20090908

Glaciar Franz Josef, Nova Zelândia Um grupo de porteiros de hotel reunia-se em segredo, todas as segundas-feiras à noite, num conhecido barracão abandonado dos arredores da cidade. Sendo um dos não-lugares mais em voga do momento, era comum encontrar ali equipas de casting em sessões fotográficas, velhos párias embrulhados em cartão e mesmo alguns membros saudosos de grupos terroristas desactivados a ditarem as suas memórias. Ora sendo a segunda-feira o dia da semana em que, por norma, os restaurantes fecham e os museus encerram, o conhecido barracão abandonado estava, normalmente, à pinha, o que deixava sempre o grupo de porteiros de hotel que se reunia em segredo, bastante desconfortável. Não que alguém lhes dirigisse a palavra ou pousasse sequer um olhar mais inquisidor sobre os seus conluios. A situação confrangedora ocorria quando alguém se aproximava das instalações; de imediato um dos porteiros saía disparado e abria o empenado portão com um sorriso de boa noite. Após tão lamentável reacção era normal e esperado por todos que, ao cair em si, o fraco membro cometesse de imediato suicídio, colocando o portão entreaberto e deixando-se atingir corajosamente por uma violenta corrente de ar. O mais constrangedor foi que o desenvolvimento desta situação se tornou de tal modo repetitivo que o único resultado prático destas reuniões foi o de tornar o portão mais perro, pelo acumular de corpos na entrada, e reduzir o grupo secreto de porteiros de hotel a um velho reformado do Winter Palace, cego e surdo, que continuava a ditar os estatutos da associação.

1 comentário:

vítor tavares disse...

muito bem!
quer os registos fotográficos como os conteúdos escritos, continuam a bom nível.

a citação 'não-lugares' vem mesmo a calhar;)

abr
vítor tavares