20120119

Barcelona, Espanha - Não aguento mais! Vou para onde me esperam. Acerto as minhas contas e vou. Estou saturada, farta desta vida. Não estou aqui a fazer nada. Só quero deixar as contas pagas. Amanhã ainda estou viva, é a despedida. Isto já anda há muitos anos na minha cabeça. Agora tudo acabou, para mim. Só quero paz, mais nada. Amanhã posso estar melhor, não sei. Doente, doente, não estou, morreu-se-me é a alma. Até já comprei o remédio. A minha cabeça não está cá, ou melhor, só está para me levar a desaparecer. Estou assim há muito. Até saí de casa para ver se a ideia me passa. “Vai para trás, vai para casa.”, diz-me a minha cabeça, “Faz aquilo que tu queres e vai desta para melhor.”. Não tenho medo de nada. Não quero ver ninguém, falar com ninguém. Não vale a pena. Mas também não quero ir para casa, se não, meto aquilo à boca. Pensei que isto ia melhorar, mas não. Os que andam à minha volta só querem o que é meu; e o que é meu é a minha vida. Cada um tem é que viver a sua, o melhor que puder, sem... Estou?... Estou?...
S21, Phnom Penh, Cambodja Entro desperto, na cidade dormitório; uma de muitas, daquele país encravado entre tantos outros. Enquanto caminho pela rua sonâmbula, esfrego os olhos às inúmeras artérias que a cortam aos pedaços. O passeio que piso, já aguentou tantos mil passos e intenções de caminho, que se tornou, ele próprio, numa espécie de metrópole. O emaranhado de possibilidades esgota o mapa que se dobra na minha cabeça. Refugio-me numa casa - abrindo um portão, cruzando um caminho, empurrando sorrateiramente a porta com um dedo esticado - em busca de unidade; mas a casa tem degraus, carrocéis de degraus a ondular entre os pisos. E quadros. As paredes, já delas tantas, mascaram-se de outros lados, surreais, e fingem ter janelas impressionantes. Não consigo ver uma só coisa. Tudo se desdobra em demasiadas hipóteses, para mal das minhas indecisões. É então que, já cansado, descubro uma única pessoa, sentada à mesa; um indivíduo com, parece-me distinguir, uma personalidade vincada. Aliviado, peço-lhe uma opinião concreta, mas quando ele começa a falar, não consigo ouvir nada, tal é a algazarra da gente que, dele, enche o enorme salão.

20111230

Barcelona, Espanha Não me mexo, e tudo à minha volta pára. Depois avanço, e a engrenagem ferrugenta desmultiplica-se em oportunidades. As mais próximas, passam a correr e, ainda que tivesse as mãos a medir, são demasiado efémeras para me despertarem pele de galinha ou formigueiro no interior do lábio. À medida que me salta a vista para além do óbvio, reparo que as coisas de além abrandam e se tornam mais apetecíveis. E lá ao longe - meu Deus! - que extraordinárias possibilidades troçam do meu curto alcance. Quando me chego a elas, perco o interesse, esqueço-me ao que vim e reparo que lá ao fundo, passadas as camadas de cenários mortiços, há uma nuvem a tomar a forma do que me interessa.

20111204

Barcelona, Espanha Se juntarmos um molho de correligionários cheios de doença numa pandilha deserta, podemos enfeitar o final de um sumptuoso repasto com as suas fezes. A toda a volta achegam-se manjedouras com bordões de Argan encastoados a tomilho fresco. De tempos a tempos, cada narina inspira uma boneca de sementes, desatando num chorrilho que ficaria muito bem ao pescoço de qualquer mulher da terra. Sobre a mesa escorre, da abóbada, um lustre. Todos os comendadores e anestesistas lhe prestam reverência e aguardam uma palavra, uma síncope. Tudo termina bem regado, com viçosas indiscrições a entrelaçarem-se nas pesadas sanefas de brocado. Quando as enceradoras dançam a última circunvalação nos salões vazios, já os vigilantes sonham com o fausto das cavalgadas tumbas.
Marraquexe, Marrocos Os pescadores aguardam, à entrada dos derbs, o passar o cardume: esperam os soltos. Mal os sentem, lançam-se na corrente e tornam-se engodo. Rasgam um sorriso em mil pedacinhos brancos e atiram uma mão cheia, no caminho da vítima. Esta, se se recusa a avançar, tem já um braço à volta dos ombros, a cortar-lhe a retaguarda. Um molho de menta fresca é logo enfiado no nariz, que já ferve. Tudo parece bem, agora. A presa dócil segue o captor, em esperançosas flutuações pelos canais. O sol forte dá lugar ao breu mofo de uma entrada baixa. Os olhos demoram a responder. É o suficiente para o incauto cair no tanque. A cal viva deixa-o meio morto e todo careca. Agora é fácil, com alavancas de cedro, mudá-lo para a bacia de guano, onde se vai tornar rijo. Uns dias depois, sob placas de açafrão e canela, o sujeito estará macio e perfumado, pronto a ocupar o seu lugar em frente a uma lareira. Há quem não note diferença, nesta nova forma de vida. Há até quem se sinta mais feliz. É que é bem melhor sentir os corpos nus que se lhes enrolam, ao serão, do que as solas entranhadas de gravilha que os amansaram a vida toda.
Marraquexe, Marrocos Os lampadários almorávidas tomam a forma do relevo decorativo sob o qual pendem, ou é o inverso? Os mestres de artes que se empoleiram nos selins ferrugentos, juntamente com quartos de tinta, sifões e abraçadeiras, aguardam uma empreitada, ou são os fungos bolorentos, as meadas de cabelo e sabão negro e os bules silenciosos que rezam pela chegada dos primeiros? Os dorsos escuros que cortam as águas barrentas, no lago do pavilhão, cavalgam pesadelos de fundo viscoso, ou são esses gumes diligentes que mantêm as águas lisas? As muralhas da cidade desagregam-se pacientemente, ou são sinais apaixonados de quem anseia o abraço do andaime e o afago da colher de pedreiro? As flautas encantam mesmo as serpentes, ou são apenas cadáveres hirtos de velhos répteis, que intrigam os seus congéneres vivos ao exalar sopros humanos? As grandes laranjas que vergam os ramos, escarram melaço ás azeitonas pretas, ou são as oliveiras, raposas escorregadias, que assim se resguardam da cobiça pública? O que é certo, é que um mapa nunca se volta a fechar pelas mesmas dobras.
Marraquexe, Marrocos A cotovia voava alto sobre os mortos, - carroças e carroças de laranjas deixavam-no bem claro - semicerrando os olhos ás fumarolas de incenso. De quando em quando, admoestava os crentes com uma voz roufenha, mas eram poucos os tapetes que sacudiam os ombros. Havia de tudo, na praça: homens rentes ao chão, a soprar cobras e lagartos, outros, enormes, de cabeças afiadas e uns espantalhos coloridos e farfalhudos, que agitavam quinquilharias para afugentar a sede. Quem por ali passava, esquecia as peias e dava cambalhotas para trás, como um macaco. Os mais cuidadosos, achavam por bem assistir a tudo de longe, mas o toque do batuque esticava a pele e eriçava de tal maneira as virilhas, que o engodo esfarelado desaparecia num instante. Na cidade vermelha de sangue nas faces, faziam-se amigos. Na cidade vermelha de sangue nas fezes, compravam-se inimigos. Uma vez, uma pomba enfunada teve um lençol de músicos escuros a tocar só para ela; uma outra, uns homens de vestido comprido, como mulheres, abandonaram as mulheres soturnas, como homens, e foram-se lavar, nas extremidades. Se, depois disto, referirmos ainda que a pele perde o pelo em cal viva e endurece com excrementos, vão achar que nunca saímos do sítio; que andamos ás voltas.

20111112

Ta Prohm, Cambodja Os risinhos soluçantes do engenheiro eram insuportáveis. Alguém tinha de o assustar. Metê-lo a sete golos debaixo de água ou deixá-lo sem respirar, por exemplo (conheço umas almofadas de penas que iam gostar disso). Ao invés, tomamos um ponto de vista invertido. Daqui, o sorriso amarelo do bicho torna-se num esgar amarelento de pôr os cabelos em pé. Parece funcionar; uma expressão violácea-paixão toma-lhe conta da face, agora tranquila. Vamos deixá-lo assim pendurado, por uns tempos, e usufruir de alguma paz de espírito. Ao terceiro dia, tinha desaparecido, ou coisa do género. Em seu lugar, uma buganvília colossal trepava pelo terraço alto, espraiando-se nos telhados. Era, em tudo, a cara dele: o corpo atarracado e fibroso, os membros desarticulados de unhas reviradas, os sulcos que antecediam as proeminências nodosas, até mesmo uns olhinhos de madeira, aqui e ali, semicerrados ao azedo da seiva. Zombava de nós, o vegetal. E, se dúvidas ficavam, era ver o desplante com que sacudia os ramos e entupia as caleiras com folhas velhas. Sentia-se alguma emulsão betuminosa a crescer nas paredes de saibro, antevendo a chegada das primeiras chuvas; os narizes ganhavam fungos. Foi aí que se deu a volta ao texto. Regressando ao segundo parágrafo, num movimento engenhoso, tomamos o ponto de vista inicial. A trepadeira, aflita, viu-se de pernas para o ar. Os ramos virulentos, cresceram contra o chão e estilhaçaram-se na tijoleira. Soltas da terra, as raízes esbracejaram em vão, acabando por sufocar ao ar, desgrenhadas. Nos tubos de queda, as águas seguiram o seu curso, aliviadas.

20111022

Barcelona, Espanha A fulana tinha traços de boneco; meia desengonçada, meia desengraçada. Ensinava animação e, embora não tivesse umas unhas dignas de nota, tinha dentes. Olá se os tinha; e que dentes. Uns dentes que merecem um parágrafo. Imaginem uma paliçada de marfim capaz de travar os elefantes de Aníbal; tentem abarcar o mais imponente dos glaciares árticos e, ainda assim, serão modestos nos vossos esforços. Os que a escutavam, entreolhavam-se, baralhados, pois nenhuma palavra escapulia daquela masmorra. Esticavam as cervicais, faziam concha com as mãos nas orelhas, mas tudo em vão. Rien de rien, como se diz lá fora. Foi então que algo sucedeu. E o facto de tal coisa ter sucedido, só prova que os momentos de expectativa estão destinados a anteceder grandes surpresas. A generosa fileira de dentes brancos, assim sem mais nem porquê, começou a dançar uma sardana. Os incisivos deram o mote, apontando um pezinho saltitante. Os molares, entusiasmados, acotovelaram os caninos para se fechar o círculo. Em três tempos, todos davam as mãos, numa roda festiva. Até os mais sisos. A boca da fulana parecia uma praceta. Quem lhe vinha, cabisbaixo, pelas escuras ruelas do esófago, ficava deslumbrado com a luz boémia daquele momento e juntava-se à animação.

20110913

Jerash, Jordânia - Vint'cinco-mil-oitocentos-e-trinta-e-quaaatro - soltou o tenor, inchando um peitilho folhado a cautelas. O público, indiferente, passou-lhe ao largo. Lentamente, levantou-se da pedra onde estava acabrunhado e saiu de cena, arrastando uma pose gasta. Discretamente atento, do outro lado da rua e da montra, estava um senhor que vendia saúde, apesar de ter muito má cara. Na farmácia onde trabalhava, gostava de medir a tensão, sentado num banco alto. Gostava, especialmente, do apertar do braço, de ver a agonia à tona dos olhos e do tom magnânimo com que comentava o vaticínio do talão. Já um pouco desatento, na casa ao lado, trabalhava um velho mosqueteiro, encostado das tarefas palacianas. Era caixa. Caixa num banco; e sentia-se abandonado. O segurança, vendo a embalagem suspeita, chamou uns especialistas, devidamente protegidos, que a desmontaram, víscera a víscera, sem que, no entanto, fosse detectado qualquer elemento perigoso. Posteriormente foi incinerada e não se falou mais nisso. O banco abriu uma vaga. A mãe ralhou ao filho "Senta-te direito, que estás a dar cabo das costas".

20110825

Jerash, Jordânia Na minha cidade, estou no centro, a olhar em redor, e vejo-me por toda a parte. Passo por mim, feliz da vida, vindo de todos os lados. Nas ruelas que vou descortinando, ouvem-se as minhas passadas, como me acontece noutros lugares. Todos os que encontro são como eu, quando me perco por aí fora. Ver-me assim, ubíquo, nada me traz de divino; dispersa-me e enfraquece os momentos que julguei só eu ter passado. Mais atento, reparo que cada um que sou, é-me completamente diferente. Olham um pássaro, quando eu entraria na meia sombra de uma arcada; espreitam o vazio que se prolonga para além das pernas, onde eu passaria o rio a vau. Tão diferentes de mim, afinal. Atrevo-me a pensar que sou único. Que fraqueza.

20110719

Petra, Jordânia Há muitos, muitos, muitos anos, vivia no alto da serra um pastor de lobos. Desgraçadamente, deixou de viver. Na primeira manhã de pastoreio, o pobre homem foi dilacerado pelo seu vil rebanho, que passou a ser conhecido como alcateia. O seu filho mais velho, chorou-lhe a morte por muitas luas. Quando lhe minguou o pranto, cresceu-lhe a vontade de seguir as pisadas do pai. Foi deste modo que chegou ao local da desgraça, agora poiso de um grande rebanho de corvos gordos. Tomou isto como um sinal e arrebanhou-os para seu uso. Em duas penadas comeram-lhe os olhos humedecidos, levando o varão, cego de dor, a cair por uma ravina escura, enquanto os injuriava de bando. O irmão mais novo, benjamim da família e último descendente macho de uma longa linhagem de pastores da serra, era um rapaz estranho. Olhou para a enorme quantidade de ovelhas que, desde tempos imemoriais, assombravam as terras da família, e assobiou. Ordeiras, as bestas juntaram-se à sua volta. Desde esse dia, passou a tratá-las como se de um rebanho verdadeiro se tratasse.
Kbal Spean, Cambodja Ser mergulhado, foi bem diferente de mergulhar. Quando andamos sós, pela nossa própria pernada, embora arregalados e submersos, é só um mundo fosco o que nos engole. Mas se nos deitam, deixamo-nos ir, de olhos bem fechados; e lá no fundo, a cabeça acorda para as coisas de cima. É inacreditável a quantidade de água que os olhos trazem na volta desse abraço azul. Tanta, que a repartimos. Inesgotável, que envelhecemos na sua frescura. Tão clara que nunca nos turva. Veio de fora para nascer cá dentro.

20110617

Viseu, Portugal Aos desenquadrados Nesta casa imaginada que me corta em divisões de sentir não tenho nada de mexer, as convulsões Ó meu rico, abençoado (salivei no meu pregão) deixa tocar-te no lado que livra da culpa o pão Olha o trapo como enfaixa desidrata a polpa seca da menina traça e racha a imagem, que apodreça Chegue cá essa indiferença passe o cheiro a alho podre martelada, a minha crença escorre na fossa salobre Salta o povo, pinga o cio mancha a morte do diacho sobe o sonho em desafio queima-se a pele cá por baixo Os olhos piscam às moças como sal grosso nas feridas os tachos engolem as poças das entranhas, das bebidas Nesta noite de orvalho mói-se o corpo ao relento chega o dia, fecha o talho fecham-se os olhos ao tempo Plantei um manjerico bem no fundo da garganta quando carmim vem o grito sai da cor da esperança Quando te roubei um beijo já sem vida, já sem nada vazio de todo o desejo enterrei-te na calçada Quantas festas deste santo não tocaram o meu rosto corto a cruz o seco pranto apresento-me ao desgosto

20110612

Viseu, Portugal Já arrasto a memória de uma cadeira há algum tempo; cansado, fico à espera da próxima esquina. São umas criaturas extraordinárias, as esquinas. Assim uma espécie de curvas, mas com carácter; e quando ornadas por um gaveto saliente, tornam-se irresistíveis. Só apetece ir lá dobrá-las, com uma forte guinada de ombros. Para mal dos meus pecados a rua segue recta, num traço contínuo. A ansiedade foge-me para debaixo do esterno e põe-se à coca, pronta a apertar o gasganete aos pulmões. Atrapalhado, bocejo convulsivamente. À minha volta há gente a falar de costela mendinha e rolos de massa folhada, com requintes de malvadez. Sinto o desconforto de usar demasiado casaco para o abafado do dia; acarinho a intenção ousada de o despir e surpreender a roupa interior com um ou dois arrepios. Talvez mais logo. Prossigo, resoluto. Dar passos largos é uma atitude altruísta, especialmente quando aqueles para quem os damos só conhecem o saltitar medroso ou o arrastar de uma flebite. Uma vez dei dois espirros a uma fulana sisuda; uma outra, condoí-me com o ar inerte de um velho e dei-lhe uma cabeçada. Em ambos os casos fui mal entendido. A rua que desço é tão paralela ao centro urbano que nunca se cruza com ele. Se na praça larga, mesmo aqui ao lado, gerem-se fortunas à desgarrada, nesta periferia do quarteirão ainda se fazem atenções. Estou numa casa de borrachas a investigar vedantes. Do outro lado do balcão um bigode farto segura um metro de madeira encastoado a cobre, condescendente com a minha morosidade. Subitamente entra um monstro do teatro, com peça em cena e tudo, à procura de uma informação. No interior da loja, pendurada num guiché de vidro martelado, uma velha dá um grito de satisfação enquanto o bigode se franze de orgulho. Em três actos, o actor é embalsamado e posto em exposição ao lado de outras figuras célebres, já desaparecidas. Curiosamente, esta é a única parte verdadeira da história.
Donostia, País Basco A tale is a trap, taken solo. Once upon it, the shot must be watered down, from an old disbeliever, who faces the siren lyrics under the hood of apathy, to a newborn, the real prey of cuckoo, that hears the spell, now hollow of meaning. Harmless. Tight stitched pages sew the minds of herds that, yet, float as a hint. A steady index finger-points the text, keeping the words in line. A man passes by, a reader. His son's son, on one arm, his father's book, on the other. They look ever so happy, after all.

20110528

Bokor Palace, Phnom Bokor, Cambodja Numa cidade do interior, que aqui prefere manter-se invisível, os digníssimos membros da Assembleia Municipal deliberaram, por unanimidade menos um, as mais recentes medidas de encarceramento para crimes sobre a propriedade intelectual. Sendo uma cidade de cadeias, com larga experiência em impunidade, o novo sistema prisional foi desde logo testado no ex-digníssimo membro que se tinha manifestado em desacordo. O procedimento era revolucionário, diziam; a eficácia, nunca vista e o resultado seria, no mínimo, um clamoroso sucesso da justiça. Chega de caminhar no sentido enganoso de considerar o tempo como o factor determinante no peso do castigo. Anos, séculos até, foram desperdiçados na manutenção de vícios e na formação de negociatas. Custava a crer como é que ninguém se tinha, ainda, debruçado em reflexão sobre este assunto. O segredo, revelaram então os ilustres, o futuro da coacção seria, pasme-se, a punição pelo espaço. O delinquente pôs em causa a justeza da autoridade? Reduzam-lhe a cela a um sexto. Aquele idealista que plantou ideias de revolta numa comunidade perfeitamente ordeira e acomodada? Fatiem-lhe o pé direito da solitária, pela metade. Que fazer com todos aqueles que, diariamente, se escusam a um esforço maior na proliferação de uma doutrina tão generosamente oferecida pelo poder vigente, visando ela, apenas e só, o alívio de uma vida sem sentido? É emparedá-los, sem ângulo de viragem. O tempo tornou-se obsoleto; já passou; está acabado. Só um molde de betão armado consegue, em concreto, enformar tais falhas de carácter. Quanto mais apertada, mais rápida sai a fornada de cidadãos exemplares, à montra da sociedade. A Convenção Internacional obriga à existência de uma janela, postigo ou fresta, por enclausurado? Tranquilizem-se os picuinhas, pois até isso foi tido em conta. E é aqui que está o gato. O gato caseiro passa horas, dias a fio, uma vida inteira, aninhado entre a grade e a portada, ou mesmo equilibrado no fino peitoril da balaustrada, imóvel, piscando lentamente os olhos de satisfação. Que delícias servidas em raclette lhe estarão a passar pelos olhos? Não persegue mais a ratice da zona, certo de que estes virão, de livre vontade, lançar os lombos tenros aos seus caninos de felino. Como é possível tal fleuma num gato confinado? As novas medidas da Assembleia Municipal tiveram resultados surpreendentes. Privado de distracções, na clausura do seu metro quadrado, o meliante argumentador pôde dedicar-se a observar por entre as grades, as manigâncias no pátio dos oficiais e rechear a sua lista de conspirações com os mais deliciosos pecadilhos; o livre-pensador, agora curvado sob um tecto baixo, ficou na disposição ideal para entalar o nariz na nesga que se lhe abria para os arrabaldes da cidade, e cheirar os primeiros laivos de descontentamento que normalmente grassam na periferia, antes de rastejarem até ao centro urbano; e que privilégio, o dos emparedados, de corpo amparado pelo próprio edifício, sem outra ralação que não a de observar o sofrimento diário das almas terrenas, desde esse posto sobranceiro, e confirmar a inutilidade da penitência. Consta-se que a excelente Assembleia está reunida a deliberar sobre o uso de capuzes abafadores versus complicações respiratórias. Espera-se unanimidade.

20110518

Kompong Pluk, Cambodja Era uma vez uma cidade de rugas estreitas e profundas, a retalhar a parte velha, por onde escorriam em atribulados corrupios, e muitas vezes se incrustavam como carraças mafarricas, todas as coisas vivas que povoam a imaginação com o crepitar de mil patas finas e o deslizar de escamas no basalto, mas que em nada impedem a sobrelotação por ninhadas de locatários submissos que expiam a sua existência com largadas à porta dos despojos do dia, em sacos atados à noite, prestando, assim, vassalagem e contas de tributo aos medos que os tolhem, e que limpam as oferendas e que raspam o lixo das pregas com ancinhos de metal rebarbado, afundando um pouco mais os sulcos. Uma cidade onde as correntes de ar arrastam grilhetas e onde não se vive para sempre.

20110516

Bilbau, País Basco O chapéu de feltro repousava, cruzando a pena. Sentado, ocupava um lugar esquecido pela idade. Incapaz de de se agarrar ao varão, deixou-se ficar. Por respeito, ninguém comentou; sorriam, educadamente. A medalha de Santa Teresinha, em tons azuis cerâmicos, mantinha um brilho espectral. Pingente numa volta apertada, usufruía, assim, não da graça divina mas da protecção solar proporcionada pela sombra da barbela, ou duplo queixo como este gosta de ser chamado. O pescoço farto e agnóstico, marcou uma linha roxa a toda a volta, delimitando a sua área de opressão. No corredor – isto, para aligeirar a conversa e dispor bem - um tema musical repartia-se por duas orelhas que fantasiavam sobre como os braços daquele fio condutor se iriam entrelaçar, no fim dos dedos. Eis que, mesmo em frente, toma forma uma mulher vulgar, recortada pelo pórtico da escola de freguesia. Pela força com que se abraça à carteira, só podemos imaginar duas coisas: ou ali se esconde, num forro descosido, o rendimento mínimo que lhe garante a família por mais alguns dias, ou este desespero vem da súbita tomada de consciência de que ela própria só existe na forma dos cerca de meia dúzia de cartões que se alinham naquela bolsa contrafeita. Todos os olhares vão agora alternando na direcção de uma lata de cerveja que tamborila um tema alegrete. De dentro dela tinha já saído um génio bem tocado que dissertava, para quem o quisesse ouvir, sobre o miserabilismo destes tempos de antena. Atentemos neste personagem, por mais alguns instantes, na esperança de perceber a fonte da nossa distracção quando temos no colo aquele capítulo mais complexo traduzido do ligúrico.

20110509

Kbal Spean, Cambodja Na estação fresca, entrou um homem com uma barba, qual arbusto desgovernado, e uma mulher de cabelo em copa densa, mais permanente que perene, caindo em pontas de chorão. O homem cofiava o arbusto com a mão em ancinho, de dentro para fora, com uma discrição tal que apenas se notavam umas falanges de pardal a assomar aqui e ali, chilreando de contentamento. A mulher não fez caso e abanou ligeiramente a cabeça. Um casal de melros que ali se debicava nas respectivas penugens, esvoaçou aflito, para logo voltar a se afundar na folhagem espessa. Levado pela brisa fria o homem infestante encostou-se a ela, cobrindo-lhe o tronco com uma sebe desgrenhada de onde começaram a despontar centopeias de raminhos trepadores, verdes e nervosos e brilhantes. A mulher sacudiu-se, na tentativa de abrir uma clareira, mas as luras das lebres, nas raízes, fizeram-na tropeçar. O vento caiu, a aragem gelou e o bosque emudeceu, enquanto a imensa árvore adornou, lenta e pesadona, arrastando consigo o arbusto apaixonado. Na queda, ela aceita e consuma aquele amor, estatelando-se ambos numa cama de folhas secas, felizes pelas gerações de larvas e coleópteros que lhes irão sobreviver.

20110505

Beng Mealea, Cambodja Passivo como era, o sujeito reconheceu o trote; o peito ultrapassava a passada. Conhecendo-se como conhecia, sabia que a cabeça sempre fora de ir mais à frente. À simetria de eixo vertical, que lhe opunha dois braços e duas pernas, sobrepunha-se um corte transversal que, pelo pescoço, tornava cabeça e corpo num casal amuado. É certo que corria por gosto, mas a milha longa à sua frente era incansável. Elaborou um plano. O metrónomo puxava-o pelas orelhas enquanto a vista dava passadas de sete léguas sobre referências fortes: a máquina dos sorvetes de leite, a anémona, a curva fechada, o bosque duvidoso, o fantasma do aquário, o molhe, a pérgola, o cheiro a pizza, a faixa baixa e o farol. Chegar, era meio caminho andado. Depois, na altura de voltar para trás e cumprir a volta, as coisas mudavam de figura e davam-lhe as costas. Se, por um lado, o fim estava mais próximo, por outro, mais retorcido, os marcos de passagem, antes vencidos, voltavam para o atormentar; lembravam a ansiedade do início, de corpo frio e respiração ofegante. Nessa ponta final, quando tudo endurece, apanhava ainda com o passado pela frente. E com o vento; chega a altura de falar do vento, esse de duas caras. O que pelas costas lhe dava palmadinhas e sopros nos tornozelos, e que pela frente, não contente em desfiar as redes penduradas, lhe fazia parede, bufando gravilha para os olhos e escapes livres aos ouvidos. O sujeito cambaleava, de tanto fumar coisas. Um cavalo escoiceava-lhe a virilha. É nesse preciso momento que se opera o extraordinário milagre sobre o corpo corredor. O casal abnegado reconcilia-se, respira fundo e termina fresco como uma alface. Estas, são coisas que não se podem explicar a quem não acredita.

20110429

Bayon, Angkor, Cambodja Eles dizem que o tempo vai mudar e eles raramente se enganam. O tempo muda, inexoravelmente, e nós, que guardamos um resto de despeito para estas ocasiões, soltamos uns remoques que se colocam entre a fina ironia e a asneira da grossa. Mas eles é que a sabem toda. Foram eles que fizeram este lindo serviço de colocar as coisas no estado em que elas estão. O que nos vale, são as nossas vitórias e as nossas alegrias, quando eles são massacrados. O que lhes vale, a eles, é serem vagos, pois logo que ganham forma e lhes conhecemos o conteúdo (ou a ausência de dele), tornam-se um de nós. Tornam-se contra eles. Somos assim como a rã de Kyoto e a rã de Osaka que, tentando ver mais além, se apoiam uma na outra, em pé nas patas traseiras, ficando com os olhos voltados para trás, a julgar que o futuro é algo maçadoramente igual ao caminho já percorrido.