Phnom Penh, Cambodja
Um C de campo, cheio de voluptuosas beringelas da Índia, aquelas roxas de pedúnculo verde que nos fazem diabretes. Depois um A, de fim de zebra labiríntica, criatura onde só nos conseguimos perder, pois nunca a encontramos quieta. No N nada vigorosa, em pernada de barbatana, pondo a vaga num tubo que se desenrola em água morna. Quem se chega ao lânguido G, de lagarto de contas, não calcula a alhada em que está metido, se não lhe der o devido valor. Reencontrado o angélico A, somos levados a pensar - que ingenuidade - num elegante déjà vu, quando, na realidade, é um novo reflexo do espelho embaciado por biscoitos e bolinhos de forno, no bulício do pequeno almoço. Se olharmos para o L, com o devido respeito, sentimos nele algo de tailandesa no arrozal, de convicções fortes e mão certeira, postura de junco e base de templo.
Ah! - aspiramos fundo, no silêncio do H – façamos uma pausa.
Mais tarde, nada impede que se encontre o A, pela terceira vez, na cor amarela, e muito menos que se rasgue um sorriso de satisfação ao sentir o coração tão quente, tão primário. Mesmo inevitável, é semicerrar os olhos ao poderoso S, de sol, de fim dos enigmas e do princípio da sorte.
20110203
Phnom Penh, Cambodja
Um C de campo, cheio de voluptuosas beringelas da Índia, aquelas roxas de pedúnculo verde que nos fazem diabretes. Depois um A, de fim de zebra labiríntica, criatura onde só nos conseguimos perder, pois nunca a encontramos quieta. No N nada vigorosa, em pernada de barbatana, pondo a vaga num tubo que se desenrola em água morna. Quem se chega ao lânguido G, de lagarto de contas, não calcula a alhada em que está metido, se não lhe der o devido valor. Reencontrado o angélico A, somos levados a pensar - que ingenuidade - num elegante déjà vu, quando, na realidade, é um novo reflexo do espelho embaciado por biscoitos e bolinhos de forno, no bulício do pequeno almoço. Se olharmos para o L, com o devido respeito, sentimos nele algo de tailandesa no arrozal, de convicções fortes e mão certeira, postura de junco e base de templo.
Ah! - aspiramos fundo, no silêncio do H – façamos uma pausa.
Mais tarde, nada impede que se encontre o A, pela terceira vez, na cor amarela, e muito menos que se rasgue um sorriso de satisfação ao sentir o coração tão quente, tão primário. Mesmo inevitável, é semicerrar os olhos ao poderoso S, de sol, de fim dos enigmas e do princípio da sorte.
20110130
Petra, Jordânia
Como a porta da rua estava aberta, a de lá de cima bateu com um tal estrondo que até as varejas guinaram. Pendurada num fio de cediela, a máscara africana do riso estremeceu contra o vidro. O soalho de carvalho francês despertou e espreguiçou-se, estalando os nozinhos com violência. Ou as suas traves roçavam o solo do quintal, ou os torrões deste se afoitaram pela sala adentro. O certo é que na fronteira, ninguém sabia de que terra era.
Pela sala esvoaçavam já sombras de limoeiro, de tangerinas e até de pacíficos galhos de oliveira. Manchas de humidade decoravam os lacados em pastéis de fungo. Sentia-se uma saudade do bosque, nas madeiras, e nas plantas, um espírito libertador.
Nas águas de cima, o sótão estava com a telha em desalinho, de tão ventoso que estava, e a cave, se existisse aqui tal subterfúgio, estaria exactamente ao contrário.
Uma casa abandonada, se quiséssemos ser indelicados para o bando de pombas que tão carinhosamente atapetavam o soalho com os seus excrementos. E que dizer daquele quarto em que a porta não abria? Que peso morto era aquele que fincava o pé a menos de uma frincha?
A porta da rua encolheu as ombreiras e deixou-se ficar a arejar, rangendo de satisfação.
20110120
S21, Phnom Penh, Cambodja
O apêndice é vermiforme, coitado. E do seu ponto de vista, está tudo virado do avesso. Posto isto, resta dizer que, dada a proximidade fecal, nem um suspiro profundo de consternação lhe é permitido.
Em revolta muitos dirão "Que sofrimento atroz lhe deve remoer as entranhas!". Mas isto é não conhecer o tipo. Sofrer é um luxo a que não se pode dar. Ao primeiro queixume, movem-se diligências, abrem-se incisões de precisão cirúrgica e o apêndice, adereço, anexo, suplemento, acrescento, acessório, complemento, aditamento, é retirado. Assim, sem mais nem porquê.
20110115
Beng Mealea, Cambodja
A funcionária dos correios adorava aquele jogo solitário de encontrar um par. Jogava-o com qualquer um, insinuando-se o convite. Que bela que era, na tranquila eficácia com que ponderava as suas opções. Por mais agreste e ignota que fosse a terra, no sorriso escondido víamos-lhe a manha de saber das coisas. Só e sem medo, batia a esta e àquela porta até encontrar quem fizesse pandam.
Na sua busca era altruísta. Parecia um misto de chefe de bando e casamenteira, com a voz clara a arrebanhar e casar os que ficavam pelo caminho. Velocista no passo, fazia o seu jogo sem pressas. Sabia que o chegar à alma gémea acabava com tudo e, por isso, fazia de conta que se enganava.
No fim, Rosa enterrava sempre as duas últimas cartas no meio do baralho, sem as virar. Sem fazer o último par. A vida era-lhe demasiado preciosa para terminar.
20101226
S21, Phnom Penh, Cambodja
A ministra Thirith guardava o crânio de Yorick na pasta dos assuntos sociais, embrulhado num krama axadrezado. Resolvidos os afazeres oficiais, ela dedicava-se a longas conversas com o seu velho companheiro de faculdade. Este, à semelhança de outros crânios, levantava questões tão fundamentais, que a senhora, furibunda, só lhe apetecia reduzi-lo à vulgaridade. Nesses momentos, tomava um passo miudinho e apressado - aquele que as pessoas tomam quando estão visivelmente irritadas, de costas tesas, marcando bem o calcanhar e logo após assentando, com estrondo, o resto do pé -, corria as redondezas à cata de pessoas de baixa condição e retirava-lhes a cabeça. Depois de limpas, espalhava essas cabeças sobre o crânio de Yorick, convicta de que a condição de estar ao nível da populaça lhe baixaria a garimpa. Assim satisfeita com a suposta humilhação do crânio, considerava o assunto morto e enterrado.
Estes arrufos aconteciam-lhe amiúde. Até podia contar mais, mas o resto é silêncio.
20101218
Ta Prohm, Angkor, Cambodja
A floresta das montanhas de Cardamomo é impenetrável. O ar carregado segura, a custo, 98% de humidade.
Um pouco mais e desata num pranto.
Segurando uma vara de bambu com a ponta cortada em bisel, o ranger Hun Lei dança cautelosamente pelo trilho (que não tínhamos reparado antes, quando utilizamos o termo impenetrável). Trauteia uma melodia francesa, muito em voga nos anos 30. De 3 em 3 passinhos, levanta cada um dos pés, ora para a frente, empinando graciosamente a biqueira, ora para trás, rodopiando o calcanhar sob um olhar atento por cima do ombro, enquanto marca o ritmo, dando com o varapau nas solas. A experiência ensinou-o que só com esta deliciosa dança da Bretanha se consegue aligeirar o ambiente e impedir o dilúvio.
Petra, Jordânia
Não tendo rigorosamente nada para fazer, a possibilidade de me dedicar a algo supérfluo e aprazível, insinua-se, sorrateiramente. Pouco a pouco, um número considerável de coisas mirabolantes entope-me o discernimento. Despejo uma garrafa de água pela goela abaixo (ando a ingerir poucos líquidos) e reparo - É curioso! - que todos usam o mesmo tipo de laço de cachecol. Pareciam todos tão diferentes...
Os ruídos massacrantes, como o do ar condicionado defeituoso que me serve de tecto, tendem a desaparecer, se lhes der tempo. Se calhar ainda lá está, eu é que não lhe dou ouvidos. Com as pessoas, é um pouco mais difícil, mas faz-se. (Passa-me pela cabeça o tom moreno das bolas de Berlim do Natário; deve ser o cérebro a pedir açúcar.)
Já me alonguei demasiado.
Wadi Rum, Jordânia
Tudo começou quando, num momento de fraqueza, se lançou na cama de rede a ler um romance. O enredo, um bocadito morno, encheu-se de um balanço épico. A cada linha de texto, a vegetação crescia pelo horizonte acima, assombrando-lhe a página, e as nuvens escorriam, benevolentes, debaixo do seu corpo. Depois, no parágrafo seguinte, eram os céus que se enrolavam em vagas sobre o antigo palácio do governador, que adernava, espalhando os lustres pelos tectos trabalhados.
O leitor suava. Nunca uma obra tinha mexido tanto consigo. Como poderia voltar a ler, depois disto? Sentado à mesa? Recostado na poltrona? Imagens de tal modorra arrepiavam-lhe a nuca.
Deu por si a mordiscar pequenos contos, no baloiço do parque, às escondidas. De madrugada, antes da primeira fornada, corria pela marginal ao ritmo dos audiolivros mais populares. Nunca o confessou, mas foi visto a montar o cavalo branco do carrossel vermelho, enquanto lia os clássicos russos.
Não há limite para a degradação humana. Uma vez, leu de um fôlego uma história vertiginosa, enquanto se lançava da janela do 23º andar do Hotel de l´Ecole Centrale, em Paris. Mas isso foi só uma vez.
20101126
Jerash, Jordânia
O cabelo cresce, encolhendo os ombros. Isto é especialmente notório na farta cabeleira de Alexandre Virgílio, pensador de bom trato e homem de fino recorte. No entanto, ultimamente, as ideias brilhantes não surgem com a desenvoltura habitual. Sente-as presas, como que entarameladas na trunfa densa que o adorna. Ponderado, toma uma decisão, e um assento, no barbeiro. A cada golpe de tesoura a cabeça fica-lhe mais leve. No chão de Travertino Romano, pousam tufos encaracolados onde definham, em pena leve, grupos de ideias subversivas. Alexandre Virgílio passou a mão rente ao escovilhão aparado e aguardou uma ideia. Por momentos pareceu-lhe que... mas não; era um mero arrepio de frio a rodopiar-lhe a nuca, criando um remoinho. Franziu então as sobrancelhas de um modo extremamente inteligente, mas só arranjou que um chorrilho de pontas espigadas lhe escorregasse pela cana do nariz abaixo, colando-se desagradavelmente ao lábio inferior. Nem um pensamento iluminado, nem sequer uma tirada espirituosa, para poder abandonar o salão em beleza. Agastado, saiu a cuspir cabelos.
O barbeiro varreu cuidadosamente cada gaforina solitária, cada melena, cada bola de pelo para um saquinho sedoso. Nos fundos da barbearia, mantinha uma oficina de enchimento de almofadas e entrançado de perucas, que comercializava, com grande sucesso, sob o chamariz de serem poderosos indutores de ideias inteligentíssimas.
Desengane-se quem aspira pela permanente. O barbeiro, frio e cortante, irá arrancar pela raiz cada uma das ideias que temos de nós próprios, deixar-nos sem referências, lisos e deslumbrados pelo inevitável, para depois nos abandonar na habituação das amostras grátis.
20101120
Petra, Jordânia
O caminho peregrino é feito em recato, por pedra e corpos. Teias de luz intensa roçam a pele e aguçam a curiosidade. O espaço mexe, a cada sussurro. O palato arrepia-se.
Ouvem-se vidas em passadas lentas. Deixamos a vista em ponto de fuga e a cabeça em respeito promontório. A oliva, emboscada, lança raízes de sombra a cada passo.
Alheios à literatura, os zângãos voam em círculos, como sempre fizeram.
20101107
Amman, Jordânia
A mulher-a-dias preferia as noites. Ninguém apontava o dedo aos cantos da preguiça. À noite o pó não se levanta e de dia deitava-se ela, surda às reclamações.
Trabalhar à noite em estabelecimentos fechados trazia-lhe, amiúde, o guarda-nocturno à perna, testando a solidez da fechadura. Tantas foram as vezes que o coração quase lhe saltou do peito às investidas do homem, que acabou por casar com ele.
Assim, trabalhando os dois à noite, dormem de dia, escusando-se ela a limpar a própria casa, que só vê ao lusco-fusco, e não se preocupando ele com assaltos, pois, como se sabe, durante o dia os meliantes também estão a dormir.
20101103
Petra, Jordânia
Os olhos, antes sobranceiros, cravaram-se bem fundo na polpa do texto. E, nada. Ou melhor, via-se algo de caravana beduína fustigada pelo siroco, ou, melhor ainda, um emaranhado de algas a ondular pelo jornal fora. Já na mercearia, o contra-rótulo do vinho exibira apenas uma penugem escassa e irregular, ocultando a leitura das castas. Quando abria um livro, era comum esvoaçar um novelo de estorninhos, ou qualquer coisa do género. Até a marca do carro era agora um molusco brilhante.
- Que falta de caracter. - gracejou, pouco à-vontade, olhando em volta.
O restaurante à sua frente chamava-se uma espécie de cardume de peixes lanzudos a rodopiar. Entrou e fechou-se no menu. Nas especialidades da casa destacavam-se as filas de dominós hesitantes, uma ou outra marca de travagem brusca, esquissos pobres de Seurat e insistentes cagadelas de percevejo. Saiu a correr, deixando uma nota de vários algodões doces, na mesa.
As palavras fugiam-lhe, as dissimuladas. Quanto mais se chegava ao rigor dos caracteres, mais ardilosas se tornavam as suas formas. Troçavam dele nas suas costas, sabia-o agora.
Nunca mais viu uma letra. Ás vezes, quando se afastava delas, vencido, voltava-se de uma guinada e parecia-lhe ver o serifado de uma perninha itálica a desaparecer na savana.
20101016
Jerash, Jordânia
Olhando para trás, Huggo Verdú viu a vida a afastar-se a passos tão largos quanto o caminhar às arrecuas permite. Enxofrada, sem um aceno, ia de queixo tão levantado que deitava um olho para trás das costas. Huggo Verdú, chamemos-lhe agora, carinhosamente, Pangolim, arrastava-se cabisbaixo, com a língua pendente, por onde escorria uma delicada filigrana de saliva.
Não fossem as saborosas formigas a distraí-lo com os seus estruturados percursos e desorientadas manifestações de pânico, tinha com certeza reparado mais cedo naquilo que, anos mais tarde, descreveria nas longas tainadas de inverno como "A minha salvação!". (estamos aqui a ser tremendamente injustos com os apetitosos insectos, prováveis causadores da epifania de Pangolim)
Ora, o que o nosso desditoso caminhante descobriu, foi exactamente isso em que estão a pensar: a sua própria sombra. (os que imaginavam aqui o displicente lenço de cambraia, finamente bordado a ocre e sanguínea, certamente vão abandonar a leitura, melindrados)
- Como poderei alguma vez ter sentido tristeza em mim, quando arrastava esta pobre alma negra, como um algoz, forçando-a a copiar-me as vergonhas, esmigalhando-lhe os pés e escondendo-a da luz. Como posso ter vivido de cabeça baixa, e ainda assim altaneiro a este meu mapa de desgraça. Vivi sobre a imagem da minha morte, e não a respeitei. - declamou Huggo, o Pangolim, amante de monólogos e amador de teatro.
Cuidadosamente, descolou a sombra já puída das solas enrugadas, deu-lhe duas sacudidelas respeitosas, endireitou as costas e sentou-a às cavalitas. A sombra agarrou-lhe os cabelos e ele, Huggo Verdú, com um relincho de satisfação, partiu à desfilada. O desencarnado Pangolim, perplexo e abandonado, deu meia volta e seguiu na peugada da vida a que estava habituado.
20101011
Petra, Jordânia
Anson, o gato que atravessa paredes, pouco se importa com um mundo feito de biombos, como este. Não por ser um bicho etéreo, mas sim porque as frinchas de horizonte não lhe despertam interesse nenhum. Eu cá já não sou assim. Cansa-me o andar de centopeia, não suporto o contra-picado e abomino as cenouras. Vou-me aos socalcos, montesino, e arfo até ao promontório seguinte. Acima de mim, nada!
Um destes dias acordei deitado e tive consciência das camadas de coisas que se amontoam sobre a minha cabeça. O coração disparou e um cheiro a pólvora seca forrou-me os pulmões. Levantei-me de um salto, galguei os dois lanços de escadas, subi a credência e icei-me, pela clarabóia do tecto, para o forro do telhado. Com apenas uma fina camada de telha francesa sobre mim, a pulsação baixou consideravelmente. Para subir à cumeeira desloquei 3 telhas e uma omoplata. Demónios! No céu, zombeteiras, nuvens densas empilhavam-se, num tecto baixo. De cabeça perdida, lancei-me pela chaminé acima, patinhando a parabólica até me enlaçar despudoradamente no galo forjado do cata-vento. Depois, lembro-me apenas de uma forte rabanada de vento fazer girar a seta do norte de tal forma que o sul me atingiu em cheio na cana do nariz. Estava prestes a ficar com um daqueles maus humores que duram a tarde inteira, quando comecei a subir com uma facilidade estonteante. Vi a minha ridícula figura montada no galispo do telhado, a casa, o quarteirão todo, os arredores e até as curvas disparatadas do rio. Ah, a felicidade. Estava mais vivo do que nunca.
20101007
Petra, Jordânia
O mar morto estava cheio de vida. Viam-se línguas à solta arregalando os olhos muito devagar. As lágrimas salgadas são doces de alívio. Não se pode culpar um mar por se sentir picante ante tantos corpos nus. E todos querem sentir o milagre. À tona, parecem pessoas, no fundo, cai negra a pele morta.
Morto de sede, o mar mirra.
Do outro lado também há lágrimas.
20100917
Ilhas Cies, Galiza, Espanha
Há qualquer coisa de assustador num arbusto. Numa moita há, quando muito, uma coisa qualquer. Agora num bueiro sombrio, isso já é outra história e começa assim: “O último raio de sol penetrava a sarjeta, morno e indiferente à sua condição estéril.” Os estudiosos que seguem, na última década, a migração rolada do arbusto seco norte-americano, começam a suspeitar que isso não os está a levar a lado nenhum, que estão a ser ludibriados pela astuciosa carcaça. No seu desespero percebe-se o quanto de sofrimento humano há na pose petrificada de um galho. À flor da pele abrem-se nervuras e fecham-se as larvas que nos vão ratando aos poucos. É por isso que a água das jarras muda; pelo medo de envelhecer.
20100908
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
Ainda há gente séria. Gente a quem a gargalhada forra as entranhas e, quando solta, sopra as brasas frias das almas que arrepanha. São aqueles poucos que, pela rectidão da sua postura pantomineira, poupam as vidas das cidades condenadas.
A gente séria assim, podemos-lhe confiar, se não a vida, pelo menos o almoço, já servido na boa faiança, assim como a carteira e os óculos, esquecidos na mesa, enquanto saímos apressadamente para atender uma chamada.
A fazer fé num estudo de cientistas de uma universidade obrigatoriamente norte-americana, tal estado de graça é a imagem, esculpida em Carrara, de quem tem como ofício algo que não suporta. Se queremos ver alguém mortificado é olhar o pateta que enfunou o coração ao abraçar uma carreira a seu gosto; vê-lo-emos arrastar esse devaneio pela vida fora, qual pano do pó pendurado no bolso de trás, limpando com ele toda a baba dos batráquios intragáveis que, prazenteiros, se vão alinhando à sua frente, até que aquilo para o que nasceu, o seu dom-de-musa, mirra entre as almofadas do sofá.
O segredo está, permito-me dizê-lo aqui numa perspectiva fundamentalmente altruísta, na satisfação que é tomar e amarrar a profissão mais abominável a uma parelha de cavalos Frísios e galopar assim pelo empedrado da vida, rindo seriamente a cada solavanco. O ponto será picado sem causar qualquer tipo de habituação e podemos guardar por debaixo daquela tábua solta do soalho, tudo aquilo que nos vai fazer sorrir.
Quem fraquejar e se tentar a olhar para trás, arrisca-se a ficar transformado numa figura azeda.
20100814
Ilha da Boa Vista, Cabo Verde
De labaredas ao vento, o jovem fogacho lavra em terreno seco. Nivela a mata suja, espalha brasas e lança mancheias de cinza escura.
Ao longe, um homem descobre o fogo e desata a gritar e a gesticular, reunindo um grupo de gente, também ela, muito excitada. De balde e ramos verdes, a multidão cerca as chamas, açoitando-lhes os calcanhares enquanto, no calor da refrega, alguns mais afoitos desatam a urinar-lhes nas plantas dos pés.
O fogo, suado, fica pasmado com esta falta de consideração. Ainda há pouco um destes escaravelhos o tinha ateado e instruído das terras a lavrar, e agora cortam-lhe as vazas e mijam-lhe em cima. Acossado, aproveita uma rabanada de vento e trepa pelo eucalipto mais alto, erguendo a sua tocha, em desafio.
No horizonte, um bombardeiro d'água aproxima-se, de tanques cheios.
A língua do fogo seca e uma nuvem de faúlhas zomba em seu redor.
- Que pena não ter trazido comigo uma daquelas camponesas roliças que dali esganiçam. - pensou, empoleirado no alto do eucalipto, enquanto batia com os punhos no peito. - Dava uma bela alegoria.
20100808
Porto, Portugal
A Árvore da Eterna Felicidade, crescendo em locais inacessíveis, é facilmente reconhecida pela folha caduca.
No seu encalço, a estrada que atravessa o rio arregaça a saia, e cruza o vau em passos de arco. Depois, como dizem os que nunca tiveram a coragem de se fazer a ela, atravessa montes e vales, quando, na realidade, serpenteia pelas fragilidades de cada um. Quem aponta o coração nesta busca, e que por poesia lhe chama quimera, acaba por ficar à margem das águas a lançar seixos espalmados, cujos saltos, vivaços de início, rapidamente perdem a genica, como o mandante. Os frutos sabem a deliciosos magnórios doces.
20100802
Xpu-Ha, México
- Quando menos se espera, o doutor chama – tranquilizou a recepcionista. O pequeno dardo atingiu o paciente em plenos pulmões. Com uma respiração pesada o imenso vale abateu as suas colinas, permitindo o aluvião. As águas, a perder de vista, imobilizaram-se, esfregando os olhos. Um ardor medonho fez vir ao de cima o que de pior existe nas profundezas. O mal, habituado à sombra, apanhou um escaldão e ruborizou-se como uma nórdica. Atraídos por este modelo de perfeição, homens de toda a terra vieram medir forças. A força maior motivou as gerações mais jovens a dedicarem-se ao ar livre. Apicultores, agrimensores, caçadores de caranguejos, feirantes, jogadores de badminton e outros, multiplicaram-se de tal forma que congestionaram o meio ambiente.
Agora só nos resta os extremos.
20100729
Nubia, Egipto
No princípio, era um frio de rachar.
Atabalhoado, enchia-me de roupa, às camadas. Cada uma abafava a interior, deixando os primeiros rasgos pálidos de mofo. Arrastando-se pela sarja, puíam a ganga nos joelhos, como se fosse chita.
Então alguém disse "Estiquem a corda."; e o ar aqueceu.
Os trapos velhos foram-se descascando e a própria pele, agora exposta, esfolou ao sol.
Foi então que, na segurança das molas, as peças mais íntimas começaram a esvoaçar. E a corar. De satisfação.
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