20110426

Amman, Jordânia Atrás de um homem enorme caminhava, a custo, uma mulher sacrificada. Pareciam estranhos, um com o outro e, no entanto, todos os conheciam como casal. Mudos, cruzaram o cotovelo da viela e deram lugar a um herói de resistência - a viver há 98 anos – super ocupado a manter pelas costas a capa onde esvoaçavam duas mangas inúteis. Convém esclarecer que estas duas espanavam como doidas, não pela velocidade do passo do senhor, que ia praticamente parado, deixando-se levar na procissão lenta e glaciar dos paralelos da calçada, mas sim pela nortada, que aqui cai com o entardecer. De um ponto de vista elevado, o homem pareceu sumir-se para debaixo da terra, de onde logo saíram – que bela alegoria, dirão alguns – duas crianças da rua a afagar um gato caramelo. Com este excesso de atenção ao detalhe, quase perdíamos a passagem de uma criatura volumosa que envergava a mesma bata com que trabalhava para uma senhora. Abraçava uma chusma de vestidos, pela cintura, sem saber qual usar, numa ocasião especial. Aos poucos a ruela aquietou-se e, tirando um par aos beijos que agora-se-via-agora-não, a viela entroncada em cotovelo espreguiçou-se, parecendo, por momentos, uma rua direita. Um a um, Deus acendeu os lampiões da rua. Deus tem a vista cansada e a luz põe-lhe tudo a nu, como era dantes.

20110417

Phnom Penh, Cambodja Há cerca de 14 tipos de caras, numa multidão comum. Depois temos os formatos da cabeça, que são à volta de 8, homologados, e a distribuição de apetrechos como olhos, sinais e remoinhos capilares. Estes últimos podem atingir uma variedade de configurações tão notável que muitas vezes escapam ao vulgar transeunte. Ora, foi exactamente isso que acabou de acontecer com um par de orelhas. Aproveitando uns ramos de salgueiro mal aparados, invasores da via pública, soltaram-se do seu legítimo dono e, sem que ele ouvisse o que quer que fosse, deixaram-se pender por um galho espevitado. Há até quem tenha visto caras inteiras lançarem-se na sarjeta, envergonhadas com o descaramento a que são expostas. Mas, convenhamos, quem é que nunca correu atrás de uma língua estrangeira, imbuído de um espírito puramente altruísta, ansiando tão somente devolvê-la à boca vazia? Os dentes também se escapam, mas dão muito nas vistas. Têm o coração mole e hesitam muito, abanando por todos os lados antes de arrancarem. Tudo isto pode ajudar a perceber porque é que muitas vezes não reconhecemos certas e determinadas pessoas. O que não é o mesmo que pessoas certas e determinadas.

20110413

Donostia, País Basco Acomodados no interior da composição, os passageiros entreolham-se à vez, a medo. Lá fora, a correnteza forte vai arrastando os olhares à deriva. Graças a Deus pelas janelas. Um plano único, belo e irrepetível. Uma árvore seca, corre para as pernas de um cão distante (os espectadores suspiram de alívio). Um furgão lento ginga-se, peludo, exibindo-se para o grande ecrã. Logo após varrer um jardim, o chão suado deita-se num leito seco. O público, embevecido, engole em seco uma lágrima. Inesperadamente, o túnel abocanha o metro, como de costume. O exterior apaga-se, e os vidros duplos, agentes maldosos, reflectem as imagens de todos, como um pontapé no estômago. Por brevíssimos instantes, olham-se nos olhos. Que grupo sombrio, que gente estranha, pensam. E desatam a verificar o seu próprio reflexo no visor do telemóvel, ansiando um toque ou, se calhar, apenas uma cara amiga.

20110329

Deserto de Wadi Rum, Jordânia Ao condutor do funicular de Artxanda só lhe era reconhecido ser uma cabeça. Isto, se é que se pode chamar cabeça àquela secção longitudinal entre a pala hirta do bonezito revolucionário e a metade superior do bigode gendarme que o tablier se esforçava por ocultar. Mas nem é preciso saber se é correcto ou não dar tal nome a essa nesga de funcionário, pois é exactamente esse pedaço que lhe basta para ir aos limites de uma vida que muitos, de tanto suspirar por ela, ganham sopros no coração. Um homem assim vivido, tem a serenidade de aguardar pelo fim do coro de gargalhadas injuriosas, para depois, pacientemente e sem nada a esconder, assombrar com a verdade: - Levado por forças mudas o habitáculo eleva-se, encarando bem de perto o mais profundo da terra. Sem inclinações mundanas, passo rente a tudo o que sustém a encosta; os extractos, as fissuras ameaçadoras onde coabitam a brita e o lajedo, subindo sempre, e sempre mais detalhado é o desespero que se agarra à rocha e derrapa no entulho. Haverá algo mais elevado que um vislumbre dos cantos mais rudes da alma da terra? (Aqui aguarda-se a saída ordeira de todos os passageiros, para que, e sem a possibilidade do testemunho popular, o bonezito desapareça do posto superior e desponte, fazendo jus ao clássico número de casino com dois armários e um alçapão - este último quase esquecido por todos, de tão enlevados que estão pela reputação internacional do ilusionista -, na cabina baixa do funicular, mais vigilante do que nunca, apesar da enganadora apatia.) - Haverá. Vê-la subir aos céus, enquanto descemos, de cabeça baixa e dever cumprido, para cada vez mais perto de onde tudo começou. Que magnífica dualidade: caímos vertiginosamente nas entranhas do ferro e da madeira talhada, esmagamo-nos por onde a multidão se parte em dois, e é aqui que os céus se abrem, de par em par, com tal estrondo, que tememos uma chuva de estilhaços. E tudo isto se repete de 15 em 15 minutos. Pelo menos, no meu turno.

20110313

Viseu, Portugal O lado desconhecido, normalmente pintado de negro profundo é, se pensarmos bem, o que mais oferece a outra face. Isto levanta um problema de pigmentação: como pode ser obscura uma faceta assim tão esquiva aos ultravioletas? Albina, é o mais certo; a expressão mais insípida de um caco de alva porcelana. Mas, e o inverso? Aquele mais radioso? O que se nos abre, despudorado, mostrando uma fileira de esmaltes planos e rigorosos, onde nada de interessante se consegue agarrar? De tão exposto a uma luz maior, só se nos oferece em tom baço, escuro e enrugado. O melhor, mesmo, será trabalhar o recheio, fazendo brilhar umas arestas bem polidas.

20110222

Kompong Pluk, Cambodja Com alguma timidez, Jubal Pastorius soltou o aperto de mão com que recebia o superintendente da força e rolou colina abaixo, revelando a criança que havia dentro de si. O nível de constrangimento subiu rapidamente, alagando os presentes até aos tornozelos. Ninguém se atrevia a dar um passo, com receio daquele ruído desagradável que faz a peúga sintética encharcada no interior dos sapatos de sola. A criança revelou-se, por sua vez, estranha. Diferente e um pouco sisuda. Dava-se ares de jovem adulto. Ouve mesmo quem comentasse "Meu Deus, crescem tão depressa; um dia andamos com eles ao colo e no outro...", como fazem os pais extremosos quando o benjamim bate asas. Por esta altura, o adolescente tentava marcar uma posição, urinando indiscriminadamente à sua volta. O superintendente, agastado, sentia-se velho. Subitamente, um lado feminino começou a despontar no gandim. Foi o lado esquerdo, e ele apaixonou-se. Neste momento, já todos tinham puxado uma cadeira.

20110214

Bokor Palace, Phnom Bokor, Cambodja Mal deu por falta dos óculos, a dona levou as mãos à cabeça, onde eles costumavam poisar. Os dedos andaram às cegas pelos rolos do cabelo, desalinhando uns caracóis que mais pareciam lapas, de tão agarrados ao couro cabeludo. Em vão. Bateu com as mãos no peito, nos quadris, mas de óculos, nicles. Virou a casa de cangalhas. Foi de gatas até ao contador de salão, ansiosa por novidades, e ele mudo como um criado. A senhora já não via nada à frente. A casa, sem óculos, parecia mais nova. Quando se procura um pertence perdido, naquela fase em que já esgotamos todos os cenários e retrocedemos todos os passos, geralmente morde-se o lábio e coça-se a nuca, antes de partir para os recantos que há anos não visitávamos. Como a viagem é tomada à pressa, não levamos um agasalho nem a merenda, e o ar desalinhado que a angústia nos traz, faz com que os outros atravessem para o lado de lá, sem se aperceberem da firmeza de carácter que nos guia. E as surpresas? E aquelas coisas que encontramos, sem querer, e que nos tentam desviar do caminho? Quando, por exemplo, procuramos uma caneta dourada - e gravada, com dedicatória sentida -, de coração apertado à espera do pior, e nos aparece, vinda não sabemos de onde, uma forma de pudim que já não era usada há dois invernos? Pomo-nos logo a antecipar o prazer de um Abade de Priscos ao jantar, e votamos a pena perdida ao mais cruel esquecimento. A desfocada doméstica assim era posta à prova. Ao dobrar a prateleira mais baixa do camiseiro dos fundos, a velha rela do seu rebento, agora militar, atingiu-a em cheio no coração. A lágrima que caiu no vazio, lembrou-lhe os óculos perdidos. De costados no taco, arrastou-se para debaixo da cama, onde uma nota de cem escudos lhe trouxe à memória o mês sem reforma. Quando se lançou pelo fundo falso da clarabóia, deixamos de a ver. E de poder contar seja o que for. Afundado no sofá da sala, o gato não aguentou mais e entreabriu os olhos. Não vendo a patroa levantou-se em arco, esticando as articulações, e abriu as goelas desmesuradamente. Por de baixo dele, mornos e cheios de pelo, escondiam-se os óculos da dona. Fica por explicar se aquilo foi um longo bocejo de abandono ou uma surda gargalhada de mafarrico.

20110203

Phnom Penh, Cambodja Um C de campo, cheio de voluptuosas beringelas da Índia, aquelas roxas de pedúnculo verde que nos fazem diabretes. Depois um A, de fim de zebra labiríntica, criatura onde só nos conseguimos perder, pois nunca a encontramos quieta. No N nada vigorosa, em pernada de barbatana, pondo a vaga num tubo que se desenrola em água morna. Quem se chega ao lânguido G, de lagarto de contas, não calcula a alhada em que está metido, se não lhe der o devido valor. Reencontrado o angélico A, somos levados a pensar - que ingenuidade - num elegante déjà vu, quando, na realidade, é um novo reflexo do espelho embaciado por biscoitos e bolinhos de forno, no bulício do pequeno almoço. Se olharmos para o L, com o devido respeito, sentimos nele algo de tailandesa no arrozal, de convicções fortes e mão certeira, postura de junco e base de templo. Ah! - aspiramos fundo, no silêncio do H – façamos uma pausa. Mais tarde, nada impede que se encontre o A, pela terceira vez, na cor amarela, e muito menos que se rasgue um sorriso de satisfação ao sentir o coração tão quente, tão primário. Mesmo inevitável, é semicerrar os olhos ao poderoso S, de sol, de fim dos enigmas e do princípio da sorte.

20110130

Petra, Jordânia Como a porta da rua estava aberta, a de lá de cima bateu com um tal estrondo que até as varejas guinaram. Pendurada num fio de cediela, a máscara africana do riso estremeceu contra o vidro. O soalho de carvalho francês despertou e espreguiçou-se, estalando os nozinhos com violência. Ou as suas traves roçavam o solo do quintal, ou os torrões deste se afoitaram pela sala adentro. O certo é que na fronteira, ninguém sabia de que terra era. Pela sala esvoaçavam já sombras de limoeiro, de tangerinas e até de pacíficos galhos de oliveira. Manchas de humidade decoravam os lacados em pastéis de fungo. Sentia-se uma saudade do bosque, nas madeiras, e nas plantas, um espírito libertador. Nas águas de cima, o sótão estava com a telha em desalinho, de tão ventoso que estava, e a cave, se existisse aqui tal subterfúgio, estaria exactamente ao contrário. Uma casa abandonada, se quiséssemos ser indelicados para o bando de pombas que tão carinhosamente atapetavam o soalho com os seus excrementos. E que dizer daquele quarto em que a porta não abria? Que peso morto era aquele que fincava o pé a menos de uma frincha? A porta da rua encolheu as ombreiras e deixou-se ficar a arejar, rangendo de satisfação.

20110120

S21, Phnom Penh, Cambodja O apêndice é vermiforme, coitado. E do seu ponto de vista, está tudo virado do avesso. Posto isto, resta dizer que, dada a proximidade fecal, nem um suspiro profundo de consternação lhe é permitido. Em revolta muitos dirão "Que sofrimento atroz lhe deve remoer as entranhas!". Mas isto é não conhecer o tipo. Sofrer é um luxo a que não se pode dar. Ao primeiro queixume, movem-se diligências, abrem-se incisões de precisão cirúrgica e o apêndice, adereço, anexo, suplemento, acrescento, acessório, complemento, aditamento, é retirado. Assim, sem mais nem porquê.

20110115

Beng Mealea, Cambodja A funcionária dos correios adorava aquele jogo solitário de encontrar um par. Jogava-o com qualquer um, insinuando-se o convite. Que bela que era, na tranquila eficácia com que ponderava as suas opções. Por mais agreste e ignota que fosse a terra, no sorriso escondido víamos-lhe a manha de saber das coisas. Só e sem medo, batia a esta e àquela porta até encontrar quem fizesse pandam. Na sua busca era altruísta. Parecia um misto de chefe de bando e casamenteira, com a voz clara a arrebanhar e casar os que ficavam pelo caminho. Velocista no passo, fazia o seu jogo sem pressas. Sabia que o chegar à alma gémea acabava com tudo e, por isso, fazia de conta que se enganava. No fim, Rosa enterrava sempre as duas últimas cartas no meio do baralho, sem as virar. Sem fazer o último par. A vida era-lhe demasiado preciosa para terminar.

20101226

S21, Phnom Penh, Cambodja A ministra Thirith guardava o crânio de Yorick na pasta dos assuntos sociais, embrulhado num krama axadrezado. Resolvidos os afazeres oficiais, ela dedicava-se a longas conversas com o seu velho companheiro de faculdade. Este, à semelhança de outros crânios, levantava questões tão fundamentais, que a senhora, furibunda, só lhe apetecia reduzi-lo à vulgaridade. Nesses momentos, tomava um passo miudinho e apressado - aquele que as pessoas tomam quando estão visivelmente irritadas, de costas tesas, marcando bem o calcanhar e logo após assentando, com estrondo, o resto do pé -, corria as redondezas à cata de pessoas de baixa condição e retirava-lhes a cabeça. Depois de limpas, espalhava essas cabeças sobre o crânio de Yorick, convicta de que a condição de estar ao nível da populaça lhe baixaria a garimpa. Assim satisfeita com a suposta humilhação do crânio, considerava o assunto morto e enterrado. Estes arrufos aconteciam-lhe amiúde. Até podia contar mais, mas o resto é silêncio.

20101218

Ta Prohm, Angkor, Cambodja A floresta das montanhas de Cardamomo é impenetrável. O ar carregado segura, a custo, 98% de humidade. Um pouco mais e desata num pranto. Segurando uma vara de bambu com a ponta cortada em bisel, o ranger Hun Lei dança cautelosamente pelo trilho (que não tínhamos reparado antes, quando utilizamos o termo impenetrável). Trauteia uma melodia francesa, muito em voga nos anos 30. De 3 em 3 passinhos, levanta cada um dos pés, ora para a frente, empinando graciosamente a biqueira, ora para trás, rodopiando o calcanhar sob um olhar atento por cima do ombro, enquanto marca o ritmo, dando com o varapau nas solas. A experiência ensinou-o que só com esta deliciosa dança da Bretanha se consegue aligeirar o ambiente e impedir o dilúvio.
Petra, Jordânia Não tendo rigorosamente nada para fazer, a possibilidade de me dedicar a algo supérfluo e aprazível, insinua-se, sorrateiramente. Pouco a pouco, um número considerável de coisas mirabolantes entope-me o discernimento. Despejo uma garrafa de água pela goela abaixo (ando a ingerir poucos líquidos) e reparo - É curioso! - que todos usam o mesmo tipo de laço de cachecol. Pareciam todos tão diferentes... Os ruídos massacrantes, como o do ar condicionado defeituoso que me serve de tecto, tendem a desaparecer, se lhes der tempo. Se calhar ainda lá está, eu é que não lhe dou ouvidos. Com as pessoas, é um pouco mais difícil, mas faz-se. (Passa-me pela cabeça o tom moreno das bolas de Berlim do Natário; deve ser o cérebro a pedir açúcar.) Já me alonguei demasiado.
Wadi Rum, Jordânia Tudo começou quando, num momento de fraqueza, se lançou na cama de rede a ler um romance. O enredo, um bocadito morno, encheu-se de um balanço épico. A cada linha de texto, a vegetação crescia pelo horizonte acima, assombrando-lhe a página, e as nuvens escorriam, benevolentes, debaixo do seu corpo. Depois, no parágrafo seguinte, eram os céus que se enrolavam em vagas sobre o antigo palácio do governador, que adernava, espalhando os lustres pelos tectos trabalhados. O leitor suava. Nunca uma obra tinha mexido tanto consigo. Como poderia voltar a ler, depois disto? Sentado à mesa? Recostado na poltrona? Imagens de tal modorra arrepiavam-lhe a nuca. Deu por si a mordiscar pequenos contos, no baloiço do parque, às escondidas. De madrugada, antes da primeira fornada, corria pela marginal ao ritmo dos audiolivros mais populares. Nunca o confessou, mas foi visto a montar o cavalo branco do carrossel vermelho, enquanto lia os clássicos russos. Não há limite para a degradação humana. Uma vez, leu de um fôlego uma história vertiginosa, enquanto se lançava da janela do 23º andar do Hotel de l´Ecole Centrale, em Paris. Mas isso foi só uma vez.

20101126

Jerash, Jordânia O cabelo cresce, encolhendo os ombros. Isto é especialmente notório na farta cabeleira de Alexandre Virgílio, pensador de bom trato e homem de fino recorte. No entanto, ultimamente, as ideias brilhantes não surgem com a desenvoltura habitual. Sente-as presas, como que entarameladas na trunfa densa que o adorna. Ponderado, toma uma decisão, e um assento, no barbeiro. A cada golpe de tesoura a cabeça fica-lhe mais leve. No chão de Travertino Romano, pousam tufos encaracolados onde definham, em pena leve, grupos de ideias subversivas. Alexandre Virgílio passou a mão rente ao escovilhão aparado e aguardou uma ideia. Por momentos pareceu-lhe que... mas não; era um mero arrepio de frio a rodopiar-lhe a nuca, criando um remoinho. Franziu então as sobrancelhas de um modo extremamente inteligente, mas só arranjou que um chorrilho de pontas espigadas lhe escorregasse pela cana do nariz abaixo, colando-se desagradavelmente ao lábio inferior. Nem um pensamento iluminado, nem sequer uma tirada espirituosa, para poder abandonar o salão em beleza. Agastado, saiu a cuspir cabelos. O barbeiro varreu cuidadosamente cada gaforina solitária, cada melena, cada bola de pelo para um saquinho sedoso. Nos fundos da barbearia, mantinha uma oficina de enchimento de almofadas e entrançado de perucas, que comercializava, com grande sucesso, sob o chamariz de serem poderosos indutores de ideias inteligentíssimas. Desengane-se quem aspira pela permanente. O barbeiro, frio e cortante, irá arrancar pela raiz cada uma das ideias que temos de nós próprios, deixar-nos sem referências, lisos e deslumbrados pelo inevitável, para depois nos abandonar na habituação das amostras grátis.

20101120

Petra, Jordânia O caminho peregrino é feito em recato, por pedra e corpos. Teias de luz intensa roçam a pele e aguçam a curiosidade. O espaço mexe, a cada sussurro. O palato arrepia-se. Ouvem-se vidas em passadas lentas. Deixamos a vista em ponto de fuga e a cabeça em respeito promontório. A oliva, emboscada, lança raízes de sombra a cada passo. Alheios à literatura, os zângãos voam em círculos, como sempre fizeram.

20101107

Amman, Jordânia A mulher-a-dias preferia as noites. Ninguém apontava o dedo aos cantos da preguiça. À noite o pó não se levanta e de dia deitava-se ela, surda às reclamações. Trabalhar à noite em estabelecimentos fechados trazia-lhe, amiúde, o guarda-nocturno à perna, testando a solidez da fechadura. Tantas foram as vezes que o coração quase lhe saltou do peito às investidas do homem, que acabou por casar com ele. Assim, trabalhando os dois à noite, dormem de dia, escusando-se ela a limpar a própria casa, que só vê ao lusco-fusco, e não se preocupando ele com assaltos, pois, como se sabe, durante o dia os meliantes também estão a dormir.
Petra, Jordânia Arrancada sem cerimónia, chorou todo o caminho. Seca, foi apertada num saco de corpos onde lhe sugaram, a quente, as últimas cores. Às escuras, com a vida por um fio, sentiu a alma escorrer para a luz. Os restos apodreceram no fundo do bule.

20101103

Petra, Jordânia Os olhos, antes sobranceiros, cravaram-se bem fundo na polpa do texto. E, nada. Ou melhor, via-se algo de caravana beduína fustigada pelo siroco, ou, melhor ainda, um emaranhado de algas a ondular pelo jornal fora. Já na mercearia, o contra-rótulo do vinho exibira apenas uma penugem escassa e irregular, ocultando a leitura das castas. Quando abria um livro, era comum esvoaçar um novelo de estorninhos, ou qualquer coisa do género. Até a marca do carro era agora um molusco brilhante. - Que falta de caracter. - gracejou, pouco à-vontade, olhando em volta. O restaurante à sua frente chamava-se uma espécie de cardume de peixes lanzudos a rodopiar. Entrou e fechou-se no menu. Nas especialidades da casa destacavam-se as filas de dominós hesitantes, uma ou outra marca de travagem brusca, esquissos pobres de Seurat e insistentes cagadelas de percevejo. Saiu a correr, deixando uma nota de vários algodões doces, na mesa. As palavras fugiam-lhe, as dissimuladas. Quanto mais se chegava ao rigor dos caracteres, mais ardilosas se tornavam as suas formas. Troçavam dele nas suas costas, sabia-o agora. Nunca mais viu uma letra. Ás vezes, quando se afastava delas, vencido, voltava-se de uma guinada e parecia-lhe ver o serifado de uma perninha itálica a desaparecer na savana.

20101016

Jerash, Jordânia Olhando para trás, Huggo Verdú viu a vida a afastar-se a passos tão largos quanto o caminhar às arrecuas permite. Enxofrada, sem um aceno, ia de queixo tão levantado que deitava um olho para trás das costas. Huggo Verdú, chamemos-lhe agora, carinhosamente, Pangolim, arrastava-se cabisbaixo, com a língua pendente, por onde escorria uma delicada filigrana de saliva. Não fossem as saborosas formigas a distraí-lo com os seus estruturados percursos e desorientadas manifestações de pânico, tinha com certeza reparado mais cedo naquilo que, anos mais tarde, descreveria nas longas tainadas de inverno como "A minha salvação!". (estamos aqui a ser tremendamente injustos com os apetitosos insectos, prováveis causadores da epifania de Pangolim) Ora, o que o nosso desditoso caminhante descobriu, foi exactamente isso em que estão a pensar: a sua própria sombra. (os que imaginavam aqui o displicente lenço de cambraia, finamente bordado a ocre e sanguínea, certamente vão abandonar a leitura, melindrados) - Como poderei alguma vez ter sentido tristeza em mim, quando arrastava esta pobre alma negra, como um algoz, forçando-a a copiar-me as vergonhas, esmigalhando-lhe os pés e escondendo-a da luz. Como posso ter vivido de cabeça baixa, e ainda assim altaneiro a este meu mapa de desgraça. Vivi sobre a imagem da minha morte, e não a respeitei. - declamou Huggo, o Pangolim, amante de monólogos e amador de teatro. Cuidadosamente, descolou a sombra já puída das solas enrugadas, deu-lhe duas sacudidelas respeitosas, endireitou as costas e sentou-a às cavalitas. A sombra agarrou-lhe os cabelos e ele, Huggo Verdú, com um relincho de satisfação, partiu à desfilada. O desencarnado Pangolim, perplexo e abandonado, deu meia volta e seguiu na peugada da vida a que estava habituado.

20101011

Petra, Jordânia Anson, o gato que atravessa paredes, pouco se importa com um mundo feito de biombos, como este. Não por ser um bicho etéreo, mas sim porque as frinchas de horizonte não lhe despertam interesse nenhum. Eu cá já não sou assim. Cansa-me o andar de centopeia, não suporto o contra-picado e abomino as cenouras. Vou-me aos socalcos, montesino, e arfo até ao promontório seguinte. Acima de mim, nada! Um destes dias acordei deitado e tive consciência das camadas de coisas que se amontoam sobre a minha cabeça. O coração disparou e um cheiro a pólvora seca forrou-me os pulmões. Levantei-me de um salto, galguei os dois lanços de escadas, subi a credência e icei-me, pela clarabóia do tecto, para o forro do telhado. Com apenas uma fina camada de telha francesa sobre mim, a pulsação baixou consideravelmente. Para subir à cumeeira desloquei 3 telhas e uma omoplata. Demónios! No céu, zombeteiras, nuvens densas empilhavam-se, num tecto baixo. De cabeça perdida, lancei-me pela chaminé acima, patinhando a parabólica até me enlaçar despudoradamente no galo forjado do cata-vento. Depois, lembro-me apenas de uma forte rabanada de vento fazer girar a seta do norte de tal forma que o sul me atingiu em cheio na cana do nariz. Estava prestes a ficar com um daqueles maus humores que duram a tarde inteira, quando comecei a subir com uma facilidade estonteante. Vi a minha ridícula figura montada no galispo do telhado, a casa, o quarteirão todo, os arredores e até as curvas disparatadas do rio. Ah, a felicidade. Estava mais vivo do que nunca.