Câmara de Lobos, Madeira, Portugal“Nada como uma seca abundante”, pensou.
olhai os cílios do canto
Ponta do Sol, Madeira, Portugal
Barcelona, Espanha
Balcões, Madeira, Portugal
Cabanas de Tavira, Portugal
Barcelona, Espanha
Barcelona, Espanha
Barcelona, Espanha
Abu Simbel, Egipto
Preah Khan, Cambodja
Madeira, Portugal
Marraquexe, Marrocos
Barcelona, Espanha
Barcelona, Espanha
Passou a verde e a madura. O apetite surgiu com o provar de outras palavras que, num turbilhão, lhe subiram à cabeça caída. Tinha começado como um formigueirozinho de abstinência - estava limpo há vários dias - e logo cresceu para uma castanhola de dentadas, daquelas que nem mastigam e castigam, nos anos delicados que se aproximam, um estômago surpreendido.
Esquecera por completo aquele branco agudo que acamava arabescos em filas indianas. Amoroso, lambeu-lhe os cantos, um a um, com um afago. Com doçura, massajou-lhe a crescente sucessão de lombas, como se esperasse um filho.
Então, fingindo adormecer, deixou o livro deslizar pelo colo abaixo, contornar com volúpia a curva roliça do sofá, aninhar-se sob a camilha. Livre do peso da literatura, começou a escrever, ele próprio, na manta de carneira que lhe cobria as pernas esticadas, o que de mais profundo lhe passava pela cabeça. As escritas mergulhavam no pêlo espesso, rasgando os redemoinhos felpudos em segredo, para logo voltarem à tona num resfolegar de Hás! e Hús!, deixando ideias soltas espumarem-se ao acaso.
A pouco e pouco as pernas foram-se cobrindo de um bando de coisas sem nexo, que por vezes - céus! - transbordavam pelos estofos fora indo bater com força nas fronhas bordadas.
Felizmente, algo lá no alto fez rebentar um vaso de tinta negra, espalhando um manto de quietude e recato sobre todas aquelas vergonhas. A maravilhosa mancha do inesperado, pacificou, enfim, as populações de gatafunhos que escorriam de algo seco, duramente torcido.
Barcelona, Espanha
- Não aguento mais! Vou para onde me esperam. Acerto as minhas contas e vou. Estou saturada, farta desta vida. Não estou aqui a fazer nada. Só quero deixar as contas pagas. Amanhã ainda estou viva, é a despedida. Isto já anda há muitos anos na minha cabeça. Agora tudo acabou, para mim. Só quero paz, mais nada. Amanhã posso estar melhor, não sei. Doente, doente, não estou, morreu-se-me é a alma. Até já comprei o remédio. A minha cabeça não está cá, ou melhor, só está para me levar a desaparecer. Estou assim há muito. Até saí de casa para ver se a ideia me passa. “Vai para trás, vai para casa.”, diz-me a minha cabeça, “Faz aquilo que tu queres e vai desta para melhor.”. Não tenho medo de nada. Não quero ver ninguém, falar com ninguém. Não vale a pena. Mas também não quero ir para casa, se não, meto aquilo à boca. Pensei que isto ia melhorar, mas não. Os que andam à minha volta só querem o que é meu; e o que é meu é a minha vida. Cada um tem é que viver a sua, o melhor que puder, sem... Estou?... Estou?...
S21, Phnom Penh, Cambodja
Entro desperto, na cidade dormitório; uma de muitas, daquele país encravado entre tantos outros. Enquanto caminho pela rua sonâmbula, esfrego os olhos às inúmeras artérias que a cortam aos pedaços. O passeio que piso, já aguentou tantos mil passos e intenções de caminho, que se tornou, ele próprio, numa espécie de metrópole.
O emaranhado de possibilidades esgota o mapa que se dobra na minha cabeça. Refugio-me numa casa - abrindo um portão, cruzando um caminho, empurrando sorrateiramente a porta com um dedo esticado - em busca de unidade; mas a casa tem degraus, carrocéis de degraus a ondular entre os pisos. E quadros. As paredes, já delas tantas, mascaram-se de outros lados, surreais, e fingem ter janelas impressionantes.
Não consigo ver uma só coisa. Tudo se desdobra em demasiadas hipóteses, para mal das minhas indecisões. É então que, já cansado, descubro uma única pessoa, sentada à mesa; um indivíduo com, parece-me distinguir, uma personalidade vincada.
Aliviado, peço-lhe uma opinião concreta, mas quando ele começa a falar, não consigo ouvir nada, tal é a algazarra da gente que, dele, enche o enorme salão.
Barcelona, Espanha
Não me mexo, e tudo à minha volta pára. Depois avanço, e a engrenagem ferrugenta desmultiplica-se em oportunidades. As mais próximas, passam a correr e, ainda que tivesse as mãos a medir, são demasiado efémeras para me despertarem pele de galinha ou formigueiro no interior do lábio. À medida que me salta a vista para além do óbvio, reparo que as coisas de além abrandam e se tornam mais apetecíveis. E lá ao longe - meu Deus! - que extraordinárias possibilidades troçam do meu curto alcance.
Quando me chego a elas, perco o interesse, esqueço-me ao que vim e reparo que lá ao fundo, passadas as camadas de cenários mortiços, há uma nuvem a tomar a forma do que me interessa.
Barcelona, Espanha
Se juntarmos um molho de correligionários cheios de doença numa pandilha deserta, podemos enfeitar o final de um sumptuoso repasto com as suas fezes. A toda a volta achegam-se manjedouras com bordões de Argan encastoados a tomilho fresco. De tempos a tempos, cada narina inspira uma boneca de sementes, desatando num chorrilho que ficaria muito bem ao pescoço de qualquer mulher da terra.
Sobre a mesa escorre, da abóbada, um lustre. Todos os comendadores e anestesistas lhe prestam reverência e aguardam uma palavra, uma síncope. Tudo termina bem regado, com viçosas indiscrições a entrelaçarem-se nas pesadas sanefas de brocado.
Quando as enceradoras dançam a última circunvalação nos salões vazios, já os vigilantes sonham com o fausto das cavalgadas tumbas.
Marraquexe, Marrocos
Os pescadores aguardam, à entrada dos derbs, o passar o cardume: esperam os soltos. Mal os sentem, lançam-se na corrente e tornam-se engodo. Rasgam um sorriso em mil pedacinhos brancos e atiram uma mão cheia, no caminho da vítima. Esta, se se recusa a avançar, tem já um braço à volta dos ombros, a cortar-lhe a retaguarda. Um molho de menta fresca é logo enfiado no nariz, que já ferve.
Tudo parece bem, agora. A presa dócil segue o captor, em esperançosas flutuações pelos canais. O sol forte dá lugar ao breu mofo de uma entrada baixa. Os olhos demoram a responder. É o suficiente para o incauto cair no tanque. A cal viva deixa-o meio morto e todo careca. Agora é fácil, com alavancas de cedro, mudá-lo para a bacia de guano, onde se vai tornar rijo. Uns dias depois, sob placas de açafrão e canela, o sujeito estará macio e perfumado, pronto a ocupar o seu lugar em frente a uma lareira.
Há quem não note diferença, nesta nova forma de vida. Há até quem se sinta mais feliz. É que é bem melhor sentir os corpos nus que se lhes enrolam, ao serão, do que as solas entranhadas de gravilha que os amansaram a vida toda.