalha brasas e lança mancheias de cinza escura.
Ao longe, um homem descobre o fogo e desata a gritar e a gesticular, reunindo um grupo de gente, também ela, muito excitada. De balde e ramos verdes, a multidão cerca as chamas, açoitando-lhes os calcanhares enquanto, no calor da refrega, alguns mais afoitos desatam a urinar-lhes nas plantas dos pés.
O fogo, suado, fica pasmado com esta falta de consideração. Ainda há pouco um destes escaravelhos o tinha ateado e instruído das terras a lavrar, e agora cortam-lhe as vazas e mijam-lhe em cima. Acossado, aproveita uma rabanada de vento e trepa pelo eucalipto mais alto, erguendo a sua tocha, em desafio.
No horizonte, um bombardeiro d'água aproxima-se, de tanques cheios.
A língua do fogo seca e uma nuvem de faúlhas zomba em seu redor.
- Que pena não ter trazido comigo uma daquelas camponesas roliças que dali esganiçam. - pensou, empoleirado no alto do eucalipto, enquanto batia com os punhos no peito. - Dava uma bela alegoria.
20100808
Porto, Portugal
A Árvore da Eterna Felicidade, crescendo em locais inacessíveis, é facilmente reconhecida pela folha caduca.
No seu encalço, a estrada que atravessa o rio arregaça a saia, e cruza o vau em passos de arco. Depois, como dizem os que nunca tiveram a coragem de se fazer a ela, atravessa montes e vales, quando, na realidade, serpenteia pelas fragilidades de cada um. Quem aponta o coração nesta busca, e que por poesia lhe chama quimera, acaba por ficar à margem das águas a lançar seixos espalmados, cujos saltos, vivaços de início, rapidamente perdem a genica, como o mandante. Os frutos sabem a deliciosos magnórios doces.
20100802
Xpu-Ha, México
- Quando menos se espera, o doutor chama – tranquilizou a recepcionista. O pequeno dardo atingiu o paciente em plenos pulmões. Com uma respiração pesada o imenso vale abateu as suas colinas, permitindo o aluvião. As águas, a perder de vista, imobilizaram-se, esfregando os olhos. Um ardor medonho fez vir ao de cima o que de pior existe nas profundezas. O mal, habituado à sombra, apanhou um escaldão e ruborizou-se como uma nórdica. Atraídos por este modelo de perfeição, homens de toda a terra vieram medir forças. A força maior motivou as gerações mais jovens a dedicarem-se ao ar livre. Apicultores, agrimensores, caçadores de caranguejos, feirantes, jogadores de badminton e outros, multiplicaram-se de tal forma que congestionaram o meio ambiente.
Agora só nos resta os extremos.
20100729
Nubia, Egipto
No princípio, era um frio de rachar.
Atabalhoado, enchia-me de roupa, às camadas. Cada uma abafava a interior, deixando os primeiros rasgos pálidos de mofo. Arrastando-se pela sarja, puíam a ganga nos joelhos, como se fosse chita.
Então alguém disse "Estiquem a corda."; e o ar aqueceu.
Os trapos velhos foram-se descascando e a própria pele, agora exposta, esfolou ao sol.
Foi então que, na segurança das molas, as peças mais íntimas começaram a esvoaçar. E a corar. De satisfação.
20100720
Chichén Itzá, México
Deixei crescer uma barba. Não é propriamente uma barba e, sejamos rigorosos, ela está-se nas tintas para o que eu a deixo ou não deixo fazer. Seria então mais correcto dizer que uma nuvem tomou conta da minha cabeça. Quem me vê a passar numa galeria comercial apinhada, olha em redor, receando chuva.
Ultimamente está tão crescida que comecei a tropeçar nela, na barbicha, como eu carinhosamente lhe chamo. Devia-me sentir orgulhoso, mas sinto-me a asfixiar. Ela é agora um arbusto imenso - não - um pinhal manso apertado daqueles que os excursionistas que vêm apreciar as amendoeiras em flor imaginam ocultar o monte onde irão comer qualquer coisa e pendurar as suas camas de rede, durante a tarde.
Como monte que sou, agora, custa-me muito passear até à baixa ou fazer a marginal ao domingo de manhã. Travei conhecimento com uma família de toupeiras que me tratam com muita consideração. Dizem-me que grandes áreas da minha barba (chamo-lhe minha, ainda) estão a ser devoradas pelas chamas e que apenas a zona do bigode foi considerada reserva protegida.
Tudo isto entristece-me profundamente. Nunca me gostei de ver só de bigode.
20100713
Porto, Portugal
A solidão apoia-se numa só perna. Cada braço inerte esconde-se do outro atrás do corpo baço.
Pergunta quem passa "Como se tem em pé?", alheios ao desequilíbrio que provoca tal arremesso.
Um salto a pé-coxinho pressupõe uma esperança de elevação, ao início, e um desânimo cansado, na queda.
Ou será antes uma vontade de se lançar no vazio logo agrilhoada por uma réstia de teimosia?
O espelho baixa-lhe os olhos, pois traz a ilusão de partilha na franqueza de um retrato cru.
A outra perna tem cãibras.
20100712
Vila Nova de Gaia, Portugal
O polegar e o indicador tamborilam, impacientes. Aguardam ordens. O ritmo é caribenho; a fome é negra. Sem cerimónia, entram juntos no estreito pacote metalizado. Assim como entram, logo param, assustados. À sua volta, as paredes quebradas espelham milhares de dedos disformes numa agressiva posição de tenaz. Não fosse a gordura que as embacia, tinham perdido o tino e ganho tonturas. Resolvem fechar os olhos e ir mais fundo, à cata da última batata. Mas esta é fina e mete-se no canto do pacote. Os dedos, de tanto foçar, espetam migalhas duras debaixo das unhas. Feridos e sebentos, recuam amuados, deixando um rasto de sangue gordo.
O pacote é abandonado no entulho.
Dois dias depois, a batata assume que é seguro sair.
Mal põe o pé de fora é devorada por um Diabo da Tasmânia que ali montava cerco desde que tinha sentido o odor do tubérculo. Em alturas de escassez estes mamíferos marsupiais podem também comer insectos, cobras e frutos.
20100704
Nova Iorque, EUA
Um escritor publicado lia, num silêncio atento, o primeiro manuscrito de um jovem sentado à mesma mesa redonda. Ao seu lado, um romancista de referência deitava uns olhos curiosos às provas corrigidas do mais recente trabalho deste escritor. Entre o romancista e o jovem - como a mesa é pequena! - um laureado das letras tomava, com mão céptica, o peso do último romance publicado pelo autor de referência. De um lugar por onde nunca se imaginaria aparecer tal coisa, emergiu uma garoupa que abocanhou o laureado, cuspindo o romance.
E assim por diante.
20100608
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
Tomei nota. Tomava água, de melhor grado. Sou reles e daninha, não se deixem enganar pela aparência verde; na melhor oportunidade abafo-os.
Aos poetas, basta lançar-lhes um punhado de palavras quietas para cuspirem ordeiramente frutos desabrochados; eu, rastejo-lhes nas pernas, sugando a sombra, crescendo na sua humidade.
Ouvi. Gritava-lhes palavrões, se tivesse boca. Sou lesma, de baba e rasto, nem um nem outro, e roo-lhes as faces.
Existo no meu, para lhes dar o outro lado.
20100606
Barca d'Alva, Portugal
O pássaro branco debicava aperitivos entre duas Estrelas da Galiza. Do outro lado do passadiço, duas galegas fingiam não se ruborizar com a sua pinta encarnada, por onde iam resvalando sobras de milho tostado.
Ele pediu uma terceira cerveja enquanto dava uma volta larga sobre a cabeça delas. Revelaram-se ser apenas uma, em pleno exercício de pregoeira.
O viril emplumado perdeu o interesse e esvoaçou em busca de caudas mais arvoradas.
20100530
Key Largo, Florida, EUA
"É tão grande que podia bem encher-se de importância.", comentava uma senhora sentada.
Alheio a isto, um penhorista, cheio de cautelas, tem a infelicidade de entrar com o pé esquerdo num charco de águas paradas, pisando os bigodes a um barbo. De imediato desfaz-se em desculpas, que ficam a boiar, espalhadas. O peixe, que pela sua natureza não pode evitar de engolir todas aquelas migalhas suculentas à tona d'água, atribui algum exagero à reacção do penhorista, mas o bigode dorido toma o partido contrário.
Um velho, estranhamente parecido com um assessor de colégio, finge-se atento a um enorme Metrosídero, aborrecido por o terem feito meter o nariz nesta história.
Curiosamente, todas estas coisas aparentemente soltas, têm um fio condutor. Não precisamos todos de umas palavras de salvação?
20100517
Uluru, Austrália
E, numa pirueta, rebentaram-lhe as águas; um grupo de laureados que ali passava, aplaudiu com ruidosas gargalhadas. O batoque escuro, penteado a cascatas, recortava-se no terreno a golpes de canivete. A coisa ia ganhando forma e o público descalçava-se de admiração.
Um funcionário zeloso, recolhia os atacadores numa bobine larga, unindo-os com nós tão pequenos que ia ser o cabo dos trabalhos para os desatar. Nisto, uma gralha listada desceu sobre a bobine, jurando a pés juntos avistar a mais fabulosa reunião de minhocas que jamais tinha tido o prazer de picar sobre.
Fazemos aqui um parêntesis para confirmar aquilo que todos já suspeitavam: o desfocado pássaro enrodilhou-se nos cordões, desconfigurando a bobine; o funcionário, esse, foi conduzido à loucura, com indicações para nunca mais ter a indelicadeza de regressar.
20100505
Milford Road, Nova Zelândia (foto Rute Lucas)
A criatura foi de uma delicadeza extrema. Quem a observasse com alguma frieza, sentiria nela aquele embaraço, que muitas vezes se sente, quando, por exemplo, espalmamos uma centopeia que entra no meio do texto no momento em que encerrávamos a obra com violência, possivelmente irritados pela falta de concentração necessária para usufruir daquele momento irrepetível.
No entanto, a maioria dos embarcadiços segue atentamente a viagem do guarda-chuva, indiferentes ao facto de que, se ele se encontra fechado, não protege da secura e, se aberto, impede a vista de desatar a voar.
Felizmente há quem se sente num bom banco talhado em madeira, para poder, com ponderação, permitir que a doce criatura tome santuário num recanto de uma atitude cúmplice.
20100502
Mangue Seco, Brasil
Um furacão, digo-vos eu.
Aqueles braços meigos empurram um par de mãos a velocidades de queimar um fogão. A falar encanta, num dialecto de gestos únicos: o polegar que desenha círculos na palma da outra mão, é só um bocadinho.
Se as ondas ameaçam falta de ar, demove-as com gestos delicados. Faz cara de laranja azeda a todos os que não lhe tem doçura, mas não guarda lembrança dos podres. Joga o jogo-do-contente como ninguém; para soltar os restos de tristeza, bate com o ralo da banca nas paredes do lixo.
Frágil, deixa marcas no que não está quieto e dá novas formas ao obsoleto. Uma opereta de gritos solta o riso do sisudo e de quem mais passa por Alcobaça. Não há quem não fique assombrado pelo ribombar da escadaria galgada em torrente; até os animais se encolhem, em reverência.
Pinta uma tela e o nariz, a golpes soltos de cafeína. Se alguém lhe pede para sentar, já o tinha feito e, quando nos lembramos que precisamos de algo, já o providenciou. Tem quatro anéis à volta de uma vida e guarda o amor do mundo em bolsos esburacados.
Falou a beduínos e banhou-se em terras de selva quente, mas uma barata descontrola-lhe as chineladas. Rescreve literatura e une a família.
Só não quer é incomodar.
20100425
Xcaret, Península do Iucatão, México
À primeira vista era indubitavelmente um armário. A prová-lo, as madeiras escuras de uma ex-colónia protegiam, em motivos arbóreos, o verde denso de um vidro que, martelado, nunca partia. Colossal, para um tamanho pequeno, assentava em quatro pés barrocos adornados a joanetes reluzentes. Adivinhavam-se prateleiras sóbrias e resistentes com algumas reservas em suportar pertences mais vulgares. Em suma, um receptáculo imóvel a cumprir funções.
Mas quem, como eu, conhecia bem o interior deste armário soturno de sala de estudo, punha muitas reservas a uma definição tão marceneira.
É que este armário, o da minha avó, tinha coisas do arco da velha. Senão vejam: aqui, um bode grisalho bebia de um balde campestre ao comando de uma alavanca de cobre sem nunca ficar saciado nem o balde vazio; ali perto, um burguês bonacheirão ressonava de consciência tranquila enquanto lhe iam despejando, à manivela, uma chusma de ratinhos pela goela abaixo; subindo uma prateleira, era comum encontrar Júlio Verne carregado de volumes, a empurrar a Mãe de Gorki contra o Sexus de Miller; poucos sabiam, mas havia um frasco, pudicamente escondido atrás de uma roda de cores giratória, que aguardava em estado líquido a evolução de um parente antigo; já cá em baixo, sepultada num gavetão, a urna do pintor Henrique Cardoso assentava numa pira de carvões e esfuminhos.
Uma tarde destas terminava, com regularidade, pela audição de 'Pappa con Pomodoro' de Rika Zarai, em riscos de vinil sobre gramofone portátil.
20100331
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
O ilhéu, separado do continente por um braço de mar, tinha uma fortaleza com seis canhões apontados para o lado errado. Às suas costas chegaram hordas de polipropilenos em jangadas de vasilhames que rapidamente surpreenderam a bateria sonolenta, enferrujando-a logo ali.
Tomado o ilhéu, a noite foi lambida a fogo, imolando-se os trastes num festim pagão. No dia seguinte, as cinzas reunidas em pequenos grupos envergonhados, dispersavam-se na aridez da impunidade.
Chichén Itzá, México
Em duas penadas: a escrita do caminhar tem sido inexplicavelmente negligenciada. Páginas e páginas de relatos literalmente arrasadas por correntes de ar viciado.
Não nos dizem tudo, as pegadas num areal? A linha funda e sinuosa de uma consciência pesada, o pé-ante-pé imponderável dos amantes, não deveria tudo isto ser medido, registado e cartografado? Para quê plagiar tendenciosamente com as mãos tudo o que os pés já deixaram bem claro na genuína espontaneidade de um corpo inconsciente?
E não me refiro apenas às zonas densamente povoadas onde todos deixam marcas e acabam por dizer muito pouco; levante-se o olhar do chão e conseguimos ver além, em solo agreste, tímidas linhas de passos arrojados, caminhados por anónimos calcorreadores.
Formem-se já batalhões de analistas de trajecto, licenciem-se os cartógrafos de rasto; urge seguir estas peugadas antes que sejam pisadas de novo.
No entanto, e para que não se ficcione a veracidade dos caminhos, o estudioso destas matérias deverá possuir uma de duas características que impeça que os seus próprios passos se imiscuam nos trajectos em estudo: ter algo de pássaro ou, em alternativa, de anjo; algo que mantenha o percurso intocado.
Poderá o leitor mais cínico dizer que, se pássaro, a atenção logo se virará para a mais gorda minhoca e se anjo, pouco ou nenhum interesse terá pelos assuntos terrenos, uma vez que sabe de antemão o destino de todas as coisas. Poderá.
20100330
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
Os barcos são lugares estranhos.
Soltos das regras da terra, nunca chegam a estar verdadeiramente ao nível do mar. Andam, navegam, pelo meio da ideia que os homens têm como destino.
Podemos pensar que encontramos um cargueiro atordoado a cravar os dentes na areia como que a repensar todos os erros que o colocaram nesse impasse, mas tudo não passa, como constatamos a seguir, de uma imprudência causada pela bruma seca com que as areias do deserto próximo nos confundem, impedindo a clara e enferrujada visão de décadas de coisas estranhas que teimam em flutuar.
20100328
Calheiros, Ponte de Lima, Portugal
O velho cetáceo corcunda deslizava numa migração tranquila quando sentiu um enorme desejo de saltar fora de água. Ora se numa baleia-de-bossa um desejo só pode ser enorme, a vontade de o concretizar é, inevitavelmente, imensa. E não pensou duas vezes pois isso implicaria um novo mergulho abissal seguido de um esguicho ciclópico que lhe causava imensas dores abdominais. Assim, sem mais demoras, flectiu a barbatana dorsal em movimentos ascendentes, impulsionou o gracioso volume na direcção da superfície e emergiu, lançando meio corpo fora de água, enquanto rasgava um sorriso de barbatana a barbatana, caindo a seguir de costas com um estrondoso sucesso.
Nesse mesmo instante, um turista demasiado obeso fez uma 'bomba' na piscina do resort enquanto o barman lançava uma pedra de gelo não tratado num copo meio cheio de grogue, salpicando o balcão já peganhento.
Pode-se verdadeiramente medir o nível de satisfação de um acto espontâneo pela magnitude da sua ostentação?
Uma gota de suor cai do corpo musculado num hibisco praticamente seco.
20100326
Kamakura, Japão
O pescoço taurino emergiu das águas trazendo consigo uma cabeça das mais redondas que se podem imaginar. Estava em paz, ondulando ao sabor agridoce da brisa soalheira.
Imaginavam-se dois olhos, pela atenção com que fixava a lonjura.
Alguns cínicos, agachados num ponto de vista mais seco, conjecturavam sobre o que escondia aquele pico de icebergue, mas nós, com uma experiência de anos à tona de água, sabemos bem que abaixo daquele pescoço hercúleo existe apenas uma longa corrente atada ao tampo de um ralo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)