20170314

Portel, Portugal

No tempo em que os animais falavam (os bichos, entenda-se, os irracionais... da zoologia, para que fique bem claro), nesses saudosos tempos idos, a franja emergente de humanos mantinha um silêncio incomodado. Ao recusarem-se terminantemente a emitir um grunhido que fosse, alargavam de dia para dia o fosso que os separava como espécie.
Muitas vezes, quando as tardes de domingo se apresentavam solarengas e não corria aragem de espécie alguma, os animais vinham sentar-se na berma do fosso a cavaquear sobre a vida e a observar as peculiaridades daqueles bichos mudos. Achavam imensa piada - e não há nada mais contagiante do que a gargalhada franca de um hipopótamo - ao gesticular nervoso daqueles seres pelados, às suas idas e vindas aparentemente desprovidas de sentido, aos amuos de costas voltadas e ao improvável equilíbrio nas patas traseiras. Um orangotango bonacheirão, que depenicava uma mão cheia de amendoins descascados, entalou-se de tal forma entre risadas que só um coice da zebra o fez cuspir para longe o lambuzado fruto seco. O amendoim galgou o fosso, desenhando um bonito rasto de saliva verde-viscoso, quase de cometa, indo aterrar aos pés de um humano que deambulava por ali. O humano olhou-o demoradamente. Conhecia bem a alcagoita, apreciava-a até. Um prazer trabalhoso... desenterrar e sacudir o ramalhete, passar agonias na seleção da melhor vagem dupla onde se espera encontrar dois grãos igualmente bojudos, quebrar o selo da casca e ficar com um cheiro a serapilheira nos dedos, esfarelar a pele morena que esconde a carne branca, e só aí, então sim, desfrutar do crocante. Agora, ali no chão, à mão de semear, brilhava um desses acepipes, pronto a comer. O humano apanhou-o lentamente, olhando em volta, e abocanhou-o com avidez. Enquanto mastigava de boca fechada, dignou-se a olhar para lá do fosso, para os animais. As criaturas selvagens estavam perfiladas em silêncio, estupefactas com este comportamento. O orangotango, numa perspectiva puramente experimental, cuspiu um segundo amendoim. O humano comprovou o teste e deu até um passo de aproximação ao fosso. Seguiu-se a zebra, nervosa com este momento histórico, que com uma fortíssima fungadela fez voar um punhado de grãos para o lado de lá. O humano apanhou-os quase todos. Quase todos, pois um segundo humano chegou-se à frente e surripiou-lhe alguns. "É característica da espécie!", explodiam os animais num frenesim, "Uma reação do coletivo consciente!", regozijavam-se mutuamente dando palmadinhas nos lombos. Assim delirantes, os animais correram a atestar bolsas marsupiais, corcovas, bochechas e afins com amendoins descascados e dispararam uma salva. A descarga varreu toda a extensão do fosso.
Os humanos, despertos do seu torpor sobranceiro, aproximaram-se. Alguns começaram a debicar os grãos espalhados pelo chão, deixando escapar uns cacarejos de prazer; um deles, sôfrego, teve até uma reação alérgica (inchou como um peru). Nessa ânsia devoradora esvoaçaram para o lado animal, em direção à fonte. Outros, perceberam que ao se destacarem com determinadas momices lhes calhava uma fatia maior. Macacada total, como seria de prever. E não satisfeitos com o maná, aproveitaram uns ramos de acácia bem posicionados, e balançaram-se eles também para o outro lado.
Um outro grupo de humanos, mais espevitado, viu ali uma oportunidade de ouro para criar uma fonte de rendimento estável de refeições grátis. Podiam até conjugar as horas de maior afluência com algumas atuações especiais e duplicar os proveitos; os elementos mais jovens eram particularmente apreciados e recompensados. E porquê ficarem-se pelos amendoins?
Enquanto assim congeminavam, acocorados em círculo, esfregavam as mãos empedernidas com tal soberba que estas soltavam faíscas de sílex. Como a savana estava no ponto, o fogo varreu a raça. Os animais, emudeceram.

20170223

Pico Ruivo, Madeira, Portugal

A moldava muda gritou um sinal da cruz ao ver o cartaz esvair-se pela rua fora. Violentamente arrancado pelos cantos, ainda se lia no gatafunho voador: "Desistam, o fim do mundo está demasiado próximo!". Tal manifesto, empunhado por um redemoinho de vento zombeteiro, deixava para trás um rasto de gente irritada. Gente que sempre desprezara tranquilamente os 'Arrependam-se!' mas que agora se sentia estranhamente incomodada com este 'Desistam'. Até o empregado de balcão da confeitaria, que estava cá fora a varejar o toldo empoçado com um toco de vassoura, ficou de tal modo furioso que nem se reconheceu (pelo reflexo na montra pensou que estava um tipo rancoroso a furar o toldo com uma caçadeira). Que desplante o daquele panfleto! Assumir a fraqueza humana assim, sem cerimónias. Imprimir-se como um arauto do comodismo das gentes; logo ele, ou melhor, aquilo, que não é mais do que de um papel de fraca qualidade, um reciclado de pastas conspurcadas, um purgatório de almas mortas sem valor...
Mas foi como se o gume da folha voadora tivesse deixado cortes finos em todos os dedos de todas aquelas pessoas. Uma dolorosa ardência, uma incomodativa persistência, moía fina e espicaçava o orgulho. Enquanto doía, por teimosia, ninguém desistiu.

20170203


Viana, Portugal

Há muitos, muitos anos avolumados em décadas, ordeiramente arrumados por séculos. Mas são muito poucos os que resistem ao empilhar dos milénios. Cada tempo que chega verga um pouco mais os ombros dos mais antigos até tudo não passar de uma imensa resma de gramagem fina. Depois chegam irritantes bactérias miudinhas que se agarram à pedante nomenclatura em latim para roer tudo numa mastigação persistente, passando eras inteiras a montes de excremento em pó. Montes de tempo perdido. Quase irrecuperável, não fossem os abraços, esses engenhosos enlaces.
Um abraço é uma coisa difícil de executar. Requer conhecimentos de coreografia cultural, para ser dançado na perfeição. Precisa de ser sentido para ser dado (apesar do que dizem certos cartazes gratuitos). Até um abraço de urso é profundamente humano. Abraçar é um momento de intensa vulnerabilidade. Num abraço bem dado dá-se uma larga exposição frontal e dão-se as costas à pancada forte. Oferece-se a jugular e a confiança. Demora tanto a decidir dá-lo como a soltá-lo (muitas vezes só com a infiltração de um pranto). Abraçar é vestir-se do outro, por instantes.
Mas abraçar a frio é como uma repulsa. Algo assim entre a vénia distante e o político em campanha. Não se consegue abraçar com a distância pelo meio. Não se dá um abraço num corpo de texto. Na lisura digital os dedos não sentem os ossos peculiares. O queixo não descansa num ombro amigo. É humanamente impossível 'mandar' um abraço. Não é coisa que se diga.
Dentro de um abraço o tempo pára, ajeita-se e fica ali, seguro.

20170110

 Roma, Itália

O sol de inverno faz mal à cabeça. Dá-lhe ideias. Põe-na a pensar em coisas de felicidade. Constrói um microclima emocional propício à formação de projetos. Um anacronismo que traz o nariz hibernado para fora da toca.
Atravessar um inverno pressupõe penitência. Abraçar o crepúsculo em arrepio, ler à candeia e desenterrar mortalhas. Quando a bola de naftalina se expõe à bola de fogo, sua o baço depressivo com uns bonitos reflexos circundantes.
Este sol destrói o equilíbrio entre o bem e o mal-estar, efabulando a vida como um refresco. E a realidade, assim provocada, retalia na forma de uma bela dor de cabeça.

20170104

Roma, Itália

De um ponto de vista elevado ganha-se distância e momento. Manobra e reflexão. Não é uma postura pedante, mas implica andar a pé. Ao longe, as coisas soltas sentindo-se observadas agregam-se entre elas e a outras coisas diferentes, formando algo maior e indistinto. A visão superior tem assim este efeito tão curioso quanto irrefletido de modelar a paisagem. Esta, por sua vez, retalia, condicionando a perspetiva. Neste continuum perde-se a noção do que é relevo e do que é relevante. Com terrenos tão movediços à frente, o olhar vai atrás em busca de conforto, surpreendendo-se com a lonjura do início. Perante tal desorientação e estado comprometido resta-lhe apenas aguardar pelo que foi desejado.

20161221

Roma, Itália

A loiça lavada escorre resplandecente. Deitada de bruços goza o latejar quente de um corpo desengordurado. O pio leva-lhe os pecados na água que some. Para trás fica uma história suja escrita em linhas de borra.
Com um gargarejo a tubagem aquieta-se. Peneiradas no ralo ficaram as coisas demasiado grandes ou demasiado sinuosas para serem esquecidas. Restos difíceis de digerir, nervos regurgitados. Tudo o que é ostracizado e teima em permanecer, ameaça assim a mais pura ideia de renovação. Felizmente que a crueldade deste crivo desaparece facilmente com duas pancadas no lixo.

20161130

Brufe, Portugal

O escritório disponibiliza aos funcionários um espaço de lazer no mais profundo das suas instalações. Convenientemente perto dos cubículos sanitários mas afastado o suficiente para não os sentir como próximos, este lounge equipado e funcional faz janela com o exterior. Daqui apreciam-se as vistas, fuma-se e sorvem-se intermináveis cafés. Quando o tempo permite entreabre-se uma frincha para libertar o fumo. Vista das traseiras do prédio a janela é como um tubo de escape de uma máquina a carburar em ponto morto. Um andar parado num engarrafamento de pisos. Como explica o pesado gradeamento abraçado à janela, este quartinho dos fundos é um espaço seguro. Mantém a ferros a integridade física dos de fora e dos de dentro. Por ali só se esgueiram as pombas. Por ali só se escapam as mágoas.
Mas a morte ronda perto. De facto, todo o horizonte da janela é tomado pela morte. Não a morte seca, arrancada de súbito e a frio, mas a morte composta. Encenada e vistosa. A morte como é imaginada pela vida temerosa. A morte reverenciada com cautela. Um vasto cemitério, dos mais ricos da região, empareda o horizonte. As cruzes e as lápides sucumbem aqui à opulência dos mausoléus. Uma cidade silenciosa na toponímia, gótica nos telhados, pisos e jardins, e viva no bulício dos gatos e das pombas. Só os vivos aqui se mexem como mortos. Figuras paradas e cinzentas, cabisbaixas e de expressão dura como a estatuária.
Da janela tem-se uma vista privilegiada sobre esta cidade. Da janela está-se condenado a ver a morte atrás das grades.

20161118

Portel, Portugal

A mãe, monstruosa, fustigava sem dó nem tom a filha diminuta, uma polegadazita. Lançava-lhe em vagas desvairadas os impropérios que guardava de uma vida castigada. Reforçava esta formação ao rebento com encontrões secos do carrinho de bebé onde carregava um descuido de poucos meses. A menina, de outro mundo e outro tempo, arregalava os olhos com força para não perder a infância de vista. Os seus olhos eram de um azul-frágil e doíam-lhe muito, assim abertos. Por eles, de polpa tenra e cristalina, entravam as dores do crescimento.

20161009

Maiorca, Espanha

É transbordante na forma como se meneia; como um colchão d'água imenso e perverso, como uma operação de barriga aberta. Mas disfarça essa inquietude cobrindo-se de celofane brilhoso. Por indefinição é um pedaço de água receado em terra por todos os lados. Por desconforto é uma quantidade imensa de tudo o que é molhado. Por mimo, um naperão de ilha. Se à superfície apresenta-se como respeitoso metrónomo cardíaco, sob um pasto de carneirinhos esconde leviatãs sem nome. A costa arrepiada aconchega as águas para mais perto de si e fica a espreitar o rodapé do céu, ao fundo; mesmo antes do fim do mundo.
Senhora da Hora, Portugal

Isto sim, é uma revelação. Um escandaloso ultraje! Então não é que a ilustre e veneranda ciência, a distante elite tecnológica, a tenacidade obscura da investigação, enfim, todos os promontórios iluminados que desde sempre ampararam a infantilidade humana seguem afinal e apenas, tacitamente, os vaticínios dos profetas literários? Nunca existiram descobertas promissoras, avanços geniais ou quaisquer resultados surpreendentes; apenas um seguir respeitoso, com o dedo sujo, dos manuais de instruções. As obras escritas deixadas pelos loucos, com os seus delírios impensáveis, têm sido os livros de cânticos entoados pelos pragmáticos do mofo, em secretos altares bibliotecários. Os homens da ciência revelam-se os exímios operadores de pantógrafo destes textos sonhadores.
Temos andado a alimentar pançudos. Doutos imaginários. Esses falsos ídolos devem cair! Voltemo-nos para a verdadeira ficção. Ressuscitemos os fantasistas, os trovadores, as figuras de estilo dos lugares comuns e os visionários. Contemplem-se os tolos da aldeia, os vendedores de banha da cobra e os iludidos. Se colocarmos a dedicação e a argúcia ao serviço de um espírito humilde podemos assim ler o futuro. Está escrito. 

20160922

Londres, Inglaterra

Tenho um colega meu arrumado atrás de uns livros, onde antes tinha uma pessoa amiga que deixei de seguir. Na prateleira de cima está uma caixa de rapaziada antiga que nunca mais usei e cheira a cedro. Um dia destes arranjei para lá umas cruzetas muito jeitosas, almofadadas a pot-pourri, onde vou deixando penduradas as situações que já não me apetece usar. Quando as afasto para chegar ao fundo, soltam belos tons de alfazema. Sempre que vou à gaveta das miudezas ela chia de surpresa, como se não me visse há muito tempo, e faz-se difícil de abrir trilhando uma peúga na ferragem.
O pó está a ganhar terreno. Começou por tomar as terras altas, onde a procissão não passa, e já se lança agora em diáfanas cascatas sobre os frisos laminados, quando suspiro. Tem caído também sobre uma camisola velha, cheia de borboto, que se está a tornar num excelente agasalho de lã.
Temo que, à custa de tanto fechar as portas para resguardar as coisas, o sombrio, o bafiento, enfim, o soturno se lá tenha instalado. É um inquilino que não faz muita companhia, mas também não incomoda. Acabo por me habituar a ele.

20160908

Phnom Bokor, Cambodja

"Está gente!", ouviu-se do interior. Mas ninguém batia à porta. "Gente!", repetiu. De novo, nada solicitado. Mesmo assim a porta abriu-se, generosa, e encontrou o pátio vazio. E um pátio enorme, registe-se. Daqueles onde tanto se pode encontrar um grupo de caminhantes felizes a pousar a fadiga, como uma família numerosa a jogar cumplicidades. Um espaço amplo de ar, puro de intenções, bem marcado por emoções cáusticas e devotas, horas de apatia e segundos sentidos. Curiosamente, como quando somos pequenos e tudo parece descomunal, relação que se inverte com o crescimento, também aquele pátio parecia agora bem menor, assim cheio de nada. Quase apertado. Mais oco que vazio, até. Viam-se com nitidez os seus limites, onde antes o olhar se perdia... É melhor varrer as folhas!

20160903

Arouca, Portugal

É no cimo das árvores, nos ramos mais altos, que se sente o mover da terra; que se antecipa o curvar do horizonte. Quem do solo olha para cima, para as copas majestosas, assombra-se ante o vagar com que se movem. Como gigantes que são, desprezam o tempo miudinho. Encaram-nos sem gravidade. E os homens lá trepam às árvores para colher esse tempo. Apressados, fazem-no quando ainda não estão maduros; e quando ficam, deixam de crer.
O tolo que trepa ao cesto da gávea, sente-se como um barão. As ramagens lentas fustigam o madeiro deixando na língua uma poalha de esporos. Da boca aberta rebentam coisas novas. Gota a gota as fontes suadas regam as raízes que o sustentam levando-o mais alto. A certa altura, o chão deixa de fazer sentido e torna-se subterrâneo. A fusão das copas define a linha de terra e respira-se daí para cima, com o céu mais achegado.

20160830

Petra, Jordânia

O menino mau empurrou os outros meninos contra o carrossel em movimento. Não satisfeito, lançou baloiços contra os que tentavam fugir. Choradeira, esfoladelas em barda, protestos e reuniões de pais. Ficou decidido que usar uma expressão carrancuda é moralmente ofensivo e que, doravante, todos os meninos com cara de mau estão obrigados a usar o sorriso consensual.
As autoridades mais declaram que só assim se pode garantir uma eficaz aparência de segurança no parque infantil; nem que para isso se rasguem alguns desses sorrisos à bastonada, disseram.
Tudo isto deixa, nos meninos maus, um esgar de satisfação.

20160821

Zambujeira do Mar, Portugal

O pedreiro toma a junta de um perpianho bujardado da Gralheira. Usualmente um homem cinzento, torna-se brilhante quando levanta muros. Muros perenes como fojos, que as crianças gostam de trepar e sentar no topo, a roer uma côdea sobre o território. Muros delicados como longos carreiros de formigas onde o rebanho se encosta seguro. Muros finamente pautados a maça e escopro - muros bons, que também os há - que contam capítulos maiores; mais altos do que a secura das sebes, apaziguadores das quezílias entre copas, frescos como seixos mergulhados. Costuma ele dizer que "um muro não se constrói, um muro é o juntar das histórias de pedras soltas que há muito esperam a sua vez". Os seus muros mostram os dois lados do sol: o da queima e o da sombra. São miradouros, lugares de portões, esconderijos de coisas de amor. Muros que se saltam para fugir dos monstros ou para roubar um beijo.
Assentava, então, o pedreiro um perpianho, quando foi abordado por um ouriço-cacheiro, que o saudou respeitosamente. Em seguida, o pequeno mamífero formulou um longo preâmbulo sobre a arte da pedra, o refinado trabalho daquela obra em particular, a destreza exigida pelas ferramentas de lei, enfim, seria quase um hino não fosse a ausência notória de menção às musas. No final, amaciadas as arestas, o ouriço pigarreou um pedido. Que lhe daria imenso jeito se, precisamente naquele local, o magnífico muro deixasse uma insignificante fresta que franqueasse as suas deambulações diárias.
O pedreiro, bem, ficou petrificado. Boquiaberto! (ficou boquiaberto mesmo antes de ficar petrificado, ou não faria sentido nenhum; um zangão foi até recolher-se por uns momentos no interior da cavidade bocal, encostando a cabeça cansada a uma obturação de compósito) Assim imóvel e coberto de pó de pedra o homem mais parecia uma estátua de jardim; daquelas que representam a têmpera de uma profissão nobre e que são colocadas na zona mais afastado do bosque, onde trepadeiras laboriosas rapidamente as transformam em arbustos. Estava estupefacto! Nunca na sua vida tinha presenciado semelhante estranheza. Uma fresta no seu muro!
Nazaré, Portugal

A cidade resolveu tirar uns dias de férias. Padecia de má circulação e as costas curvas davam-lhe um ar recôndito. Sentia o interior todo revolto; gases, muito provavelmente.
Tinham-lhe falado muito bem de uma vilazinha pitoresca nas montanhas, servida num lago de trutas. Imaginou-se logo lá, a refletir sobre o espelho d'água; a tomar o refresco mais usual, na praceta; a saudar os locais com aquele ar prazenteiro que é o de quem desfruta.
Sem mais delongas fez a mala, trancou tudo e sacudiu os cerca de 550.000 habitantes para os arrabaldes, antes de partir.

20160727

Barcelona, Espanha

A respeitável casa da esquina tinha a esquina em pedra boleada. Quebrando assim a aresta viva dava um ar gentil, uma ajuda ao esforço de dobrar o gaveto pousando um braço amigo sobre os ombros de quem passava. A casa era carinhosamente conhecida na vizinhança como a 'casa das muitas moças' pelo encavalitar de gaiatas sorridentes - não menos do que oito irmãs - emolduradas pela fresca cantaria das janelas do primeiro andar.
Conta-se que num fim de tarde outonal, daqueles em que se sente o esforço da brisa a puxar a chuva, as oito irmãs quase deslocaram os peitoris de ferro forjado tal foi a gargalhada que as atravessou de rompante. Deu-se o caso de por ali passar uma santa senhora, de seu curioso nome Miclicoxcletscluz, mulher dada e alegre mas muito atreita a padecer de secura da garganta. Amiga sincera do néctar espirituoso, fermentava essa relação com assiduidade. Foi num desses momentos de comunhão, envolta numa aura de vapores etílicos, que tentou dobrar a esquina da casa das muitas moças. Ora se a linha reta já é um desafio aos humores toldados da meia idade, uma tal inflexão do passeio torna-se um caso de violência. A senhora, que trazia a parede como muleta, vê este apoio fugir-lhe a 90 graus deixando-a à deriva na corrente de ar. Assustada, emudeceu. Sentia o chão a oscilar lentamente, como uma ponte pênsil. O braço de apoio tateava o ar como um mimo enquanto o arco das pernas periclitava na corda bamba. Prevendo a tragédia, persignou-se e em grande desespero clamou: "Ai, carago... é do bento... que eu caio!". O baque do gargalhar das moças fez o resto.

20160507

Seia, Portugal

(a new leaf on Russell's Fall)

Antes que as raízes arruinassem o tapete os pais
cortaram a golpe de machado o filho
plantado no meio da sala.

Enterraram-no num canteiro do pátio dentro
do próprio tronco.

Aguardam um rebento novo na primavera.

20160504


Malhão, Alentejo, Portugal

Ah, que felicidade imensa se retira de uma caminhada antropomórfica. Sentir-se bravio no deambular cabreiro pela mata virgem. As levadas connosco, as fileiras mudas de fetos novos. Ali, os cornos de um diabo popular, mais além, a cabeça petrificada de uma velha sem corpo. Que rota burlesca. Um eucalipto com as folhas em pé franze-me o sobrolho e a barbela. O peso do meu passo quebra os galhos como ossos.
Procuramos o humano nos bosques quando o urbano não é mais do que um emaranhado de sebes.
Wadi Rum, Jordânia

Uma fatia fina de talo de aipo parece um verme da couve, o que não é de estranhar. Sentindo-se aventureiro o verme-aipo começa rastejar pela banca em direção ao jardim. Um jardim autêntico, não uma dessas coisas áridas e meditativas, trabalhadas a ancinho. O verme-aipo revela-se muito lento nestes primeiros rastejos. Chega ao canteiro já noite cega. Um escaravelho-da-palmeira, entediado com a dieta tropical, vem a rolar uma bola de esterco na sua direção.
Vamos deixar o suspense matá-los a todos.

20160125

Pulo do Lobo, Mértola, Portugal

Devia ser um bicho. Acho... É que mudava de cor e de alma a cada piscar de olhos (e quando se observa algo assim majestoso os olhos piscam como um telegrafista); mas devia ser, um bicho.
Uma vez pareceu-me ver-lhe oito patas incansáveis, duas antenas atentas e um abdómen prenhe de coisas não terrenas. Simploriamente pensei numa formiga trabalhadora, cujo toque muda a vida com que se cruza. Depois ouvi o o canto. Distinto, acutilante e contínuo. Um canto que fazia querer prolongar a noite. Uma cigarra? Um híbrido impossível?
Entretanto morreu.
(Parece que ainda o estou a ver; e a ouvir.)

20151229

Capadócia, Turquia

Exercito-me. Os dados estão lançados. Como o explorador Brito Capelo validei a minha resolução de tomar a viagem. A linha traçada leva-me por Matosinhos sul, invocando paragens quentes e tribos selvagens, hoje colonizadas pela corrosão vista do mar. Dizem que por ali perto se reúnem, algures numa câmara de Matosinhos, pequenas fações de eleitos, congeminando espalhar cultura eclética e boa mesa a camuflar o desleixo das calçadas.
Todas as coisas que passam, ficando-se pelo alcance da vista, tornam-se criaturas de exposição. Existem apenas enquanto coleção catalogada, parque de real sentido, mas sem toque.
Logo após, a nota dominante a Pedro Hispano mistura as dores urgentes e as agonias prolongadas com uma leve fragrância de alívio. Mas nem sempre se a sente. Muitas vezes é-se obrigado a passar do nivelador estádio do mar para um estádio de insensibilidade couraçada. Do tipo que desafia o impensável, que faz manguitos à tormenta; como chalupas de Vasco da Gama.
Mas eis que entra uma força no habitáculo. Uma senhora da hora mágica, do despontar da luz, carregando um pesado fardo de peixe vivo, em morte lenta. De um recipiente salgado a mulher vai-os aspergindo com uma parca bica d’água. Duas, três, sete bicas são deitadas, entre batismo e extrema-unção. Dos mais fracos, dos que ficam sob o peso que enche a canastra, sobe um viso medonho que acorda os estremunhados e leva os pertences a se recolherem mais para o fundo dos sacos.
No horizonte forma-se agora uma cadeia urbanosa de blocos pouco sociais, um Ramalde algo sujo, um dos últimos estertores dos arrabaldes abafados pelo falso civismo. Mas, ainda assim, o coração aquece face aos alinhamentos francos das habitações fabris de outrora. Pequenas e térreas, ostentam ainda um orgulhoso brilho vitrificado. É fácil imaginar cada interior cheio como uma casa da música que só uma família compõe, à chegada tardia do operário.