20121007

Cabanas de Tavira, Portugal

Como ria, a areia tinha a língua de fora. No braço de água salgada as boias poisavam como cerejas doces. Sentia-se, no crescendo ténue da enchente, um vazar de terra firme. As embarcações, de variadíssimos portes, igualavam-se no topete com que olhavam a entrada da barra. Os primeiros homens gostavam de pensar que eram ainda os escolhidos do mar, apesar das pernas que arqueavam ao peso da voz rouca e de nunca se terem aventurado para além da segunda margem. A corrente viva, indiferente a quilhas e patilhões, sarava rápido aos cortes de hélice e morria lenta ao toque humano. Aqui ninguém faz pontes, por respeito ao mar ou indiferença à outra terra, que é curta. De qualquer modo as grandes águas entram e saem, fiscalizando o território com cada vez maior descrença.

20121006


Cercal do Alentejo, Portugal

É de manhã. El-rei caminha, em passo quedo, na direção do torreão mais próximo. Tinha acordado com vontade de arejar a pluma. Seguia só, acompanhado pelo Oficial de Toponímia, o Conselheiro de Frivolidades, três aias disfarçadas de valetes e um moço de estrebaria com gadanha até aos dentes.
Do alto do torreão avistava-se todo o reino, mas era mais certo ainda que de todo o reino se via claramente o torreão empinado. As visitas miradoiras do rei raramente passavam despercebidas à plebe, que mergulhava nas suas tocas e carvalhos ocos ao primeiro vislumbre da pluma real.
- Nunca há vivalma, em terra conquistada. - desabafou o rei, pesaroso - É, no entanto, um belo ver.
(“Belver”, tomou nota o Oficial de Toponímia na Real Agenda, “Toda a zona da cordilheira sul até ao bosque das acácias.”)
- Olha acolá, aquela picoteira do monte tão graciosa. E mais além, onde ajoelhamos a S. José, nas matas, depois de termos tratado a peito os valhascos que açoitavam as mouriscas; bem que lhes chegamos a póvoa às meadas. - açorriou o rei já mais bem disposto. - Mais ao sul foi onde cruzamos a água travessa, que nos custou um urro de alazão; lembro-me do Barba Torta, de chança em punho como um terrujo. “Vai a monte”, disse-lhe eu, “Vai a monte, alpalhão”. E tais foram os foros de arrão do vilão que o pusemos em debanda, até ser só um cabeço a sair da vide. - gracejou.
O Oficial de Toponímia não tinha mãos a medir. Folheava a Real Agenda como um eunuco a palma, em dia quente: Picoteira do Monte, Graciosa, S. José das Matas, Valhascos, Mouriscas,...
- No entanto - arrefeceu el-rei - daqui, já nada me chama. Para onde quer que me vire, os meus rodeios são-me sempre banais, as novas conquistas sabem a visitas de tias velhas, tudo me é tão repetido como o ser eu mesmo.
Num misto de enfado e fanfarronice, el-rei O Cognominador, empunhou o seu montante afiado e, Zás!, armou-se cavaleiro. Por falta de cuidado, trespassou-se do trapézio ao oblíquo, o que não deixa de ser uma proeza digna de nota. (“Passamontantes”, apressou-se a escrever o Oficial de Toponímia.)

20120913

Barcelona, Espanha

Preparo-me para tomar um castelo como o de Wamba. “Às urtigas!”, digo eu, “Às urtigas!”, repito.

Estou engalanado como uma comunhão solene e tenho para mim coisas que não partilho com ninguém.
Na minha frente restam apenas três: um velho negro careca, um branco vadio e desgrenhado e uma morena diminuta. Tudo isto me emociona e vou escrevendo à medida que me lembro.
A luta é-me desigual. Tenho pena, mas é fraca. A violência com que me irão golpear será indescritível.

20120829

Barcelona, Espanha

Já não sei se o leio ou se é ele, o livro, que me lê a mim. Tenho a nítida sensação que me observa. Ou me engano muito ou acabei de ouvir um suspiro sair da fenda escura onde as páginas mergulham em arco. Acho que é ali que tudo se passa, os relatórios, as trocas de informação, os registos do meu quotidiano. Ali, na intimidade da lombada.
Não estou a perder o juízo, sei-o com a certeza de quem respira saúde sem inspirar cuidados. No início estranhava as coincidências da narrativa. As divagações em que me deixava cair, via-as impressas em letra de forma. À conclusão brilhante a que eu esforçadamente chegava, chegava o parágrafo primeiro. Que desconforto virar a página e ter de entrar naquela viela desconhecida com a vizinhança a cochichar entrelinhas. Em tudo o que lia, naquelas páginas espelhadas, revia-me até às entranhas. Quem me conhecia aquele lado? Quem me escrevia assim?
Suspeito que me acerquei de uma coisa importante; uma conspiração indizível que me vai levar até ao fim: são os livros que nos leem. Eles não abrem os limites da imaginação, como se conta, saqueiam-na sem cerimónias. Que ideia extraordinariamente maquiavélica essa de aguardar pelo momento em que nos entregamos languidamente à leitura, de cabeça aberta, para, lançando uns preâmbulos supostamente inocentes, fazerem-nos cair numa emboscada de onde saímos vazios de tudo o que era intimamente nosso. E o mais sinistro é que fechamos o livro, onde nos lemos, glorificando o ladrão do autor pela sua magnífica capacidade de saber o que nos vai na alma.

20120728

Barcelona, Espanha

Uma menina não rebenta as águas, como um petardo sem maneiras; sussurra um riacho melodioso. E quando se é assim tão surpreendente, desprezam-se os momentos óbvios e chega-se naquele que ninguém conta e que é tão inesperado por todos.
Sendo imensa, no ínfimo detalhe, não se deixa marcar por ferros ou sugar pela voracidade do mecânico, mas desliza em gratidão, sulcando apenas e só uns quantos punhados de corações.
Quantos não falantes, são escutados assim? Que outros olhos fechados conseguem ter a alma tão espelhada? Sem pena dobrou o choro, sem mácula dobrará o riso. Estranho poder, o da fragilidade.
Foi quase no fim que nasceu, lá longe, como num chuveiro, deixando-nos a gotejar. Agora é preciso contar-lhe as histórias para que, quando abrir os olhos, nos reconheça como iguais.

20120721

Abu Simbel, Egipto

Puxo cada onda que se desfaz como mais uma coberta para cima do corpo. Descoberto, pela indiferença com que se é queimado vivo, assim o gelo me quebra.
O areal é imenso, no seu isolamento, e a pele esboroa-se em poeiras sílicas, cíclicas como a nortada. Mesmo os que voam sobre a podridão meditam aqui, alinhando as penas ao molhe.
Ao fundo, a névoa forma cargueiros sinuosos e faz parecer fácil uma vida sonhada no mar.

20120710

Preah Khan, Cambodja

Ela agarrou-me o braço com a violência de quem se assusta ao ver um porco morto, no mato. Partilhei a emoção, deixando a carne ceder às suas unhas finas.
Tínhamos acabado de atravessar a estrada deserta que cruza o bosque, e já aí algo de curioso tinha acontecido. Um daqueles instantes do diabo, como se costuma dizer. Ao sair da frescura da sombra para o bafo quente do alcatrão, uma espiga de feno agarrou-se-me à meia, picando a canela e obrigando-me a uma acrobática sapatada irlandesa. Esta esquiva, tirou-me da trajetória de uma vespa irritada, indo o seu ferrão suicida cravar-se no sobrolho da minha companheira, que rodopiou 3 vezes, pedindo água. O destemido insecto não aguentou tal carrossel, rasgando-se-lhe o ventre e indo morrer longe.
Tudo isto se passou antes de sabermos que estava um porco morto no mato, coisa bem mais curiosa do que esta.
Soltando o braço, deixei-a a olhar em volta, não fosse um parente vivo aparecer a reclamar o cadáver, e fui-me certificar de duas coisas: se era mesmo um porco e, nesse caso, se estaria efetivamente morto. Ainda coloquei a hipótese de ser um corpo humano, mas nenhum grau de decomposição o tornaria assim tão porco. Era um destes belos animais, sem dúvida, e até ligeiramente malhado, com ar de quem às bolotas retribui com um suculento pernil. Parecia sorrir, expondo uma fileira impecável de dentes afiados, mas na realidade era o trabalho de limpeza de um enxame de varejas sortudas.
Documentei cada tufo de urze que lhe surgia entre pernas e cada cardo que lhe adornava o ventre. A causa de morte era-me tão desconhecida como a causa que o teria feito viver uma vida de engorda e abate. Como estava deitado de lado tinha duas pernas hirtas no ar, a apontar o trilho. Toquei-lhe ao de leve na pata traseira e, trufas!, esta caiu, enterrando-se na folhagem.
De imediato o porco tossiu, cuspindo moscas, e levantou-se com o mesmo sorriso prazenteiro. Educadamente fez uma vénia - o que não é nada fácil para quem não tem uma das patas traseiras - e agradeceu efusivamente o facto de o ter livrado de uma das quatro razões que o faziam ser um animal perseguido.
- Agora vou indo. - acrescentou - Ainda tenho de me livrar das outras três; só depois poderei andar descansado.
Deu meia volta, fazendo rodopiar a argola do nariz, e saiu a saltitar pelo arvoredo.


Como hei-de explicar que não se entra, assim, no Cercal?
Que é um processo de namoro, misto de engodo e cheiro bom?
Quem se achega, vem a evitar a esteva peganhenta e os seus olhos já viram montado de sobra (serpentear por estas árvores despidas da cintura para baixo, deixa marcas tão fortes que bem se pode estar uma década sem conseguir fazê-lo de novo).
É então que nos lançam as sebes. A buganvília e o jasminóide iscam-nos pelas narinas e sentimo-nos num caminho a sério. Há uma certa ordem a alinhar o desgovernado.
Ficamos preparados para o que vem a seguir. O casebre já não assusta e os terraços de rafeiros apresentam-se bem presos. Confiantes, aproximamo-nos do arbusto aparado com a curiosidade de um pardal; arrancamos uma folhita, para cheirar, e seguimos por um estradão de levadas.
Quando o casario afunila e se inclina para nos ver melhor, sente-se um certo desconforto, mas os azuis, os vermelhos e os amarelos que bordejam os brancos, distraem e impedem que se veja o tapete de alcatrão por onde já caminhamos. E depois há sempre o sorriso tranquilizante de uma velhinha, ignorando nós que aquelas agulhas que tricotam, também mexem as poções que borbulham no quarto dos fundos.
Quando se dá por ela, já estamos na rotunda; bem no meio do Cercal.
Aí só nos resta baixar a cabeça e circular pela direita, resmungando uns monossílabos guturais aos outros que, de lá, também nunca mais saíram.

20120501

Madeira, Portugal

Cabral gerou Vasco, Bártolo e Zulmira. Vasco degenerou e coube a Bártolo gerar um outro Vasco, seguido de Afttas e Silva. Zulmira gerou uma linhagem de Ephisodeos iguais a si mesma e tornou-se banal. Afttas e Silva geraram um negócio sujo do qual surgiu Jorge, o ubíquo. O novo Vasco também se perdeu. Cada um dos Ephisodeos gerou um sucessor aos quais chamaram, respectivamente, Assante, Efigénia, Amália, Bento, Barbosa e Malaquias (que, curiosamente, mudou o nome para Adriano). Assante tornou-se o fundador da sua própria casa e gerou um movimento. Efigénia gerou Tomilho e Calviva, que serão mencionados mais adiante. Amália não gerou. Bento gerou demasiado. O que Barbosa fez melhor foi ter gerado Cristiano, Crispim e Crisântemo, pois tudo o resto foi esquecido. Adriano, antes conhecido por Malaquias, gerou Fortes, que teria sido grande, não tivesse saído tão baixo. Jorge, esquecido por muitos, voltou e gerou Jorge Santos, que aderiu ao movimento de Assante. Tomilho gerou Santana, com Somália e, posteriormente, Serafim, com Eulália. Calviva tomou hábito monástico e foi gerando bastardos pela freguesia. De Fortes apenas se lhe imputa a responsabilidade da perda dos registos de Cristiano, Crispim e Crisântemo, dos quais, conta-se, invejava a altivez com que usavam cartola. Fortes partiu cedo, sem gerar. Jorge Santos descobriu, tarde demais, que o movimento de Assante era contra a geração e tornou-se casto. Santana gerou Serafim, não o seu meio-irmão, filho de Eulália, mas um outro, em tudo igual a ele. Gerou também Bosco. Serafim, o primeiro, tentou gerar mas nunca soube como. Serafim segundo, solidário, emasculou-se, decepando uma nádega. Bosco viveu até aos 122 anos, teve seis mulheres e um cartório fulgurante.

20120426

Marraquexe, Marrocos

Basta fé, e a pele sobre os ossos, ou em pele e osso, só resta a fé?
Uma janela de topo pontiagudo, que lembra balas e supositórios, aponta o céu. E as grades maravilhosamente trabalhadas que a ornamentam, quem prendem? Refugiem-se lá, pois quanto mais os rebentamentos surdos estilhaçam os vitrais, mais a luz dança no interior.
Cá fora, uns deixam os sapatos, outros a pele de lobo.
Lá dentro está tudo escrito.

20120425

Barcelona, Espanha

Um gato reflete-se numa poça. A poça estremece, consciente da sua própria profundidade. O gato vê-se a tremer e toma consciência de que é apenas uma representação, um ato de uma boa peça. Toda a cena está a ser vista por um cego, que sentiu o cheiro a urina.
Uma parede áspera trespassa dolorosamente o gato, explicando-lhe que faz aquilo por piedade. O gato agradece, em silêncio, ser poupado a ver a sua decomposição.
A poça é agora um pórtico trabalhado e o gato uma mancha de pelo no chão. Caravanas de piedosos cruzam diariamente aquele tapete gasto, vindos do deserto. Mas o calor é tanto que o pórtico escorre, seca e desaparece, deixando todos muito confusos. Cegos pelo sol, olham o chão e vêm-no em pé, com um gato a urinar. A poça morna onde estão deitados, engole-os, ligeira.
O cego, satisfeito por ter assistido a tal momento, lambe demoradamente uma das patas, depois a outra, e vira costas ao espelho, ronronando de superioridade.

20120402

Barcelona, Espanha Passou a verde e a madura. O apetite surgiu com o provar de outras palavras que, num turbilhão, lhe subiram à cabeça caída. Tinha começado como um formigueirozinho de abstinência - estava limpo há vários dias - e logo cresceu para uma castanhola de dentadas, daquelas que nem mastigam e castigam, nos anos delicados que se aproximam, um estômago surpreendido. Esquecera por completo aquele branco agudo que acamava arabescos em filas indianas. Amoroso, lambeu-lhe os cantos, um a um, com um afago. Com doçura, massajou-lhe a crescente sucessão de lombas, como se esperasse um filho. Então, fingindo adormecer, deixou o livro deslizar pelo colo abaixo, contornar com volúpia a curva roliça do sofá, aninhar-se sob a camilha. Livre do peso da literatura, começou a escrever, ele próprio, na manta de carneira que lhe cobria as pernas esticadas, o que de mais profundo lhe passava pela cabeça. As escritas mergulhavam no pêlo espesso, rasgando os redemoinhos felpudos em segredo, para logo voltarem à tona num resfolegar de Hás! e Hús!, deixando ideias soltas espumarem-se ao acaso. A pouco e pouco as pernas foram-se cobrindo de um bando de coisas sem nexo, que por vezes - céus! - transbordavam pelos estofos fora indo bater com força nas fronhas bordadas. Felizmente, algo lá no alto fez rebentar um vaso de tinta negra, espalhando um manto de quietude e recato sobre todas aquelas vergonhas. A maravilhosa mancha do inesperado, pacificou, enfim, as populações de gatafunhos que escorriam de algo seco, duramente torcido.

20120119

Barcelona, Espanha - Não aguento mais! Vou para onde me esperam. Acerto as minhas contas e vou. Estou saturada, farta desta vida. Não estou aqui a fazer nada. Só quero deixar as contas pagas. Amanhã ainda estou viva, é a despedida. Isto já anda há muitos anos na minha cabeça. Agora tudo acabou, para mim. Só quero paz, mais nada. Amanhã posso estar melhor, não sei. Doente, doente, não estou, morreu-se-me é a alma. Até já comprei o remédio. A minha cabeça não está cá, ou melhor, só está para me levar a desaparecer. Estou assim há muito. Até saí de casa para ver se a ideia me passa. “Vai para trás, vai para casa.”, diz-me a minha cabeça, “Faz aquilo que tu queres e vai desta para melhor.”. Não tenho medo de nada. Não quero ver ninguém, falar com ninguém. Não vale a pena. Mas também não quero ir para casa, se não, meto aquilo à boca. Pensei que isto ia melhorar, mas não. Os que andam à minha volta só querem o que é meu; e o que é meu é a minha vida. Cada um tem é que viver a sua, o melhor que puder, sem... Estou?... Estou?...
S21, Phnom Penh, Cambodja Entro desperto, na cidade dormitório; uma de muitas, daquele país encravado entre tantos outros. Enquanto caminho pela rua sonâmbula, esfrego os olhos às inúmeras artérias que a cortam aos pedaços. O passeio que piso, já aguentou tantos mil passos e intenções de caminho, que se tornou, ele próprio, numa espécie de metrópole. O emaranhado de possibilidades esgota o mapa que se dobra na minha cabeça. Refugio-me numa casa - abrindo um portão, cruzando um caminho, empurrando sorrateiramente a porta com um dedo esticado - em busca de unidade; mas a casa tem degraus, carrocéis de degraus a ondular entre os pisos. E quadros. As paredes, já delas tantas, mascaram-se de outros lados, surreais, e fingem ter janelas impressionantes. Não consigo ver uma só coisa. Tudo se desdobra em demasiadas hipóteses, para mal das minhas indecisões. É então que, já cansado, descubro uma única pessoa, sentada à mesa; um indivíduo com, parece-me distinguir, uma personalidade vincada. Aliviado, peço-lhe uma opinião concreta, mas quando ele começa a falar, não consigo ouvir nada, tal é a algazarra da gente que, dele, enche o enorme salão.

20111230

Barcelona, Espanha Não me mexo, e tudo à minha volta pára. Depois avanço, e a engrenagem ferrugenta desmultiplica-se em oportunidades. As mais próximas, passam a correr e, ainda que tivesse as mãos a medir, são demasiado efémeras para me despertarem pele de galinha ou formigueiro no interior do lábio. À medida que me salta a vista para além do óbvio, reparo que as coisas de além abrandam e se tornam mais apetecíveis. E lá ao longe - meu Deus! - que extraordinárias possibilidades troçam do meu curto alcance. Quando me chego a elas, perco o interesse, esqueço-me ao que vim e reparo que lá ao fundo, passadas as camadas de cenários mortiços, há uma nuvem a tomar a forma do que me interessa.

20111204

Barcelona, Espanha Se juntarmos um molho de correligionários cheios de doença numa pandilha deserta, podemos enfeitar o final de um sumptuoso repasto com as suas fezes. A toda a volta achegam-se manjedouras com bordões de Argan encastoados a tomilho fresco. De tempos a tempos, cada narina inspira uma boneca de sementes, desatando num chorrilho que ficaria muito bem ao pescoço de qualquer mulher da terra. Sobre a mesa escorre, da abóbada, um lustre. Todos os comendadores e anestesistas lhe prestam reverência e aguardam uma palavra, uma síncope. Tudo termina bem regado, com viçosas indiscrições a entrelaçarem-se nas pesadas sanefas de brocado. Quando as enceradoras dançam a última circunvalação nos salões vazios, já os vigilantes sonham com o fausto das cavalgadas tumbas.
Marraquexe, Marrocos Os pescadores aguardam, à entrada dos derbs, o passar o cardume: esperam os soltos. Mal os sentem, lançam-se na corrente e tornam-se engodo. Rasgam um sorriso em mil pedacinhos brancos e atiram uma mão cheia, no caminho da vítima. Esta, se se recusa a avançar, tem já um braço à volta dos ombros, a cortar-lhe a retaguarda. Um molho de menta fresca é logo enfiado no nariz, que já ferve. Tudo parece bem, agora. A presa dócil segue o captor, em esperançosas flutuações pelos canais. O sol forte dá lugar ao breu mofo de uma entrada baixa. Os olhos demoram a responder. É o suficiente para o incauto cair no tanque. A cal viva deixa-o meio morto e todo careca. Agora é fácil, com alavancas de cedro, mudá-lo para a bacia de guano, onde se vai tornar rijo. Uns dias depois, sob placas de açafrão e canela, o sujeito estará macio e perfumado, pronto a ocupar o seu lugar em frente a uma lareira. Há quem não note diferença, nesta nova forma de vida. Há até quem se sinta mais feliz. É que é bem melhor sentir os corpos nus que se lhes enrolam, ao serão, do que as solas entranhadas de gravilha que os amansaram a vida toda.
Marraquexe, Marrocos Os lampadários almorávidas tomam a forma do relevo decorativo sob o qual pendem, ou é o inverso? Os mestres de artes que se empoleiram nos selins ferrugentos, juntamente com quartos de tinta, sifões e abraçadeiras, aguardam uma empreitada, ou são os fungos bolorentos, as meadas de cabelo e sabão negro e os bules silenciosos que rezam pela chegada dos primeiros? Os dorsos escuros que cortam as águas barrentas, no lago do pavilhão, cavalgam pesadelos de fundo viscoso, ou são esses gumes diligentes que mantêm as águas lisas? As muralhas da cidade desagregam-se pacientemente, ou são sinais apaixonados de quem anseia o abraço do andaime e o afago da colher de pedreiro? As flautas encantam mesmo as serpentes, ou são apenas cadáveres hirtos de velhos répteis, que intrigam os seus congéneres vivos ao exalar sopros humanos? As grandes laranjas que vergam os ramos, escarram melaço ás azeitonas pretas, ou são as oliveiras, raposas escorregadias, que assim se resguardam da cobiça pública? O que é certo, é que um mapa nunca se volta a fechar pelas mesmas dobras.
Marraquexe, Marrocos A cotovia voava alto sobre os mortos, - carroças e carroças de laranjas deixavam-no bem claro - semicerrando os olhos ás fumarolas de incenso. De quando em quando, admoestava os crentes com uma voz roufenha, mas eram poucos os tapetes que sacudiam os ombros. Havia de tudo, na praça: homens rentes ao chão, a soprar cobras e lagartos, outros, enormes, de cabeças afiadas e uns espantalhos coloridos e farfalhudos, que agitavam quinquilharias para afugentar a sede. Quem por ali passava, esquecia as peias e dava cambalhotas para trás, como um macaco. Os mais cuidadosos, achavam por bem assistir a tudo de longe, mas o toque do batuque esticava a pele e eriçava de tal maneira as virilhas, que o engodo esfarelado desaparecia num instante. Na cidade vermelha de sangue nas faces, faziam-se amigos. Na cidade vermelha de sangue nas fezes, compravam-se inimigos. Uma vez, uma pomba enfunada teve um lençol de músicos escuros a tocar só para ela; uma outra, uns homens de vestido comprido, como mulheres, abandonaram as mulheres soturnas, como homens, e foram-se lavar, nas extremidades. Se, depois disto, referirmos ainda que a pele perde o pelo em cal viva e endurece com excrementos, vão achar que nunca saímos do sítio; que andamos ás voltas.

20111112

Ta Prohm, Cambodja Os risinhos soluçantes do engenheiro eram insuportáveis. Alguém tinha de o assustar. Metê-lo a sete golos debaixo de água ou deixá-lo sem respirar, por exemplo (conheço umas almofadas de penas que iam gostar disso). Ao invés, tomamos um ponto de vista invertido. Daqui, o sorriso amarelo do bicho torna-se num esgar amarelento de pôr os cabelos em pé. Parece funcionar; uma expressão violácea-paixão toma-lhe conta da face, agora tranquila. Vamos deixá-lo assim pendurado, por uns tempos, e usufruir de alguma paz de espírito. Ao terceiro dia, tinha desaparecido, ou coisa do género. Em seu lugar, uma buganvília colossal trepava pelo terraço alto, espraiando-se nos telhados. Era, em tudo, a cara dele: o corpo atarracado e fibroso, os membros desarticulados de unhas reviradas, os sulcos que antecediam as proeminências nodosas, até mesmo uns olhinhos de madeira, aqui e ali, semicerrados ao azedo da seiva. Zombava de nós, o vegetal. E, se dúvidas ficavam, era ver o desplante com que sacudia os ramos e entupia as caleiras com folhas velhas. Sentia-se alguma emulsão betuminosa a crescer nas paredes de saibro, antevendo a chegada das primeiras chuvas; os narizes ganhavam fungos. Foi aí que se deu a volta ao texto. Regressando ao segundo parágrafo, num movimento engenhoso, tomamos o ponto de vista inicial. A trepadeira, aflita, viu-se de pernas para o ar. Os ramos virulentos, cresceram contra o chão e estilhaçaram-se na tijoleira. Soltas da terra, as raízes esbracejaram em vão, acabando por sufocar ao ar, desgrenhadas. Nos tubos de queda, as águas seguiram o seu curso, aliviadas.

20111022

Barcelona, Espanha A fulana tinha traços de boneco; meia desengonçada, meia desengraçada. Ensinava animação e, embora não tivesse umas unhas dignas de nota, tinha dentes. Olá se os tinha; e que dentes. Uns dentes que merecem um parágrafo. Imaginem uma paliçada de marfim capaz de travar os elefantes de Aníbal; tentem abarcar o mais imponente dos glaciares árticos e, ainda assim, serão modestos nos vossos esforços. Os que a escutavam, entreolhavam-se, baralhados, pois nenhuma palavra escapulia daquela masmorra. Esticavam as cervicais, faziam concha com as mãos nas orelhas, mas tudo em vão. Rien de rien, como se diz lá fora. Foi então que algo sucedeu. E o facto de tal coisa ter sucedido, só prova que os momentos de expectativa estão destinados a anteceder grandes surpresas. A generosa fileira de dentes brancos, assim sem mais nem porquê, começou a dançar uma sardana. Os incisivos deram o mote, apontando um pezinho saltitante. Os molares, entusiasmados, acotovelaram os caninos para se fechar o círculo. Em três tempos, todos davam as mãos, numa roda festiva. Até os mais sisos. A boca da fulana parecia uma praceta. Quem lhe vinha, cabisbaixo, pelas escuras ruelas do esófago, ficava deslumbrado com a luz boémia daquele momento e juntava-se à animação.

20110913

Jerash, Jordânia - Vint'cinco-mil-oitocentos-e-trinta-e-quaaatro - soltou o tenor, inchando um peitilho folhado a cautelas. O público, indiferente, passou-lhe ao largo. Lentamente, levantou-se da pedra onde estava acabrunhado e saiu de cena, arrastando uma pose gasta. Discretamente atento, do outro lado da rua e da montra, estava um senhor que vendia saúde, apesar de ter muito má cara. Na farmácia onde trabalhava, gostava de medir a tensão, sentado num banco alto. Gostava, especialmente, do apertar do braço, de ver a agonia à tona dos olhos e do tom magnânimo com que comentava o vaticínio do talão. Já um pouco desatento, na casa ao lado, trabalhava um velho mosqueteiro, encostado das tarefas palacianas. Era caixa. Caixa num banco; e sentia-se abandonado. O segurança, vendo a embalagem suspeita, chamou uns especialistas, devidamente protegidos, que a desmontaram, víscera a víscera, sem que, no entanto, fosse detectado qualquer elemento perigoso. Posteriormente foi incinerada e não se falou mais nisso. O banco abriu uma vaga. A mãe ralhou ao filho "Senta-te direito, que estás a dar cabo das costas".