20130107

Ta Prohm, Cambodja

- Trouxe-te um boi morto.
- Agora não posso arcar com isso. Estou a implantar uma horta, ao invés.
- Enterra-o até ao cachaço, então. Os cascos darão belas trepadeiras. Vai cobrir isto tudo.
- Hm, dava-me jeito ocultar esta ideia revolucionária. Vá, deixa-o aí bem preso que eu tenho umas vitelas a florir em breve.

20130104

Funchal, Madeira, Portugal

No meio da ponte, debruçado no peitoril, um tolo rilhava um talo de aipo. Os sucos fortes do legume faziam-no salivar em fio sobre as águas. Ele gostava de ir ali pescar.
O aroma forte do aipo começou a fazer efeito. Um pequeno achigã aproximou-se da queda de baba e rapidamente iniciou a subida. Em cada torção da espinha, em cada golpe de barbatana, escamava um pouco mais a pele luzidia e ficava mais perto da fonte. Num último impulso, esgotado e de olhos em punho, içou-se para a poça calma que se tinha formado entre os dentes e o lábio inferior descaído. Deu duas voltas à enseada, para descontrair, e começou a ratar os restos de aipo entranhados nas gengivas, já a formar barreira. Ali perto, uma angula entrincheirada numa cavidade sisuda esperava o depósito do que andava suspenso. Nas zonas mais batidas pelo catarro as percebes agarravam-se às aftas, debicando a carne viva. A língua passava em vagas por um céu da boca forrado a limos.
Satisfeito, o tolo fechou a boca, guardou o resto do talo no bolso das esferográficas e instruiu um palito na tarefa de recolher os despojos do dia. Aquele era mesmo o melhor sítio, bem no meio da ponte, onde as águas são mais profundas e o peixe miúdo mais vivo.

20121231

Leixões, Matosinhos, Portugal

Anúncio:
Alargamos entradas com tal mestria que até o vizinho de trás das portadas vai ranger “Que boas entradas!”. Cortamos todos os tipos de mal pela raiz, replantamos a raiz do mal em local a indicar pelo cliente, e também disponibilizamos um serviço 24 horas de vigilância de infestantes. Com o passar dos anos tornamo-nos especialistas em contagens decrescentes estando agora muito mais perto de atingir o fim a que nos propusemos. Oferecemos um serviço inovador de remoção de pernas esquerdas (muito requisitado por ambidextros), utilíssimo para dissipar dúvidas de última hora na subida a cadeiras e garante do cumprimento cabal nos mais variados misticismos. Temos carta profissional em todo o tipo de artifício, fogo de vista e material gasificado. Trabalhamos essencialmente o gregoriano, mas dispomos de excelentes fantasias romanas e julianas para grupos pequenos. Recolhemos e destruímos os anos terminados. Sigilo absoluto.

20121220

Câmara de Lobos, Madeira, Portugal

Satisfeito, Presépio contemplou o pinheiral de bacalhaus em toda a sua manjedoura. Gotículas de magos consoavam por entre as festas e os sapatinhos brotavam dos coros, como era suposto. Tudo estava natal e repicado.
“Nada como uma seca abundante”, pensou.
Ponta do Sol, Madeira, Portugal

Um campo lavrado de amarelo. Sulcos curvos de uma regularidade individual ondulam em fuga para o horizonte fechado. De momento, só brotam cabecinhas; todas desiguais, fruto da mão de um semeador disléxico. Bons arados passam pelo meio dos regos afagando os montículos. Isto faz crescer a cultura pelo rodar dos pescoços. É impensável dispensar um bom arado. Há rebentos que, pelo rigor, ostentam ‘cloches’. Outros há que polinizam em redor, soltando cabelos. Os mais débeis atrofiam no solo profundo, soltando guinchos cada vez mais mortiços. São estes que, filtrados pela turfa, nos chegam como lamentos de sarna.
Eis que a estufa cristalina cai, com um estrondo. Os rancos que saltam, maturam logo, mal perdem o toque da terra. Esbracejam os membros que esgalharam em tal instante, recolhendo pertences que os tornarão autónomos, na safra.
Na fase seguinte falaremos da fileira de processamento.

20121027

Barcelona, Espanha

Não me lembro de nada. O que é o mesmo que dizer que tudo me passa pela cabeça.
Às coisas passadas e às pensadas, encaro-as e esgadanho-as na esperança de encontrar uma ou outra entranhada nas unhas. Mas todas me escapam e eu fico a fazer a figura que vejo que faço, e que não é a minha. (Quem é essa, que se insinua?)
Apoio-me numa bengala de risos e vou tocando na vida à minha frente. Pelo caminho não falo com ninguém, mas já não me posso ouvir. Nuns quantos vazios à minha volta construo maciços com as palavras que ainda guardo, as mais fortes, onde depois pouso o que me diz mais. Pelas paredes espalho as mais novas; atrás das portas e ao abrir das gavetas. Assim falam comigo, quando menos conto.
A ausência minha causa-me dor; a minha ausência inflige-a.
Tudo passa.

20121017

Beng Mealea, Cambodja

- Sou eu, a proprietária da abóbora!
O burburinho aninhou-se debaixo do silêncio pesado. Todos os olhares cresceram para aquela voz: os penetrantes, os de soslaio e os cabisbaixos.
Mas até numa plateia agrícola, grassam os gamões. E estes trataram de abafar o assunto.

20121008

Balcões, Madeira, Portugal

Os homens caminham com as mãos atrás das costas, o queixo atrás da barbela, o peito atrás da pança, como uma escadaria. Caminham atrás das mulheres.
Há algo de besouro caído num homem que caminha assim. As mãos entrelaçadas, como numa sombra chinesa que quer à viva força ser tomada por uma pomba, apoiam-se no chão sustendo um corpo maciço, de barriga para cima, de onde esperneiam, vagas, duas pernas e uma cabeça em sofrimento cervical.
Assim se arrastam os dedos, carregando este fardo durante os meses de verão, para terem onde viver no rigor do inverno que chega.
Se perguntarem às mulheres, elas nunca viram isto.

20121007

Cabanas de Tavira, Portugal

Como ria, a areia tinha a língua de fora. No braço de água salgada as boias poisavam como cerejas doces. Sentia-se, no crescendo ténue da enchente, um vazar de terra firme. As embarcações, de variadíssimos portes, igualavam-se no topete com que olhavam a entrada da barra. Os primeiros homens gostavam de pensar que eram ainda os escolhidos do mar, apesar das pernas que arqueavam ao peso da voz rouca e de nunca se terem aventurado para além da segunda margem. A corrente viva, indiferente a quilhas e patilhões, sarava rápido aos cortes de hélice e morria lenta ao toque humano. Aqui ninguém faz pontes, por respeito ao mar ou indiferença à outra terra, que é curta. De qualquer modo as grandes águas entram e saem, fiscalizando o território com cada vez maior descrença.

20121006


Cercal do Alentejo, Portugal

É de manhã. El-rei caminha, em passo quedo, na direção do torreão mais próximo. Tinha acordado com vontade de arejar a pluma. Seguia só, acompanhado pelo Oficial de Toponímia, o Conselheiro de Frivolidades, três aias disfarçadas de valetes e um moço de estrebaria com gadanha até aos dentes.
Do alto do torreão avistava-se todo o reino, mas era mais certo ainda que de todo o reino se via claramente o torreão empinado. As visitas miradoiras do rei raramente passavam despercebidas à plebe, que mergulhava nas suas tocas e carvalhos ocos ao primeiro vislumbre da pluma real.
- Nunca há vivalma, em terra conquistada. - desabafou o rei, pesaroso - É, no entanto, um belo ver.
(“Belver”, tomou nota o Oficial de Toponímia na Real Agenda, “Toda a zona da cordilheira sul até ao bosque das acácias.”)
- Olha acolá, aquela picoteira do monte tão graciosa. E mais além, onde ajoelhamos a S. José, nas matas, depois de termos tratado a peito os valhascos que açoitavam as mouriscas; bem que lhes chegamos a póvoa às meadas. - açorriou o rei já mais bem disposto. - Mais ao sul foi onde cruzamos a água travessa, que nos custou um urro de alazão; lembro-me do Barba Torta, de chança em punho como um terrujo. “Vai a monte”, disse-lhe eu, “Vai a monte, alpalhão”. E tais foram os foros de arrão do vilão que o pusemos em debanda, até ser só um cabeço a sair da vide. - gracejou.
O Oficial de Toponímia não tinha mãos a medir. Folheava a Real Agenda como um eunuco a palma, em dia quente: Picoteira do Monte, Graciosa, S. José das Matas, Valhascos, Mouriscas,...
- No entanto - arrefeceu el-rei - daqui, já nada me chama. Para onde quer que me vire, os meus rodeios são-me sempre banais, as novas conquistas sabem a visitas de tias velhas, tudo me é tão repetido como o ser eu mesmo.
Num misto de enfado e fanfarronice, el-rei O Cognominador, empunhou o seu montante afiado e, Zás!, armou-se cavaleiro. Por falta de cuidado, trespassou-se do trapézio ao oblíquo, o que não deixa de ser uma proeza digna de nota. (“Passamontantes”, apressou-se a escrever o Oficial de Toponímia.)

20120913

Barcelona, Espanha

Preparo-me para tomar um castelo como o de Wamba. “Às urtigas!”, digo eu, “Às urtigas!”, repito.

Estou engalanado como uma comunhão solene e tenho para mim coisas que não partilho com ninguém.
Na minha frente restam apenas três: um velho negro careca, um branco vadio e desgrenhado e uma morena diminuta. Tudo isto me emociona e vou escrevendo à medida que me lembro.
A luta é-me desigual. Tenho pena, mas é fraca. A violência com que me irão golpear será indescritível.

20120829

Barcelona, Espanha

Já não sei se o leio ou se é ele, o livro, que me lê a mim. Tenho a nítida sensação que me observa. Ou me engano muito ou acabei de ouvir um suspiro sair da fenda escura onde as páginas mergulham em arco. Acho que é ali que tudo se passa, os relatórios, as trocas de informação, os registos do meu quotidiano. Ali, na intimidade da lombada.
Não estou a perder o juízo, sei-o com a certeza de quem respira saúde sem inspirar cuidados. No início estranhava as coincidências da narrativa. As divagações em que me deixava cair, via-as impressas em letra de forma. À conclusão brilhante a que eu esforçadamente chegava, chegava o parágrafo primeiro. Que desconforto virar a página e ter de entrar naquela viela desconhecida com a vizinhança a cochichar entrelinhas. Em tudo o que lia, naquelas páginas espelhadas, revia-me até às entranhas. Quem me conhecia aquele lado? Quem me escrevia assim?
Suspeito que me acerquei de uma coisa importante; uma conspiração indizível que me vai levar até ao fim: são os livros que nos leem. Eles não abrem os limites da imaginação, como se conta, saqueiam-na sem cerimónias. Que ideia extraordinariamente maquiavélica essa de aguardar pelo momento em que nos entregamos languidamente à leitura, de cabeça aberta, para, lançando uns preâmbulos supostamente inocentes, fazerem-nos cair numa emboscada de onde saímos vazios de tudo o que era intimamente nosso. E o mais sinistro é que fechamos o livro, onde nos lemos, glorificando o ladrão do autor pela sua magnífica capacidade de saber o que nos vai na alma.

20120728

Barcelona, Espanha

Uma menina não rebenta as águas, como um petardo sem maneiras; sussurra um riacho melodioso. E quando se é assim tão surpreendente, desprezam-se os momentos óbvios e chega-se naquele que ninguém conta e que é tão inesperado por todos.
Sendo imensa, no ínfimo detalhe, não se deixa marcar por ferros ou sugar pela voracidade do mecânico, mas desliza em gratidão, sulcando apenas e só uns quantos punhados de corações.
Quantos não falantes, são escutados assim? Que outros olhos fechados conseguem ter a alma tão espelhada? Sem pena dobrou o choro, sem mácula dobrará o riso. Estranho poder, o da fragilidade.
Foi quase no fim que nasceu, lá longe, como num chuveiro, deixando-nos a gotejar. Agora é preciso contar-lhe as histórias para que, quando abrir os olhos, nos reconheça como iguais.

20120721

Abu Simbel, Egipto

Puxo cada onda que se desfaz como mais uma coberta para cima do corpo. Descoberto, pela indiferença com que se é queimado vivo, assim o gelo me quebra.
O areal é imenso, no seu isolamento, e a pele esboroa-se em poeiras sílicas, cíclicas como a nortada. Mesmo os que voam sobre a podridão meditam aqui, alinhando as penas ao molhe.
Ao fundo, a névoa forma cargueiros sinuosos e faz parecer fácil uma vida sonhada no mar.

20120710

Preah Khan, Cambodja

Ela agarrou-me o braço com a violência de quem se assusta ao ver um porco morto, no mato. Partilhei a emoção, deixando a carne ceder às suas unhas finas.
Tínhamos acabado de atravessar a estrada deserta que cruza o bosque, e já aí algo de curioso tinha acontecido. Um daqueles instantes do diabo, como se costuma dizer. Ao sair da frescura da sombra para o bafo quente do alcatrão, uma espiga de feno agarrou-se-me à meia, picando a canela e obrigando-me a uma acrobática sapatada irlandesa. Esta esquiva, tirou-me da trajetória de uma vespa irritada, indo o seu ferrão suicida cravar-se no sobrolho da minha companheira, que rodopiou 3 vezes, pedindo água. O destemido insecto não aguentou tal carrossel, rasgando-se-lhe o ventre e indo morrer longe.
Tudo isto se passou antes de sabermos que estava um porco morto no mato, coisa bem mais curiosa do que esta.
Soltando o braço, deixei-a a olhar em volta, não fosse um parente vivo aparecer a reclamar o cadáver, e fui-me certificar de duas coisas: se era mesmo um porco e, nesse caso, se estaria efetivamente morto. Ainda coloquei a hipótese de ser um corpo humano, mas nenhum grau de decomposição o tornaria assim tão porco. Era um destes belos animais, sem dúvida, e até ligeiramente malhado, com ar de quem às bolotas retribui com um suculento pernil. Parecia sorrir, expondo uma fileira impecável de dentes afiados, mas na realidade era o trabalho de limpeza de um enxame de varejas sortudas.
Documentei cada tufo de urze que lhe surgia entre pernas e cada cardo que lhe adornava o ventre. A causa de morte era-me tão desconhecida como a causa que o teria feito viver uma vida de engorda e abate. Como estava deitado de lado tinha duas pernas hirtas no ar, a apontar o trilho. Toquei-lhe ao de leve na pata traseira e, trufas!, esta caiu, enterrando-se na folhagem.
De imediato o porco tossiu, cuspindo moscas, e levantou-se com o mesmo sorriso prazenteiro. Educadamente fez uma vénia - o que não é nada fácil para quem não tem uma das patas traseiras - e agradeceu efusivamente o facto de o ter livrado de uma das quatro razões que o faziam ser um animal perseguido.
- Agora vou indo. - acrescentou - Ainda tenho de me livrar das outras três; só depois poderei andar descansado.
Deu meia volta, fazendo rodopiar a argola do nariz, e saiu a saltitar pelo arvoredo.


Como hei-de explicar que não se entra, assim, no Cercal?
Que é um processo de namoro, misto de engodo e cheiro bom?
Quem se achega, vem a evitar a esteva peganhenta e os seus olhos já viram montado de sobra (serpentear por estas árvores despidas da cintura para baixo, deixa marcas tão fortes que bem se pode estar uma década sem conseguir fazê-lo de novo).
É então que nos lançam as sebes. A buganvília e o jasminóide iscam-nos pelas narinas e sentimo-nos num caminho a sério. Há uma certa ordem a alinhar o desgovernado.
Ficamos preparados para o que vem a seguir. O casebre já não assusta e os terraços de rafeiros apresentam-se bem presos. Confiantes, aproximamo-nos do arbusto aparado com a curiosidade de um pardal; arrancamos uma folhita, para cheirar, e seguimos por um estradão de levadas.
Quando o casario afunila e se inclina para nos ver melhor, sente-se um certo desconforto, mas os azuis, os vermelhos e os amarelos que bordejam os brancos, distraem e impedem que se veja o tapete de alcatrão por onde já caminhamos. E depois há sempre o sorriso tranquilizante de uma velhinha, ignorando nós que aquelas agulhas que tricotam, também mexem as poções que borbulham no quarto dos fundos.
Quando se dá por ela, já estamos na rotunda; bem no meio do Cercal.
Aí só nos resta baixar a cabeça e circular pela direita, resmungando uns monossílabos guturais aos outros que, de lá, também nunca mais saíram.

20120501

Madeira, Portugal

Cabral gerou Vasco, Bártolo e Zulmira. Vasco degenerou e coube a Bártolo gerar um outro Vasco, seguido de Afttas e Silva. Zulmira gerou uma linhagem de Ephisodeos iguais a si mesma e tornou-se banal. Afttas e Silva geraram um negócio sujo do qual surgiu Jorge, o ubíquo. O novo Vasco também se perdeu. Cada um dos Ephisodeos gerou um sucessor aos quais chamaram, respectivamente, Assante, Efigénia, Amália, Bento, Barbosa e Malaquias (que, curiosamente, mudou o nome para Adriano). Assante tornou-se o fundador da sua própria casa e gerou um movimento. Efigénia gerou Tomilho e Calviva, que serão mencionados mais adiante. Amália não gerou. Bento gerou demasiado. O que Barbosa fez melhor foi ter gerado Cristiano, Crispim e Crisântemo, pois tudo o resto foi esquecido. Adriano, antes conhecido por Malaquias, gerou Fortes, que teria sido grande, não tivesse saído tão baixo. Jorge, esquecido por muitos, voltou e gerou Jorge Santos, que aderiu ao movimento de Assante. Tomilho gerou Santana, com Somália e, posteriormente, Serafim, com Eulália. Calviva tomou hábito monástico e foi gerando bastardos pela freguesia. De Fortes apenas se lhe imputa a responsabilidade da perda dos registos de Cristiano, Crispim e Crisântemo, dos quais, conta-se, invejava a altivez com que usavam cartola. Fortes partiu cedo, sem gerar. Jorge Santos descobriu, tarde demais, que o movimento de Assante era contra a geração e tornou-se casto. Santana gerou Serafim, não o seu meio-irmão, filho de Eulália, mas um outro, em tudo igual a ele. Gerou também Bosco. Serafim, o primeiro, tentou gerar mas nunca soube como. Serafim segundo, solidário, emasculou-se, decepando uma nádega. Bosco viveu até aos 122 anos, teve seis mulheres e um cartório fulgurante.

20120426

Marraquexe, Marrocos

Basta fé, e a pele sobre os ossos, ou em pele e osso, só resta a fé?
Uma janela de topo pontiagudo, que lembra balas e supositórios, aponta o céu. E as grades maravilhosamente trabalhadas que a ornamentam, quem prendem? Refugiem-se lá, pois quanto mais os rebentamentos surdos estilhaçam os vitrais, mais a luz dança no interior.
Cá fora, uns deixam os sapatos, outros a pele de lobo.
Lá dentro está tudo escrito.

20120425

Barcelona, Espanha

Um gato reflete-se numa poça. A poça estremece, consciente da sua própria profundidade. O gato vê-se a tremer e toma consciência de que é apenas uma representação, um ato de uma boa peça. Toda a cena está a ser vista por um cego, que sentiu o cheiro a urina.
Uma parede áspera trespassa dolorosamente o gato, explicando-lhe que faz aquilo por piedade. O gato agradece, em silêncio, ser poupado a ver a sua decomposição.
A poça é agora um pórtico trabalhado e o gato uma mancha de pelo no chão. Caravanas de piedosos cruzam diariamente aquele tapete gasto, vindos do deserto. Mas o calor é tanto que o pórtico escorre, seca e desaparece, deixando todos muito confusos. Cegos pelo sol, olham o chão e vêm-no em pé, com um gato a urinar. A poça morna onde estão deitados, engole-os, ligeira.
O cego, satisfeito por ter assistido a tal momento, lambe demoradamente uma das patas, depois a outra, e vira costas ao espelho, ronronando de superioridade.

20120402

Barcelona, Espanha Passou a verde e a madura. O apetite surgiu com o provar de outras palavras que, num turbilhão, lhe subiram à cabeça caída. Tinha começado como um formigueirozinho de abstinência - estava limpo há vários dias - e logo cresceu para uma castanhola de dentadas, daquelas que nem mastigam e castigam, nos anos delicados que se aproximam, um estômago surpreendido. Esquecera por completo aquele branco agudo que acamava arabescos em filas indianas. Amoroso, lambeu-lhe os cantos, um a um, com um afago. Com doçura, massajou-lhe a crescente sucessão de lombas, como se esperasse um filho. Então, fingindo adormecer, deixou o livro deslizar pelo colo abaixo, contornar com volúpia a curva roliça do sofá, aninhar-se sob a camilha. Livre do peso da literatura, começou a escrever, ele próprio, na manta de carneira que lhe cobria as pernas esticadas, o que de mais profundo lhe passava pela cabeça. As escritas mergulhavam no pêlo espesso, rasgando os redemoinhos felpudos em segredo, para logo voltarem à tona num resfolegar de Hás! e Hús!, deixando ideias soltas espumarem-se ao acaso. A pouco e pouco as pernas foram-se cobrindo de um bando de coisas sem nexo, que por vezes - céus! - transbordavam pelos estofos fora indo bater com força nas fronhas bordadas. Felizmente, algo lá no alto fez rebentar um vaso de tinta negra, espalhando um manto de quietude e recato sobre todas aquelas vergonhas. A maravilhosa mancha do inesperado, pacificou, enfim, as populações de gatafunhos que escorriam de algo seco, duramente torcido.

20120119

Barcelona, Espanha - Não aguento mais! Vou para onde me esperam. Acerto as minhas contas e vou. Estou saturada, farta desta vida. Não estou aqui a fazer nada. Só quero deixar as contas pagas. Amanhã ainda estou viva, é a despedida. Isto já anda há muitos anos na minha cabeça. Agora tudo acabou, para mim. Só quero paz, mais nada. Amanhã posso estar melhor, não sei. Doente, doente, não estou, morreu-se-me é a alma. Até já comprei o remédio. A minha cabeça não está cá, ou melhor, só está para me levar a desaparecer. Estou assim há muito. Até saí de casa para ver se a ideia me passa. “Vai para trás, vai para casa.”, diz-me a minha cabeça, “Faz aquilo que tu queres e vai desta para melhor.”. Não tenho medo de nada. Não quero ver ninguém, falar com ninguém. Não vale a pena. Mas também não quero ir para casa, se não, meto aquilo à boca. Pensei que isto ia melhorar, mas não. Os que andam à minha volta só querem o que é meu; e o que é meu é a minha vida. Cada um tem é que viver a sua, o melhor que puder, sem... Estou?... Estou?...
S21, Phnom Penh, Cambodja Entro desperto, na cidade dormitório; uma de muitas, daquele país encravado entre tantos outros. Enquanto caminho pela rua sonâmbula, esfrego os olhos às inúmeras artérias que a cortam aos pedaços. O passeio que piso, já aguentou tantos mil passos e intenções de caminho, que se tornou, ele próprio, numa espécie de metrópole. O emaranhado de possibilidades esgota o mapa que se dobra na minha cabeça. Refugio-me numa casa - abrindo um portão, cruzando um caminho, empurrando sorrateiramente a porta com um dedo esticado - em busca de unidade; mas a casa tem degraus, carrocéis de degraus a ondular entre os pisos. E quadros. As paredes, já delas tantas, mascaram-se de outros lados, surreais, e fingem ter janelas impressionantes. Não consigo ver uma só coisa. Tudo se desdobra em demasiadas hipóteses, para mal das minhas indecisões. É então que, já cansado, descubro uma única pessoa, sentada à mesa; um indivíduo com, parece-me distinguir, uma personalidade vincada. Aliviado, peço-lhe uma opinião concreta, mas quando ele começa a falar, não consigo ouvir nada, tal é a algazarra da gente que, dele, enche o enorme salão.