20110612

Viseu, Portugal Já arrasto a memória de uma cadeira há algum tempo; cansado, fico à espera da próxima esquina. São umas criaturas extraordinárias, as esquinas. Assim uma espécie de curvas, mas com carácter; e quando ornadas por um gaveto saliente, tornam-se irresistíveis. Só apetece ir lá dobrá-las, com uma forte guinada de ombros. Para mal dos meus pecados a rua segue recta, num traço contínuo. A ansiedade foge-me para debaixo do esterno e põe-se à coca, pronta a apertar o gasganete aos pulmões. Atrapalhado, bocejo convulsivamente. À minha volta há gente a falar de costela mendinha e rolos de massa folhada, com requintes de malvadez. Sinto o desconforto de usar demasiado casaco para o abafado do dia; acarinho a intenção ousada de o despir e surpreender a roupa interior com um ou dois arrepios. Talvez mais logo. Prossigo, resoluto. Dar passos largos é uma atitude altruísta, especialmente quando aqueles para quem os damos só conhecem o saltitar medroso ou o arrastar de uma flebite. Uma vez dei dois espirros a uma fulana sisuda; uma outra, condoí-me com o ar inerte de um velho e dei-lhe uma cabeçada. Em ambos os casos fui mal entendido. A rua que desço é tão paralela ao centro urbano que nunca se cruza com ele. Se na praça larga, mesmo aqui ao lado, gerem-se fortunas à desgarrada, nesta periferia do quarteirão ainda se fazem atenções. Estou numa casa de borrachas a investigar vedantes. Do outro lado do balcão um bigode farto segura um metro de madeira encastoado a cobre, condescendente com a minha morosidade. Subitamente entra um monstro do teatro, com peça em cena e tudo, à procura de uma informação. No interior da loja, pendurada num guiché de vidro martelado, uma velha dá um grito de satisfação enquanto o bigode se franze de orgulho. Em três actos, o actor é embalsamado e posto em exposição ao lado de outras figuras célebres, já desaparecidas. Curiosamente, esta é a única parte verdadeira da história.
Donostia, País Basco A tale is a trap, taken solo. Once upon it, the shot must be watered down, from an old disbeliever, who faces the siren lyrics under the hood of apathy, to a newborn, the real prey of cuckoo, that hears the spell, now hollow of meaning. Harmless. Tight stitched pages sew the minds of herds that, yet, float as a hint. A steady index finger-points the text, keeping the words in line. A man passes by, a reader. His son's son, on one arm, his father's book, on the other. They look ever so happy, after all.

20110528

Bokor Palace, Phnom Bokor, Cambodja Numa cidade do interior, que aqui prefere manter-se invisível, os digníssimos membros da Assembleia Municipal deliberaram, por unanimidade menos um, as mais recentes medidas de encarceramento para crimes sobre a propriedade intelectual. Sendo uma cidade de cadeias, com larga experiência em impunidade, o novo sistema prisional foi desde logo testado no ex-digníssimo membro que se tinha manifestado em desacordo. O procedimento era revolucionário, diziam; a eficácia, nunca vista e o resultado seria, no mínimo, um clamoroso sucesso da justiça. Chega de caminhar no sentido enganoso de considerar o tempo como o factor determinante no peso do castigo. Anos, séculos até, foram desperdiçados na manutenção de vícios e na formação de negociatas. Custava a crer como é que ninguém se tinha, ainda, debruçado em reflexão sobre este assunto. O segredo, revelaram então os ilustres, o futuro da coacção seria, pasme-se, a punição pelo espaço. O delinquente pôs em causa a justeza da autoridade? Reduzam-lhe a cela a um sexto. Aquele idealista que plantou ideias de revolta numa comunidade perfeitamente ordeira e acomodada? Fatiem-lhe o pé direito da solitária, pela metade. Que fazer com todos aqueles que, diariamente, se escusam a um esforço maior na proliferação de uma doutrina tão generosamente oferecida pelo poder vigente, visando ela, apenas e só, o alívio de uma vida sem sentido? É emparedá-los, sem ângulo de viragem. O tempo tornou-se obsoleto; já passou; está acabado. Só um molde de betão armado consegue, em concreto, enformar tais falhas de carácter. Quanto mais apertada, mais rápida sai a fornada de cidadãos exemplares, à montra da sociedade. A Convenção Internacional obriga à existência de uma janela, postigo ou fresta, por enclausurado? Tranquilizem-se os picuinhas, pois até isso foi tido em conta. E é aqui que está o gato. O gato caseiro passa horas, dias a fio, uma vida inteira, aninhado entre a grade e a portada, ou mesmo equilibrado no fino peitoril da balaustrada, imóvel, piscando lentamente os olhos de satisfação. Que delícias servidas em raclette lhe estarão a passar pelos olhos? Não persegue mais a ratice da zona, certo de que estes virão, de livre vontade, lançar os lombos tenros aos seus caninos de felino. Como é possível tal fleuma num gato confinado? As novas medidas da Assembleia Municipal tiveram resultados surpreendentes. Privado de distracções, na clausura do seu metro quadrado, o meliante argumentador pôde dedicar-se a observar por entre as grades, as manigâncias no pátio dos oficiais e rechear a sua lista de conspirações com os mais deliciosos pecadilhos; o livre-pensador, agora curvado sob um tecto baixo, ficou na disposição ideal para entalar o nariz na nesga que se lhe abria para os arrabaldes da cidade, e cheirar os primeiros laivos de descontentamento que normalmente grassam na periferia, antes de rastejarem até ao centro urbano; e que privilégio, o dos emparedados, de corpo amparado pelo próprio edifício, sem outra ralação que não a de observar o sofrimento diário das almas terrenas, desde esse posto sobranceiro, e confirmar a inutilidade da penitência. Consta-se que a excelente Assembleia está reunida a deliberar sobre o uso de capuzes abafadores versus complicações respiratórias. Espera-se unanimidade.

20110518

Kompong Pluk, Cambodja Era uma vez uma cidade de rugas estreitas e profundas, a retalhar a parte velha, por onde escorriam em atribulados corrupios, e muitas vezes se incrustavam como carraças mafarricas, todas as coisas vivas que povoam a imaginação com o crepitar de mil patas finas e o deslizar de escamas no basalto, mas que em nada impedem a sobrelotação por ninhadas de locatários submissos que expiam a sua existência com largadas à porta dos despojos do dia, em sacos atados à noite, prestando, assim, vassalagem e contas de tributo aos medos que os tolhem, e que limpam as oferendas e que raspam o lixo das pregas com ancinhos de metal rebarbado, afundando um pouco mais os sulcos. Uma cidade onde as correntes de ar arrastam grilhetas e onde não se vive para sempre.

20110516

Bilbau, País Basco O chapéu de feltro repousava, cruzando a pena. Sentado, ocupava um lugar esquecido pela idade. Incapaz de de se agarrar ao varão, deixou-se ficar. Por respeito, ninguém comentou; sorriam, educadamente. A medalha de Santa Teresinha, em tons azuis cerâmicos, mantinha um brilho espectral. Pingente numa volta apertada, usufruía, assim, não da graça divina mas da protecção solar proporcionada pela sombra da barbela, ou duplo queixo como este gosta de ser chamado. O pescoço farto e agnóstico, marcou uma linha roxa a toda a volta, delimitando a sua área de opressão. No corredor – isto, para aligeirar a conversa e dispor bem - um tema musical repartia-se por duas orelhas que fantasiavam sobre como os braços daquele fio condutor se iriam entrelaçar, no fim dos dedos. Eis que, mesmo em frente, toma forma uma mulher vulgar, recortada pelo pórtico da escola de freguesia. Pela força com que se abraça à carteira, só podemos imaginar duas coisas: ou ali se esconde, num forro descosido, o rendimento mínimo que lhe garante a família por mais alguns dias, ou este desespero vem da súbita tomada de consciência de que ela própria só existe na forma dos cerca de meia dúzia de cartões que se alinham naquela bolsa contrafeita. Todos os olhares vão agora alternando na direcção de uma lata de cerveja que tamborila um tema alegrete. De dentro dela tinha já saído um génio bem tocado que dissertava, para quem o quisesse ouvir, sobre o miserabilismo destes tempos de antena. Atentemos neste personagem, por mais alguns instantes, na esperança de perceber a fonte da nossa distracção quando temos no colo aquele capítulo mais complexo traduzido do ligúrico.

20110509

Kbal Spean, Cambodja Na estação fresca, entrou um homem com uma barba, qual arbusto desgovernado, e uma mulher de cabelo em copa densa, mais permanente que perene, caindo em pontas de chorão. O homem cofiava o arbusto com a mão em ancinho, de dentro para fora, com uma discrição tal que apenas se notavam umas falanges de pardal a assomar aqui e ali, chilreando de contentamento. A mulher não fez caso e abanou ligeiramente a cabeça. Um casal de melros que ali se debicava nas respectivas penugens, esvoaçou aflito, para logo voltar a se afundar na folhagem espessa. Levado pela brisa fria o homem infestante encostou-se a ela, cobrindo-lhe o tronco com uma sebe desgrenhada de onde começaram a despontar centopeias de raminhos trepadores, verdes e nervosos e brilhantes. A mulher sacudiu-se, na tentativa de abrir uma clareira, mas as luras das lebres, nas raízes, fizeram-na tropeçar. O vento caiu, a aragem gelou e o bosque emudeceu, enquanto a imensa árvore adornou, lenta e pesadona, arrastando consigo o arbusto apaixonado. Na queda, ela aceita e consuma aquele amor, estatelando-se ambos numa cama de folhas secas, felizes pelas gerações de larvas e coleópteros que lhes irão sobreviver.

20110505

Beng Mealea, Cambodja Passivo como era, o sujeito reconheceu o trote; o peito ultrapassava a passada. Conhecendo-se como conhecia, sabia que a cabeça sempre fora de ir mais à frente. À simetria de eixo vertical, que lhe opunha dois braços e duas pernas, sobrepunha-se um corte transversal que, pelo pescoço, tornava cabeça e corpo num casal amuado. É certo que corria por gosto, mas a milha longa à sua frente era incansável. Elaborou um plano. O metrónomo puxava-o pelas orelhas enquanto a vista dava passadas de sete léguas sobre referências fortes: a máquina dos sorvetes de leite, a anémona, a curva fechada, o bosque duvidoso, o fantasma do aquário, o molhe, a pérgola, o cheiro a pizza, a faixa baixa e o farol. Chegar, era meio caminho andado. Depois, na altura de voltar para trás e cumprir a volta, as coisas mudavam de figura e davam-lhe as costas. Se, por um lado, o fim estava mais próximo, por outro, mais retorcido, os marcos de passagem, antes vencidos, voltavam para o atormentar; lembravam a ansiedade do início, de corpo frio e respiração ofegante. Nessa ponta final, quando tudo endurece, apanhava ainda com o passado pela frente. E com o vento; chega a altura de falar do vento, esse de duas caras. O que pelas costas lhe dava palmadinhas e sopros nos tornozelos, e que pela frente, não contente em desfiar as redes penduradas, lhe fazia parede, bufando gravilha para os olhos e escapes livres aos ouvidos. O sujeito cambaleava, de tanto fumar coisas. Um cavalo escoiceava-lhe a virilha. É nesse preciso momento que se opera o extraordinário milagre sobre o corpo corredor. O casal abnegado reconcilia-se, respira fundo e termina fresco como uma alface. Estas, são coisas que não se podem explicar a quem não acredita.

20110429

Bayon, Angkor, Cambodja Eles dizem que o tempo vai mudar e eles raramente se enganam. O tempo muda, inexoravelmente, e nós, que guardamos um resto de despeito para estas ocasiões, soltamos uns remoques que se colocam entre a fina ironia e a asneira da grossa. Mas eles é que a sabem toda. Foram eles que fizeram este lindo serviço de colocar as coisas no estado em que elas estão. O que nos vale, são as nossas vitórias e as nossas alegrias, quando eles são massacrados. O que lhes vale, a eles, é serem vagos, pois logo que ganham forma e lhes conhecemos o conteúdo (ou a ausência de dele), tornam-se um de nós. Tornam-se contra eles. Somos assim como a rã de Kyoto e a rã de Osaka que, tentando ver mais além, se apoiam uma na outra, em pé nas patas traseiras, ficando com os olhos voltados para trás, a julgar que o futuro é algo maçadoramente igual ao caminho já percorrido.

20110426

Amman, Jordânia Atrás de um homem enorme caminhava, a custo, uma mulher sacrificada. Pareciam estranhos, um com o outro e, no entanto, todos os conheciam como casal. Mudos, cruzaram o cotovelo da viela e deram lugar a um herói de resistência - a viver há 98 anos – super ocupado a manter pelas costas a capa onde esvoaçavam duas mangas inúteis. Convém esclarecer que estas duas espanavam como doidas, não pela velocidade do passo do senhor, que ia praticamente parado, deixando-se levar na procissão lenta e glaciar dos paralelos da calçada, mas sim pela nortada, que aqui cai com o entardecer. De um ponto de vista elevado, o homem pareceu sumir-se para debaixo da terra, de onde logo saíram – que bela alegoria, dirão alguns – duas crianças da rua a afagar um gato caramelo. Com este excesso de atenção ao detalhe, quase perdíamos a passagem de uma criatura volumosa que envergava a mesma bata com que trabalhava para uma senhora. Abraçava uma chusma de vestidos, pela cintura, sem saber qual usar, numa ocasião especial. Aos poucos a ruela aquietou-se e, tirando um par aos beijos que agora-se-via-agora-não, a viela entroncada em cotovelo espreguiçou-se, parecendo, por momentos, uma rua direita. Um a um, Deus acendeu os lampiões da rua. Deus tem a vista cansada e a luz põe-lhe tudo a nu, como era dantes.

20110417

Phnom Penh, Cambodja Há cerca de 14 tipos de caras, numa multidão comum. Depois temos os formatos da cabeça, que são à volta de 8, homologados, e a distribuição de apetrechos como olhos, sinais e remoinhos capilares. Estes últimos podem atingir uma variedade de configurações tão notável que muitas vezes escapam ao vulgar transeunte. Ora, foi exactamente isso que acabou de acontecer com um par de orelhas. Aproveitando uns ramos de salgueiro mal aparados, invasores da via pública, soltaram-se do seu legítimo dono e, sem que ele ouvisse o que quer que fosse, deixaram-se pender por um galho espevitado. Há até quem tenha visto caras inteiras lançarem-se na sarjeta, envergonhadas com o descaramento a que são expostas. Mas, convenhamos, quem é que nunca correu atrás de uma língua estrangeira, imbuído de um espírito puramente altruísta, ansiando tão somente devolvê-la à boca vazia? Os dentes também se escapam, mas dão muito nas vistas. Têm o coração mole e hesitam muito, abanando por todos os lados antes de arrancarem. Tudo isto pode ajudar a perceber porque é que muitas vezes não reconhecemos certas e determinadas pessoas. O que não é o mesmo que pessoas certas e determinadas.

20110413

Donostia, País Basco Acomodados no interior da composição, os passageiros entreolham-se à vez, a medo. Lá fora, a correnteza forte vai arrastando os olhares à deriva. Graças a Deus pelas janelas. Um plano único, belo e irrepetível. Uma árvore seca, corre para as pernas de um cão distante (os espectadores suspiram de alívio). Um furgão lento ginga-se, peludo, exibindo-se para o grande ecrã. Logo após varrer um jardim, o chão suado deita-se num leito seco. O público, embevecido, engole em seco uma lágrima. Inesperadamente, o túnel abocanha o metro, como de costume. O exterior apaga-se, e os vidros duplos, agentes maldosos, reflectem as imagens de todos, como um pontapé no estômago. Por brevíssimos instantes, olham-se nos olhos. Que grupo sombrio, que gente estranha, pensam. E desatam a verificar o seu próprio reflexo no visor do telemóvel, ansiando um toque ou, se calhar, apenas uma cara amiga.

20110329

Deserto de Wadi Rum, Jordânia Ao condutor do funicular de Artxanda só lhe era reconhecido ser uma cabeça. Isto, se é que se pode chamar cabeça àquela secção longitudinal entre a pala hirta do bonezito revolucionário e a metade superior do bigode gendarme que o tablier se esforçava por ocultar. Mas nem é preciso saber se é correcto ou não dar tal nome a essa nesga de funcionário, pois é exactamente esse pedaço que lhe basta para ir aos limites de uma vida que muitos, de tanto suspirar por ela, ganham sopros no coração. Um homem assim vivido, tem a serenidade de aguardar pelo fim do coro de gargalhadas injuriosas, para depois, pacientemente e sem nada a esconder, assombrar com a verdade: - Levado por forças mudas o habitáculo eleva-se, encarando bem de perto o mais profundo da terra. Sem inclinações mundanas, passo rente a tudo o que sustém a encosta; os extractos, as fissuras ameaçadoras onde coabitam a brita e o lajedo, subindo sempre, e sempre mais detalhado é o desespero que se agarra à rocha e derrapa no entulho. Haverá algo mais elevado que um vislumbre dos cantos mais rudes da alma da terra? (Aqui aguarda-se a saída ordeira de todos os passageiros, para que, e sem a possibilidade do testemunho popular, o bonezito desapareça do posto superior e desponte, fazendo jus ao clássico número de casino com dois armários e um alçapão - este último quase esquecido por todos, de tão enlevados que estão pela reputação internacional do ilusionista -, na cabina baixa do funicular, mais vigilante do que nunca, apesar da enganadora apatia.) - Haverá. Vê-la subir aos céus, enquanto descemos, de cabeça baixa e dever cumprido, para cada vez mais perto de onde tudo começou. Que magnífica dualidade: caímos vertiginosamente nas entranhas do ferro e da madeira talhada, esmagamo-nos por onde a multidão se parte em dois, e é aqui que os céus se abrem, de par em par, com tal estrondo, que tememos uma chuva de estilhaços. E tudo isto se repete de 15 em 15 minutos. Pelo menos, no meu turno.

20110313

Viseu, Portugal O lado desconhecido, normalmente pintado de negro profundo é, se pensarmos bem, o que mais oferece a outra face. Isto levanta um problema de pigmentação: como pode ser obscura uma faceta assim tão esquiva aos ultravioletas? Albina, é o mais certo; a expressão mais insípida de um caco de alva porcelana. Mas, e o inverso? Aquele mais radioso? O que se nos abre, despudorado, mostrando uma fileira de esmaltes planos e rigorosos, onde nada de interessante se consegue agarrar? De tão exposto a uma luz maior, só se nos oferece em tom baço, escuro e enrugado. O melhor, mesmo, será trabalhar o recheio, fazendo brilhar umas arestas bem polidas.

20110222

Kompong Pluk, Cambodja Com alguma timidez, Jubal Pastorius soltou o aperto de mão com que recebia o superintendente da força e rolou colina abaixo, revelando a criança que havia dentro de si. O nível de constrangimento subiu rapidamente, alagando os presentes até aos tornozelos. Ninguém se atrevia a dar um passo, com receio daquele ruído desagradável que faz a peúga sintética encharcada no interior dos sapatos de sola. A criança revelou-se, por sua vez, estranha. Diferente e um pouco sisuda. Dava-se ares de jovem adulto. Ouve mesmo quem comentasse "Meu Deus, crescem tão depressa; um dia andamos com eles ao colo e no outro...", como fazem os pais extremosos quando o benjamim bate asas. Por esta altura, o adolescente tentava marcar uma posição, urinando indiscriminadamente à sua volta. O superintendente, agastado, sentia-se velho. Subitamente, um lado feminino começou a despontar no gandim. Foi o lado esquerdo, e ele apaixonou-se. Neste momento, já todos tinham puxado uma cadeira.

20110214

Bokor Palace, Phnom Bokor, Cambodja Mal deu por falta dos óculos, a dona levou as mãos à cabeça, onde eles costumavam poisar. Os dedos andaram às cegas pelos rolos do cabelo, desalinhando uns caracóis que mais pareciam lapas, de tão agarrados ao couro cabeludo. Em vão. Bateu com as mãos no peito, nos quadris, mas de óculos, nicles. Virou a casa de cangalhas. Foi de gatas até ao contador de salão, ansiosa por novidades, e ele mudo como um criado. A senhora já não via nada à frente. A casa, sem óculos, parecia mais nova. Quando se procura um pertence perdido, naquela fase em que já esgotamos todos os cenários e retrocedemos todos os passos, geralmente morde-se o lábio e coça-se a nuca, antes de partir para os recantos que há anos não visitávamos. Como a viagem é tomada à pressa, não levamos um agasalho nem a merenda, e o ar desalinhado que a angústia nos traz, faz com que os outros atravessem para o lado de lá, sem se aperceberem da firmeza de carácter que nos guia. E as surpresas? E aquelas coisas que encontramos, sem querer, e que nos tentam desviar do caminho? Quando, por exemplo, procuramos uma caneta dourada - e gravada, com dedicatória sentida -, de coração apertado à espera do pior, e nos aparece, vinda não sabemos de onde, uma forma de pudim que já não era usada há dois invernos? Pomo-nos logo a antecipar o prazer de um Abade de Priscos ao jantar, e votamos a pena perdida ao mais cruel esquecimento. A desfocada doméstica assim era posta à prova. Ao dobrar a prateleira mais baixa do camiseiro dos fundos, a velha rela do seu rebento, agora militar, atingiu-a em cheio no coração. A lágrima que caiu no vazio, lembrou-lhe os óculos perdidos. De costados no taco, arrastou-se para debaixo da cama, onde uma nota de cem escudos lhe trouxe à memória o mês sem reforma. Quando se lançou pelo fundo falso da clarabóia, deixamos de a ver. E de poder contar seja o que for. Afundado no sofá da sala, o gato não aguentou mais e entreabriu os olhos. Não vendo a patroa levantou-se em arco, esticando as articulações, e abriu as goelas desmesuradamente. Por de baixo dele, mornos e cheios de pelo, escondiam-se os óculos da dona. Fica por explicar se aquilo foi um longo bocejo de abandono ou uma surda gargalhada de mafarrico.

20110203

Phnom Penh, Cambodja Um C de campo, cheio de voluptuosas beringelas da Índia, aquelas roxas de pedúnculo verde que nos fazem diabretes. Depois um A, de fim de zebra labiríntica, criatura onde só nos conseguimos perder, pois nunca a encontramos quieta. No N nada vigorosa, em pernada de barbatana, pondo a vaga num tubo que se desenrola em água morna. Quem se chega ao lânguido G, de lagarto de contas, não calcula a alhada em que está metido, se não lhe der o devido valor. Reencontrado o angélico A, somos levados a pensar - que ingenuidade - num elegante déjà vu, quando, na realidade, é um novo reflexo do espelho embaciado por biscoitos e bolinhos de forno, no bulício do pequeno almoço. Se olharmos para o L, com o devido respeito, sentimos nele algo de tailandesa no arrozal, de convicções fortes e mão certeira, postura de junco e base de templo. Ah! - aspiramos fundo, no silêncio do H – façamos uma pausa. Mais tarde, nada impede que se encontre o A, pela terceira vez, na cor amarela, e muito menos que se rasgue um sorriso de satisfação ao sentir o coração tão quente, tão primário. Mesmo inevitável, é semicerrar os olhos ao poderoso S, de sol, de fim dos enigmas e do princípio da sorte.

20110130

Petra, Jordânia Como a porta da rua estava aberta, a de lá de cima bateu com um tal estrondo que até as varejas guinaram. Pendurada num fio de cediela, a máscara africana do riso estremeceu contra o vidro. O soalho de carvalho francês despertou e espreguiçou-se, estalando os nozinhos com violência. Ou as suas traves roçavam o solo do quintal, ou os torrões deste se afoitaram pela sala adentro. O certo é que na fronteira, ninguém sabia de que terra era. Pela sala esvoaçavam já sombras de limoeiro, de tangerinas e até de pacíficos galhos de oliveira. Manchas de humidade decoravam os lacados em pastéis de fungo. Sentia-se uma saudade do bosque, nas madeiras, e nas plantas, um espírito libertador. Nas águas de cima, o sótão estava com a telha em desalinho, de tão ventoso que estava, e a cave, se existisse aqui tal subterfúgio, estaria exactamente ao contrário. Uma casa abandonada, se quiséssemos ser indelicados para o bando de pombas que tão carinhosamente atapetavam o soalho com os seus excrementos. E que dizer daquele quarto em que a porta não abria? Que peso morto era aquele que fincava o pé a menos de uma frincha? A porta da rua encolheu as ombreiras e deixou-se ficar a arejar, rangendo de satisfação.

20110120

S21, Phnom Penh, Cambodja O apêndice é vermiforme, coitado. E do seu ponto de vista, está tudo virado do avesso. Posto isto, resta dizer que, dada a proximidade fecal, nem um suspiro profundo de consternação lhe é permitido. Em revolta muitos dirão "Que sofrimento atroz lhe deve remoer as entranhas!". Mas isto é não conhecer o tipo. Sofrer é um luxo a que não se pode dar. Ao primeiro queixume, movem-se diligências, abrem-se incisões de precisão cirúrgica e o apêndice, adereço, anexo, suplemento, acrescento, acessório, complemento, aditamento, é retirado. Assim, sem mais nem porquê.

20110115

Beng Mealea, Cambodja A funcionária dos correios adorava aquele jogo solitário de encontrar um par. Jogava-o com qualquer um, insinuando-se o convite. Que bela que era, na tranquila eficácia com que ponderava as suas opções. Por mais agreste e ignota que fosse a terra, no sorriso escondido víamos-lhe a manha de saber das coisas. Só e sem medo, batia a esta e àquela porta até encontrar quem fizesse pandam. Na sua busca era altruísta. Parecia um misto de chefe de bando e casamenteira, com a voz clara a arrebanhar e casar os que ficavam pelo caminho. Velocista no passo, fazia o seu jogo sem pressas. Sabia que o chegar à alma gémea acabava com tudo e, por isso, fazia de conta que se enganava. No fim, Rosa enterrava sempre as duas últimas cartas no meio do baralho, sem as virar. Sem fazer o último par. A vida era-lhe demasiado preciosa para terminar.

20101226

S21, Phnom Penh, Cambodja A ministra Thirith guardava o crânio de Yorick na pasta dos assuntos sociais, embrulhado num krama axadrezado. Resolvidos os afazeres oficiais, ela dedicava-se a longas conversas com o seu velho companheiro de faculdade. Este, à semelhança de outros crânios, levantava questões tão fundamentais, que a senhora, furibunda, só lhe apetecia reduzi-lo à vulgaridade. Nesses momentos, tomava um passo miudinho e apressado - aquele que as pessoas tomam quando estão visivelmente irritadas, de costas tesas, marcando bem o calcanhar e logo após assentando, com estrondo, o resto do pé -, corria as redondezas à cata de pessoas de baixa condição e retirava-lhes a cabeça. Depois de limpas, espalhava essas cabeças sobre o crânio de Yorick, convicta de que a condição de estar ao nível da populaça lhe baixaria a garimpa. Assim satisfeita com a suposta humilhação do crânio, considerava o assunto morto e enterrado. Estes arrufos aconteciam-lhe amiúde. Até podia contar mais, mas o resto é silêncio.

20101218

Ta Prohm, Angkor, Cambodja A floresta das montanhas de Cardamomo é impenetrável. O ar carregado segura, a custo, 98% de humidade. Um pouco mais e desata num pranto. Segurando uma vara de bambu com a ponta cortada em bisel, o ranger Hun Lei dança cautelosamente pelo trilho (que não tínhamos reparado antes, quando utilizamos o termo impenetrável). Trauteia uma melodia francesa, muito em voga nos anos 30. De 3 em 3 passinhos, levanta cada um dos pés, ora para a frente, empinando graciosamente a biqueira, ora para trás, rodopiando o calcanhar sob um olhar atento por cima do ombro, enquanto marca o ritmo, dando com o varapau nas solas. A experiência ensinou-o que só com esta deliciosa dança da Bretanha se consegue aligeirar o ambiente e impedir o dilúvio.
Petra, Jordânia Não tendo rigorosamente nada para fazer, a possibilidade de me dedicar a algo supérfluo e aprazível, insinua-se, sorrateiramente. Pouco a pouco, um número considerável de coisas mirabolantes entope-me o discernimento. Despejo uma garrafa de água pela goela abaixo (ando a ingerir poucos líquidos) e reparo - É curioso! - que todos usam o mesmo tipo de laço de cachecol. Pareciam todos tão diferentes... Os ruídos massacrantes, como o do ar condicionado defeituoso que me serve de tecto, tendem a desaparecer, se lhes der tempo. Se calhar ainda lá está, eu é que não lhe dou ouvidos. Com as pessoas, é um pouco mais difícil, mas faz-se. (Passa-me pela cabeça o tom moreno das bolas de Berlim do Natário; deve ser o cérebro a pedir açúcar.) Já me alonguei demasiado.