20160922

Londres, Inglaterra

Tenho um colega meu arrumado atrás de uns livros, onde antes tinha uma pessoa amiga que deixei de seguir. Na prateleira de cima está uma caixa de rapaziada antiga que nunca mais usei e cheira a cedro. Um dia destes arranjei para lá umas cruzetas muito jeitosas, almofadadas a pot-pourri, onde vou deixando penduradas as situações que já não me apetece usar. Quando as afasto para chegar ao fundo, soltam belos tons de alfazema. Sempre que vou à gaveta das miudezas ela chia de surpresa, como se não me visse há muito tempo, e faz-se difícil de abrir trilhando uma peúga na ferragem.
O pó está a ganhar terreno. Começou por tomar as terras altas, onde a procissão não passa, e já se lança agora em diáfanas cascatas sobre os frisos laminados, quando suspiro. Tem caído também sobre uma camisola velha, cheia de borboto, que se está a tornar num excelente agasalho de lã.
Temo que, à custa de tanto fechar as portas para resguardar as coisas, o sombrio, o bafiento, enfim, o soturno se lá tenha instalado. É um inquilino que não faz muita companhia, mas também não incomoda. Acabo por me habituar a ele.

20160908

Phnom Bokor, Cambodja

"Está gente!", ouviu-se do interior. Mas ninguém batia à porta. "Gente!", repetiu. De novo, nada solicitado. Mesmo assim a porta abriu-se, generosa, e encontrou o pátio vazio. E um pátio enorme, registe-se. Daqueles onde tanto se pode encontrar um grupo de caminhantes felizes a pousar a fadiga, como uma família numerosa a jogar cumplicidades. Um espaço amplo de ar, puro de intenções, bem marcado por emoções cáusticas e devotas, horas de apatia e segundos sentidos. Curiosamente, como quando somos pequenos e tudo parece descomunal, relação que se inverte com o crescimento, também aquele pátio parecia agora bem menor, assim cheio de nada. Quase apertado. Mais oco que vazio, até. Viam-se com nitidez os seus limites, onde antes o olhar se perdia... É melhor varrer as folhas!

20160903

Arouca, Portugal

É no cimo das árvores, nos ramos mais altos, que se sente o mover da terra; que se antecipa o curvar do horizonte. Quem do solo olha para cima, para as copas majestosas, assombra-se ante o vagar com que se movem. Como gigantes que são, desprezam o tempo miudinho. Encaram-nos sem gravidade. E os homens lá trepam às árvores para colher esse tempo. Apressados, fazem-no quando ainda não estão maduros; e quando ficam, deixam de crer.
O tolo que trepa ao cesto da gávea, sente-se como um barão. As ramagens lentas fustigam o madeiro deixando na língua uma poalha de esporos. Da boca aberta rebentam coisas novas. Gota a gota as fontes suadas regam as raízes que o sustentam levando-o mais alto. A certa altura, o chão deixa de fazer sentido e torna-se subterrâneo. A fusão das copas define a linha de terra e respira-se daí para cima, com o céu mais achegado.

20160830

Petra, Jordânia

O menino mau empurrou os outros meninos contra o carrossel em movimento. Não satisfeito, lançou baloiços contra os que tentavam fugir. Choradeira, esfoladelas em barda, protestos e reuniões de pais. Ficou decidido que usar uma expressão carrancuda é moralmente ofensivo e que, doravante, todos os meninos com cara de mau estão obrigados a usar o sorriso consensual.
As autoridades mais declaram que só assim se pode garantir uma eficaz aparência de segurança no parque infantil; nem que para isso se rasguem alguns desses sorrisos à bastonada, disseram.
Tudo isto deixa, nos meninos maus, um esgar de satisfação.

20160821

Zambujeira do Mar, Portugal

O pedreiro toma a junta de um perpianho bujardado da Gralheira. Usualmente um homem cinzento, torna-se brilhante quando levanta muros. Muros perenes como fojos, que as crianças gostam de trepar e sentar no topo, a roer uma côdea sobre o território. Muros delicados como longos carreiros de formigas onde o rebanho se encosta seguro. Muros finamente pautados a maça e escopro - muros bons, que também os há - que contam capítulos maiores; mais altos do que a secura das sebes, apaziguadores das quezílias entre copas, frescos como seixos mergulhados. Costuma ele dizer que "um muro não se constrói, um muro é o juntar das histórias de pedras soltas que há muito esperam a sua vez". Os seus muros mostram os dois lados do sol: o da queima e o da sombra. São miradouros, lugares de portões, esconderijos de coisas de amor. Muros que se saltam para fugir dos monstros ou para roubar um beijo.
Assentava, então, o pedreiro um perpianho, quando foi abordado por um ouriço-cacheiro, que o saudou respeitosamente. Em seguida, o pequeno mamífero formulou um longo preâmbulo sobre a arte da pedra, o refinado trabalho daquela obra em particular, a destreza exigida pelas ferramentas de lei, enfim, seria quase um hino não fosse a ausência notória de menção às musas. No final, amaciadas as arestas, o ouriço pigarreou um pedido. Que lhe daria imenso jeito se, precisamente naquele local, o magnífico muro deixasse uma insignificante fresta que franqueasse as suas deambulações diárias.
O pedreiro, bem, ficou petrificado. Boquiaberto! (ficou boquiaberto mesmo antes de ficar petrificado, ou não faria sentido nenhum; um zangão foi até recolher-se por uns momentos no interior da cavidade bocal, encostando a cabeça cansada a uma obturação de compósito) Assim imóvel e coberto de pó de pedra o homem mais parecia uma estátua de jardim; daquelas que representam a têmpera de uma profissão nobre e que são colocadas na zona mais afastado do bosque, onde trepadeiras laboriosas rapidamente as transformam em arbustos. Estava estupefacto! Nunca na sua vida tinha presenciado semelhante estranheza. Uma fresta no seu muro!
Nazaré, Portugal

A cidade resolveu tirar uns dias de férias. Padecia de má circulação e as costas curvas davam-lhe um ar recôndito. Sentia o interior todo revolto; gases, muito provavelmente.
Tinham-lhe falado muito bem de uma vilazinha pitoresca nas montanhas, servida num lago de trutas. Imaginou-se logo lá, a refletir sobre o espelho d'água; a tomar o refresco mais usual, na praceta; a saudar os locais com aquele ar prazenteiro que é o de quem desfruta.
Sem mais delongas fez a mala, trancou tudo e sacudiu os cerca de 550.000 habitantes para os arrabaldes, antes de partir.

20160727

Barcelona, Espanha

A respeitável casa da esquina tinha a esquina em pedra boleada. Quebrando assim a aresta viva dava um ar gentil, uma ajuda ao esforço de dobrar o gaveto pousando um braço amigo sobre os ombros de quem passava. A casa era carinhosamente conhecida na vizinhança como a 'casa das muitas moças' pelo encavalitar de gaiatas sorridentes - não menos do que oito irmãs - emolduradas pela fresca cantaria das janelas do primeiro andar.
Conta-se que num fim de tarde outonal, daqueles em que se sente o esforço da brisa a puxar a chuva, as oito irmãs quase deslocaram os peitoris de ferro forjado tal foi a gargalhada que as atravessou de rompante. Deu-se o caso de por ali passar uma santa senhora, de seu curioso nome Miclicoxcletscluz, mulher dada e alegre mas muito atreita a padecer de secura da garganta. Amiga sincera do néctar espirituoso, fermentava essa relação com assiduidade. Foi num desses momentos de comunhão, envolta numa aura de vapores etílicos, que tentou dobrar a esquina da casa das muitas moças. Ora se a linha reta já é um desafio aos humores toldados da meia idade, uma tal inflexão do passeio torna-se um caso de violência. A senhora, que trazia a parede como muleta, vê este apoio fugir-lhe a 90 graus deixando-a à deriva na corrente de ar. Assustada, emudeceu. Sentia o chão a oscilar lentamente, como uma ponte pênsil. O braço de apoio tateava o ar como um mimo enquanto o arco das pernas periclitava na corda bamba. Prevendo a tragédia, persignou-se e em grande desespero clamou: "Ai, carago... é do bento... que eu caio!". O baque do gargalhar das moças fez o resto.

20160507

Seia, Portugal

(a new leaf on Russell's Fall)

Antes que as raízes arruinassem o tapete os pais
cortaram a golpe de machado o filho
plantado no meio da sala.

Enterraram-no num canteiro do pátio dentro
do próprio tronco.

Aguardam um rebento novo na primavera.

20160504


Malhão, Alentejo, Portugal

Ah, que felicidade imensa se retira de uma caminhada antropomórfica. Sentir-se bravio no deambular cabreiro pela mata virgem. As levadas connosco, as fileiras mudas de fetos novos. Ali, os cornos de um diabo popular, mais além, a cabeça petrificada de uma velha sem corpo. Que rota burlesca. Um eucalipto com as folhas em pé franze-me o sobrolho e a barbela. O peso do meu passo quebra os galhos como ossos.
Procuramos o humano nos bosques quando o urbano não é mais do que um emaranhado de sebes.
Wadi Rum, Jordânia

Uma fatia fina de talo de aipo parece um verme da couve, o que não é de estranhar. Sentindo-se aventureiro o verme-aipo começa rastejar pela banca em direção ao jardim. Um jardim autêntico, não uma dessas coisas áridas e meditativas, trabalhadas a ancinho. O verme-aipo revela-se muito lento nestes primeiros rastejos. Chega ao canteiro já noite cega. Um escaravelho-da-palmeira, entediado com a dieta tropical, vem a rolar uma bola de esterco na sua direção.
Vamos deixar o suspense matá-los a todos.

20160125

Pulo do Lobo, Mértola, Portugal

Devia ser um bicho. Acho... É que mudava de cor e de alma a cada piscar de olhos (e quando se observa algo assim majestoso os olhos piscam como um telegrafista); mas devia ser, um bicho.
Uma vez pareceu-me ver-lhe oito patas incansáveis, duas antenas atentas e um abdómen prenhe de coisas não terrenas. Simploriamente pensei numa formiga trabalhadora, cujo toque muda a vida com que se cruza. Depois ouvi o o canto. Distinto, acutilante e contínuo. Um canto que fazia querer prolongar a noite. Uma cigarra? Um híbrido impossível?
Entretanto morreu.
(Parece que ainda o estou a ver; e a ouvir.)

20151229

Capadócia, Turquia

Exercito-me. Os dados estão lançados. Como o explorador Brito Capelo validei a minha resolução de tomar a viagem. A linha traçada leva-me por Matosinhos sul, invocando paragens quentes e tribos selvagens, hoje colonizadas pela corrosão vista do mar. Dizem que por ali perto se reúnem, algures numa câmara de Matosinhos, pequenas fações de eleitos, congeminando espalhar cultura eclética e boa mesa a camuflar o desleixo das calçadas.
Todas as coisas que passam, ficando-se pelo alcance da vista, tornam-se criaturas de exposição. Existem apenas enquanto coleção catalogada, parque de real sentido, mas sem toque.
Logo após, a nota dominante a Pedro Hispano mistura as dores urgentes e as agonias prolongadas com uma leve fragrância de alívio. Mas nem sempre se a sente. Muitas vezes é-se obrigado a passar do nivelador estádio do mar para um estádio de insensibilidade couraçada. Do tipo que desafia o impensável, que faz manguitos à tormenta; como chalupas de Vasco da Gama.
Mas eis que entra uma força no habitáculo. Uma senhora da hora mágica, do despontar da luz, carregando um pesado fardo de peixe vivo, em morte lenta. De um recipiente salgado a mulher vai-os aspergindo com uma parca bica d’água. Duas, três, sete bicas são deitadas, entre batismo e extrema-unção. Dos mais fracos, dos que ficam sob o peso que enche a canastra, sobe um viso medonho que acorda os estremunhados e leva os pertences a se recolherem mais para o fundo dos sacos.
No horizonte forma-se agora uma cadeia urbanosa de blocos pouco sociais, um Ramalde algo sujo, um dos últimos estertores dos arrabaldes abafados pelo falso civismo. Mas, ainda assim, o coração aquece face aos alinhamentos francos das habitações fabris de outrora. Pequenas e térreas, ostentam ainda um orgulhoso brilho vitrificado. É fácil imaginar cada interior cheio como uma casa da música que só uma família compõe, à chegada tardia do operário.

20151224

Porto, Portugal

O telhado arregalou bem o olho direito e perguntou ao sol “Vês alguma coisa?”, ao que ele respondeu, após cuidadosa observação: “Raios!”.
Matosinhos, Portugal

As últimas cinco folhas apegadas ao esqueleto da tília abanavam a cabeça de desolação e aragem. Tinha acabado de cair a sexta e cada uma só pensava que ainda não estava pronta para sair.
Mas a eliminação é cruel e aleatória; e o público quer ver sangue.
Matosinhos, Portugal

Fui surpreendido por um busto da minha pessoa, erigido num recanto envergonhado de um parque. As linhas do monólito que lhe servia de base eram simplórias, a placa comemorativa, de um bronze-verdete banal e no topo, como ouriço estatelado a revelar a castanha, a minha cabeça, assente numa somítica fatia de ombros.
Mas que raio de tolices me atribuíram, para ser eu empalado desta forma tão soturna? É, com toda a certeza, um equívoco dos mais deploráveis, sendo eu um escriturário de aprovisionamento esforçado por evitar o que quer que seja que revele a minha presença nessa categoria transparente. E nem quero falar na forma ridícula como esse simulacro de escultor me modelou um pescoço praticamente inexistente, colocando o meu duplo queixo com ar de lava arrefecida no socalco.
Mas pior, muito pior do que tudo isto, insultuoso até, considero o facto de não ter sido convidado para o que deve ter sido uma inauguração primorosa, plena de filarmonias, senhoras emocionadas e finos cortes de alfaiataria. O meu próprio busto!… Numa efeméride há palavras que devem ser ditas pelo próprio, figuras mencionadas, agradecimentos e humildades bem apontadas... velhacos!
A custo afastei as trepadeiras que cobriam parte da placa gravada, na tentativa de confirmar o rigor dos dados que a corja de energúmenos atribuiu à minha existência. Nome, correto (dispensava o cursivo arcaico, enfim...), "nascido em", indiscutível, "falecido em ", idem; o serifado em caixa alta será talvez um pouco imperial, para um mero busto de jardim. Agora, convenhamos, aquelas palavrinhas de homenagem, fúnebres e escolhidas a dedo para florear o papel que me foi atribuído desempenhar nesta vida... que desilusão, que desalento! Nem as li uma segunda vez, para não duplicar a minha fúria. Virei-me as costas e jurei que, enquanto fosse vivo, nunca mais voltaria a encarar este recanto atroz.

20151118

Efeso, Turquia

Conheci, assim de passagem, um sujeito de semblante obtuso (mais como o ângulo aberto do que o discernimento fechado) que tinha por hábito tomar nota de tudo o que lhe ia sucedendo ao longo do dia. E quando digo tudo condescendo com a inimaginável enumeração de episódios encadeados na sebenta que enrolava no punho.
Indiferente ao nexo, hierarquia ou verosimilhança, era irredutível quanto ao rigor da sequência. Banalizo-o (e a mim próprio) ao tentar exemplificar esta, digamos, obsessão cronológica pelo ditado, mas a sua nota “Acordei a custo, tal era a força da goma remelenta que insistia em me manter na escuridão.”, nunca viria antes desta outra: “Estava eu quase a ser alcançado pela figura disforme e tão familiar nos meus pesadelos, quando um baque surdo, como o que faz uma velha a cair abaixo da cama, me acordou.”. Ao descer a rua pelo passeio da direita (onde se respirava com menor intensidade a exaustão automóvel) estenografava com vigor e dislexia: “Desço esta calçada íngreme, certo de que a escolha do lado concordante com o trafego insuflará algum apreço ao meu único par de pulmões.”. Num almoço, após destrinçar uma espinha de faneca da garfada iminente, registou: “Foi por um triz! Um mero soslaio fortuito revelou a boa peça que me saiu esta faneca dissimulada com a sua espinha prestes a travar-me a goela.”.
Aconteceu mais tarde, quando tomava notas do entardecer - fazendo algumas referências ao estado preocupante das costuras gastas da sua jaqueta - que o interpelei pela primeira vez. Foi como conversar com um diretor de cena ou um retratista. Cada frase cuidadosamente adaptada ao espaço entre linhas; cada entoação ou tique dissecado em superfície pautada. Aprendi, deste modo gaguejante, a remoer um diálogo. Tive tempo, entre deixas, de repensar todas as veleidades ocas que tendem a escapar entredentes. Percebi a displicência da fala e tornei-me, desde esse dia, muito mais mudo do que antes.
O sujeito lá ia falando, ou melhor, respondendo delicadamente às minhas indiscrições, transcrevendo-nos com naturalidade. Explicou então, paciente, o propósito do seu método.
Recordo-me que na sequência dessa revelação, passei rapidamente de uma estupefação maravilhada àquela irritação provocada pelo reconhecimento da evidência banal. Uma reação que se repete cada vez menos, ao longo da vida, e que tem o dom de nos deixar menores e menos fantasiosos. Como crianças que crescem, e que a cada pergunta respondida com uma aridez bem intencionada, vão perdendo a capacidade do irreal.
O compromisso daquele homem era então o seguinte, digo eu já amargurado e consciente de estar a destruir efabulações: registar cronologicamente todas as ocorrências de algum modo ligadas à sua existência física e os exercícios de raciocínio daí resultantes. Deste modo, praticando com inflexibilidade, ia-se, por assim parafrasear, da lei da morte libertando. Eliminando arquivo morto. Quando inclinava a cabeça para tomar notas, o assunto escorria e gotejava tinto, no papel, sendo absorvido por uma qualquer regra da química que não cabe aqui questionar, uma vez que funciona em favor do exposto. Aliviado do peso da memória, o cérebro suspirava longamente soltando aquele rangido do reformado que se recosta num banco ainda ensolarado. O sentimento de perenidade ficava assegurado por uma consciência limpa. Nesse vazio tudo era novo, vivido com o afeto de uma primeira vez.

20151111

Capadocia, Turquia

Um transporte público. Troncos retorcidos de um borboletário. Recordações de existência rica, solitária. Uma investigação cheia de indiferença. A caixa dedicada a pesos de chumbo fiéis à balança. Torvelinhos de folhagem e fiapos. Portas diferentes em casas sempre iguais. As carruagens ainda sonolentas lembram paixões recortadas de antigas capas adolescentes. A monotonia de um linear é trazida por um carril. Politicamente, o extremo-centro é ubíquo. Música. A frescura em decomposição das ideias imberbes. Barbas diariamente desfeitas. Dias igualmente desfeitos. A paragem tarda. O amor é eterno. A resiliência teima em vencer o cansaço. O enfado dos combinado de moda. Fazem-se deslizar possibilidades com a displicência com que se olha pela janela. As novas e maravilhosas articulações do polegar, esse elemento diferenciador. A condescendência para com a posição de autoridade. O imbecil que sonha, ou que sonha que sonha. A cumplicidade do sol baixo das manhãs de inverno que esconde quem não queremos ver. O ar mortiço das caras iluminadas por baixo. Os olhos que baixam nos ecrãs e esquecem as nuvens de cima. E o redondo das tampas de saneamento, esconde o quê? Há olhos que fogem uns dos outros, num jogo da apanhada. O arrasto dos gradeamentos apaga as trepadeiras que os abraçam. Os sons de fundo tornam-se viscerais e afeiçoamo-nos às vozes gravadas. Há uma tristeza nas luzes que ficam acesas de dia, esquecidas por um desabafo noturno. Cartazes dividem a cidade em tracejados, códigos de cor e tipografias revisitadas. Nota-se o rasto diário do gotejar vermelho da saudade. O espaço a mais e a falta de espaço para o sentir. O suplício da proximidade que se esvazia lentamente. Entre o ânimo e o desencanto, a ida e a vinda, cai o dia.

20151107

Rio de Janeiro, Brasil

Isto é o real, a realidade, o trincar de uma coisa dura como cornos seguida de uma fisgada fina. Depois há-de vir a recompensa - um dia - o esquema que faz o mamífero sofrer as cabriolas do inferno para ganhar um peixe. Pelos escritos (qualquer que seja a cor da capa ou a inclinação da pena) a primeira, a realidade, dura uma vida, a outra, a fantasia, nunca mais acaba. Parece um bom trato, uma oportunidade única; vale a pena investir nisto de ser um afável altruísta e seguir o guia.
E o além? Não o ali mais à frente mas o depois. Um mundo novo e admirável, segundo os que nunca lá estiveram, perfeitamente desconhecido, celestial, nivelador por cima, onde se processa a reforma vitalícia da incansável nova plenitude. Parece que estou a vê-lo, aqui do desconforto desta soleira de pedra. Pressinto que tenha um mar sem ondas, areia morna que se molda a qualquer desejo, um ou outro caranguejo de casca mole intrigado por fazer parte da cena, e tudo isto num prado sem socalcos ou sobressaltos, como seria de esperar. Não fosse o desconforto desta caleira - exímia atiradora, diga-se - que insiste em apontar a sua pinga gelada à fresta entre o colarinho e a última madeixa de cabelo, quase sinto o calor solto pela terra deste mundo tão igual à minha fraca imaginação.
Mas,… e se esta é a segunda parte da história, numa versão invertida? E se este agora é, afinal, o depois? O resultado de uma deliciosa existência anterior, de uma interminável juventude etérea, que chegou ao fim? Andamos a flutuar num estado de êxtase durante sabe-se lá quanto tempo, muito antes do real ser ele próprio, tivemos todos, sem exceção (que é coisa desconhecida da perfeição) uma existência de epifanias múltiplas, e agora acabou-se e estamos todos aqui, com as unhas dos pés bem cravadas numa terra que espera paciente a nossa decomposição anunciada? Como o coitado do projecionista confundido pela modorra, que exibe primeiro a segunda parte da história, onde todos viveram felizes para sempre, e depois termina com a projeção do início da saga onde tudo são tormentos e desilusões (aquilo que forja o herói pronto a revelar-se na segunda parte), deixando no ar o abrupto do interrompido.
Confirmando-se esta efabulação de um louco, então por certo que todas as histórias coletivas de um estado eterno são antes memórias turvas, deslocadas, mal catalogadas por alguém displicente. Os livros não seriam mais proféticos, mas saudosos memoriais dos últimos dias, escritos como relato até ao momento em que se instalou o êxtase da felicidade. A partir daí mais ninguém se deu ao trabalho de registar em ata, de manter a coerência histórica. E para quê, perguntariam com razão. Só escreve quem sofre. O satisfeito esfrega as mãos vigorosamente, como quem faz lume, e olha em redor com o único intuito de mostrar a sua expressão de regozijo.
O que sentimos neste momento, no absorver diário desta vida esperançosa, é como admirar a imagem de um belo vaso cerâmico, sumptuosamente decorado com volutas e trinados celestiais. Imaginamo-nos um dia como os orgulhosos possuidores que o contemplam no salão, rodeados por um nevoeirozito de fina inveja dos ilustres visitantes que, falseando um interesse pelo estado da nossa saúde de ferro, ali vêm deixar uma lágrima salgada. Na realidade, esse vaso já o tínhamos desfeito em mil pedaços quando em crianças desobedecemos com uma bola de couro ao cinto ameaçador de um educador severo. O sonho da peça é um mero caco perdido nos escombros da infância, um estilhaço cravado bem longe de qualquer bisturi.
Que desarranjo, se assim for. Quantos inconvenientes isto irá causar a quem atear esta ideia, nos seus planos de conduta. É certo que os locais de culto darão belíssimos museus, cheios de recantos para os ecos do sussurrar. Quanto ao resto, ao que está escrito, é tudo uma questão de mudar, aqui e ali, o tempo do verbo.

20150212

Brufe, Terras de Bouro, Portugal

Refletido no ecrã da televisão apagada, o familiar torna-se soturno. As polegadas marcadas no vidro são o único sinal de contacto. O maple é ali um ditador empanturrado, com a manta de pelúcia por guardanapo. Não se destrinçam rostos. Todos são igualmente vultos e amortalhados. O programa é desolador. Em vão se tenta mudar de canal quando é retirado o poder de comando.
Pouco a pouco a mística da habituação instala-se e toma conta do raciocínio. As costas curvam onde não devem para se acomodarem ao inevitável. No ecrã moribundo continua a passar o reflexo de uma vida banal, sem inquietações, desfocada e plana. O espetáculo da vida irreal, seguido com um afinco cabisbaixo.
Este ócio rombudo cria espaço para pensar em coisas. A cabeça tomba e esvai-se num fio, enquanto a vida toda passa diante dos olhos... e pára, a retribuir o olhar.

20150119

Vale Seco, Alentejo, Portugal

O fiel tinha um feitio vertical. Se, por um lado, lhe pesava a consciência, por outro diluía-se a ver pacotilha da boa, na televisão. Amiúde carregavam-lhe um ombro com sacos de serapilheira cheios de arestas. Mas mesmo antes de cambalear, inclinava a cabeça para o outro lado e deixava nascer uma coisa nova, cheia de piada e ainda por embrulhar. O fiel era gingão mas equilibrado, apontando sempre para cima (nada de confusões com um metrónomo entediante).
Acontece que nestes últimos dias andava com uma sensação de mola lassa. A verticalidade a dar-se ao queixume. Começava a habituar-se a apontar em ângulo, como que esquecido do contraponto. Uma pontinha de ferrugem calcinava-lhe já o mecanismo.
"Isto não nos parece nada bom.", diziam.

20140723

Pamukkale, Turquia

Entre as coisas boas há um espaço. Uma estrada, com campos iguais dos dois lados. Terra arada, trigo seco e postes. Um som monocórdico de coisas repetidas passa continuamente pela janela de cada um, trazendo imagens de monotonia e cansaço. De vez em quando um camião caído na berma, um aceno fugaz ou uma coluna de fumo negro, soltam exclamações que logo ficam para trás.
A estrada parece não acabar nunca. A memória da última coisa boa começa a esfarelar e deixa um rasto de migalhas secas a que os corvos chamam um figo. Em vão se tenta encontrar o caminho de volta a essa coisa que sonhamos ter sido boa.
A espera que se vai amontoando faz doer os músculos e o corpo torna-se um lugar desconfortável. Anseia-se pela próxima coisa boa com tal intensidade que não se dá conta do tempo que se está a desperdiçar. Vive-se, entre uma lembrança fosca e um desespero de futuro, um tempo de envelhecimento. Vive-se assim até ao momento em que a próxima coisa boa não chega. E a espera acaba. E o corpo deixa de doer.
Barcelona, Espanha

O rapaz tinha a cabeça a rodopiar, de tão rápido que subiu pela árvore acima. De cada lado, considerando que uma árvore tem apenas dois lados, aproximava-se um tigre. Para o rapaz isto era o suficiente para lhe estragar a vida, uma vez que tinha 18 tarefas a cumprir.
Mil e uma ideias giravam-lhe na cabeça, que rodopiava. Para os dois tigres isso era-lhes indiferente. O mais velho, que trazia as certezas de uma vida de experiência, podia esperar para sempre pois sabia que nada podia mudar o que sempre aconteceu. Ao mais novo, de uma curiosidade infinita, nada o faria arredar pé até perceber o que iria acontecer ali.
A cabeça do rapaz rodopiava de tal modo que todo ele se sentia às voltas. Receoso pela sua vida, agarrou o ramo de cima, com a mão direita, apoiando-se num ramo mais baixo, com a esquerda. Tão pouco ele sabia que quanto mais pensava nele próprio mais descurava a noção fundamental de que a sua vida dependia inteiramente da robustez e da perenidade da árvore em que estava empoleirado.