20140320

Matosinhos, Portugal

A praia como que arqueou uma espinha dorsal. Imaginem-se meia dúzia de pastores berberes - quase não os vemos de tão dissimulados que são - a encaminharem uma fiada longa de indolentes dromedários. Bossas e corcovas, corcovas e bossas. O horizonte ficou todo desalinhado. O mar, qual castor cauteloso, empurrava em direção à praia todo o tipo de galhos, recipientes e redes, tentando criar um dique ao topete das dunas.
Os montículos de areia pareciam intransponíveis para os olhos cansados de quem os observava da esplanada. Mas não para as crianças. Cansadas de ver os seus escorregas com a distância de uma perna, os baloiços asfixiados a esbracejar as correntes, os cavalinhos do balancé como pequenos monstros do Loch, trepavam pela falsidade destas dunas e lançavam-lhes arpões, ao longo dos seus costados. Era admirável ver estes pequenos heróis resolutos, tão seguros da sua praia, do seu lugar. Inquietos e nunca quietos, como tudo deveria ser.

20140209

Matosinhos, Portugal

A Fina, a Maria Casota, o Tone Tarré, o Caga Nel, a Alice Tremoceira, a Maria Caniveta, o Zé Foguete, o Chico Caramelha, a Micas do Pucho Grande, o Quim Chaneta, o Alexandre Nevoeiro, o Dá Pão, a Mulher Aranha, o Mata Toninhas, o David Espanhol, a Micas do Pito-Doiro, a Lola Vila Cova, a Maria Perceveja, a Maria Fumega, o Albino Casota, o Morcela Sapateiro, o Conceição do Polícia, o Ti’Riscas, o Virgolino Taineta, o Tone Manco, o Álvaro Riscas, o Manel Vila Cova Bicho, o Tone Fortuna, o Torrilho, o Toninho da Brasileira, o Tarrafa, o Zé Caravela, o Rifão, o Zé dos Gatos, o Ti’Fim da Naviça, o Quim dos Gatos, a Rosa Penisca, o Carlos Remelgado, a Margarida Manquinha, o Serafim Dentinho, a Carolina do Malhão, a Mena Viçosa, o Cangalhas, o Escamado, a Rosa Casebre, o Chico Facas, a Micas do Cigau, o Clemente Polícia, a Idinária, a Adriana Palhaça, o Penegia, o Tibi, o Zé Avança, o Chico da Aguda, a Gina Barriguinha, o Mário Sabeler, o Cartucho, o Camilo Dente de Ouro, a Guilhermina Rata, o Joaquim Pipa, a Carga de Ossos, o Xixo Granja, a Ti’Rosa Barbuda, o Ti’Hernâni Fanata, a Ti’Rosa Cuca, o Maganinho, o Zé Lulo, o Caramelha, o Rodosindo Rajão, o Zé Batota, o Eduardo Maresia, o Jaca, o Domingos Lamarão, o Barata, o Reguengo, o Patela, a Albertina Maganinho, o Inocêncio da Cunha Folha, o Vinagre, o Rói Orelhas, o Manuel Carapuço, a Irene Valvoeira, o Raúl ‘Cata-Conas’, o Rema Cocho, os Penisca, o Ti’João da Mulata, a Artura, o Ernesto (o Perigoso), o Felisberto Moucho, a Canzona, a Henorina Samuela, o Tone Marenteiro, o Chilha, o Teófilo Minhoto, o Tone Picado, o Ti Gigas, a Ti Luísa Cerguilha, o Delfim de Pinho Branco, o Lázaro Alfaiate, o Albano Fumega, o Manuel Fuma, o Ti António Paroleiro, o António Pirecas, a Daviana, a Elvira Muda, o Zé do Bendito, o Ti Alfredo Garrafinha, o Ti Purgatório, o Laranja, a Ti Rosa Tota, a Ti Bina Santos, a Mila Ramona, o Quim Changai, a Ti da Hora Cebolas, a Fernanda do Vento, a Ti Desterra, o Inocêncio Rato, o Chinchinha, o João Côca, o Lopes Poeta, o Liras, os Gruas, o Tone da Melindra, o Mata-o-Preto, o Caralinda, os do Diabo, as Fragateiras, o Francisco Carangueja, o Serafim Saragoça, o Maravalhas (Agonia da Pintada), a Ti Maria dos Olhinhos, o Óscar Fangueiro, a Graça Garrana, a Joaninha de Lavra, o Ti Ramiro D’Aluai, os Chatinhos, os Mil-Homens, os da São Benta, o Manuel Marafona, a Infância Gomes Remelgado, a Antonieta Cheta, o Chico Banheiro, o Dolmundo, o Tone da Zagala, o Dagomar, o Nocas, a Felisbina, a Zulmira Festas, o António Preu, o Perinha, o Chico da Afurada, o Alfredo Salapata, o Sete Tijelas, o Quim Folhetas, o Gravatinha, o João Buca, o Ti Libório, o Harmengado Lucas, o João Rei Bandalho, o Ulpiano Nascimento, o José Cheta, o Zé Bife, o Quim d’Americana, o Taineta, o Cancujo, o Virgolino, o Valongueira, a Zaura, o Zé Cartola, o Gavina (Ti Moreno), o Tomás Bicho e a Anna.
Todos se encontram na zona da Maré. Descem a ribanceira a trocar os nomes que só são de cada um. Foi lá que me passaram pelos olhos.
(uma recolha inspirada no livro Uma Praia d’ela, do NAPESMAT)

20130909

Camden Town, Londres

- Tum-tum-tráa! Tum-tum-tráa!
O coração do baterista quase lhe  saltava do peito, ao ressoar das peles. Todos os pezinhos destros batiam em uníssono, acompanhados por uns quantos canhotos, num Dominium Theatre completamente esgotado. No palco, uma história apaixonante de amor pela música passada num futuro distante. Na plateia, uma história apaixonada de amor pela musa, acontecia no presente.
O virtuoso baterista, acompanhado por uma chef de requinte, estava visivelmente emocionado, conquistado por muito mais do que o estômago. A boémia dos últimos dias, a rapsódia de sabores e odores por onde tinham rodopiado, tinha deixado marcas fortes numa relação em crescendo.
Ainda no dia anterior, depois de revolvidas as terras férteis de Covent Garden e exorcizados os anti-cristas de Camden Town, comungaram à mesa itálica de um britânico onde pontuavam as olivas. A experiente chef desfazia-se em sabores, mas perdia a mão ante a velocidade a que o peito batia. As mil e uma maneiras de preparar o pitéu encavalitavam-se de tal forma, que o resultado era um verdadeiro prato de choque. Mas o bom gosto saía sempre ileso da escaramuça. O baterista, um perfeito estarola mas também um incorrigível romântico, podia devorar timbalões de conduto que ficava sempre com um travo de paixão entre os lábios. Um caso de pão e manteiga, sem dúvida nenhuma.
Thunderbolt and lightning! Assustador. No teatro, com a multidão ao rubro, os dois lançam-se em delirantes efusões de alegria, movendo-se como um só. Naquele mar de corpos, navegam como figuras de proa. Os cânticos são memoráveis e todos os sabem de cor. Não sendo iniciáticos, fazem passar ao nível seguinte. Ambos sentem que o ritmo é, agora, comum, e o gosto mais apurado.
Um verdadeiro espetáculo acontecia ali. Chamava-se qualquer coisa como "You will rock me".
Ilha da Madeira, Portugal

Há matérias extremamente combustíveis. Substâncias que exigem um manuseamento cauteloso. Qualquer decoradora capaz, como aquela sobre a qual nos debruçamos agora, incluiria nesta categoria as organzas, os tafetás, o teixo seco, o papel machê e os corações soltos. Quando perto destes materiais há que usar da máxima prudência no que diz respeito ao despoletar de faíscas. Sob o risco de perdermos o controle das nossas vidas.
Ora, como toda a gente sabe, um comentador televisivo, habituadíssimo a opinar sobre assuntos do foro alimentar, passa ao lado destes assuntos altamente inflamáveis. Figura pública e habitué dos media, destila confiança quando aponta o dedo ao refogado ou aplaude uma sopa bem feita. Mas em tertúlia, em amena cavaqueira, e quando a temperatura sobe, tende a desvalorizar os vapores etílicos da componente alcoólica de uma sangria, esquece o quão fervilhante uma cantiga se pode tornar, e lança até, pobre inocente, ocasionais lampejos.
Foi exatamente isso que acabou por acontecer, nessa noite, em Vermoim. O discurso inflamado do incauto comentador, induzido, certamente, pela envolvente altamente estética da presença da decoradora, só não resultou numa desgraça, devido à providencial existência de um magnifico espelho de água no local, que arrefeceu os ânimos.
No rescaldo, apurou-se que a centelha não esmoreceu. Pelo contrário. Lançou-se em rastilho artesanal, alimentada pelo bombear daqueles dois corações quentes, atravessando uma vasta feira de emoções.
E a coisa não ficou por aí, como juram a pés juntos várias testemunhas oculares, ouvintes atentos e outros fulanos e sicranos, possuidores de narizes extraordinariamente farejadores, que usualmente acompanham as vidas mais interessantes do que as suas. Foram assinaladas algumas labaredas fulgurantes a iluminar os vetustos jardins do Mosteiro de Tibães, originando uma tal desordem Beneditina que até o protegido azevinho e a bela aveleira se ruborizaram, deleitados.
Mais tarde, nesse dia, num recôndito ristorante italiano, ouviu-se um pedido sussurrado. E não foi pela suculenta lasagna nem pelo doce tiramisú.
Falésia, Albufeira, Portugal

Das terras de Olhos d’Água erguia-se uma colossal falésia, abrupta e amarela, que só sossegava nas costas de Rocha Baixinha. Pelo caminho, este muro sem vergonha separava as areias dos pomares, as serras das dunas, as gentes das ondas. De uma falésia assim, não se pode falar sem baixar um pouco a cabeça, em respeito. Só um punhado de tolos a sobe apenas como miradouro. Quem a acompanha ao longo das suas corcovas e fendas, de coração puro e vista larga, é que vive verdadeiramente.
Sem nos afastarmos muito da narrativa, aproximamo-nos de um dos trilhos que penteia este maciço altaneiro para observar cuidadosamente o personagem que aí recupera o fôlego.
Pelo traje cingido, alvíssimo, identificamos um nobre ciclista montado num poderoso cavalo negro. O suor escorre lentamente pelos flancos metálicos da montada. Quem ousasse levantar os olhos, lá de baixo, ficaria cego com o brilho raiado de dois sóis. Um sorriso dança-lhe nos lábios secos e as narinas dilatam ao odor das alfarrobas; não tanto pela sensação de vitória como pela de comunhão.
Mais adiante, ainda fora de vista, contornando a chusma de figueiras, saltando a grade ferrugenta e logo após o aluimento da arriba, alguém se aproxima em passo corredor. É, nada mais nada menos do que uma professora a aprender estoicamente os caminhos da erosão. Resoluta, decora os relevos e disseca cada tronco seco, enquanto dá notas de dificuldade a cada inflexão de rumo. Mas a falésia, caprichosa e ciumenta, estende-lhe um ardil. Lança-lhe paisagens magníficas ao mesmo tempo que a surpreende com ramos baixos; sopra-lhe odores doces e inebriantes enquanto a rasteira com raízes espinhosas. Tudo isto a professora assimila e resolve. Mas a luta é desigual, a falésia imensa e a criatura humana frágil.
Uma simples depressão, no terreno, uma fendazita recém-aberta engole a carne viva, torcendo o pé de apoio. Uma aguilhoada dolorosa atravessa-lhe o corpo, soltando-se pela língua num grito desmaiado. O corpo inerte rola por entre as estevas até uma poça de areia fina banhada pelo sol. Ali fica, sem sentido.
Uns instantes depois, numa semi-inconsciência, sente uma sombra a refrescar-lhe a pele e o corpo a ser içado para a estabilidade de um colo firme. O suave movimento rolado do alazão fá-la abrir os olhos. Na segurança de um abraço forte, a cabeça pousada no ombro do ciclista, a professora vê a falésia derrotada a ficar para trás, fugindo dos dois, numa velocidade furiosa.
Pulo do Lobo, Mértola, Portugal

A Praça da Cidade Velha movia-se com a precisão de um relógio. Uma quantidade astronómica de pessoas desfilava pela neve em círculos aparentemente aleatórios, marcando a cada passada silenciosa e a cada encontrão respeitoso um compasso da batuta do tempo, esse velhaco.
Um observador mais atento à minúcia, digamos, com predileção por mecanismos e automatizações, podia-se deleitar a constatar, do alto da torre, quatro tipos de tempo: um tempo comum, como aquele que é gasto por um assobiar de mãos nos bolsos ao chutar uma beata, um tempo boémio, de vagos contornos formados pelo adensar dos vapores etílicos na escuridão, um tempo variável, que é aquele que nos diz o velho semeador ao olhar o céu, e um tempo estranho, como quando nos querem impingir o que demora a chegar até outra galáxia, como se existisse tal coisa medonha.
Ora esse mesmo observador, chamemos-lhe Orloj agora que temos alguma intimidade, iria certamente intrigar-se e tamborilar os ponteiros, ao aperceber-se das duas figuras que acabavam de entrar na praça.
Uma delas, esguia e altiva como a numeração romana, era certamente bailarina; as marcas que deixava na neve soavam a redemoinhos e ondulações tranquilas. Tinha até o seu próprio tempo, o que era inclassificável. Quem se acertasse por ela, perdia a noção da realidade, quem teimasse em dar corda ao siso nunca lhe poria os olhos em cima.
No entanto, esta figura à parte, e por motivos que nem Mikulas de Kadan seria capaz de estruturar, estava secretamente ligada a uma outra. Estudando com instrumentos próprios, reparamos que, nos seus volteios elípticos pela praça, esta bailarina formava um padrão de rigor centrado numa figura circunspecta que caminhava em passo sereno. Pela naturalidade da postura, corte do sobretudo e traça do nariz, podia-se afirmar, sem risco, que estávamos na presença de um nutricionista.
O seu olhar calmo denotava a confiança num plano elementar, mas a cada corrente de ar perfumado, as suas tabelas confundiam-se, os horários sobrepunham-se e um exame mais aprofundado indicaria claramente uma falha no metabolismo. Indiferentes a estas questões intemporais, as pessoas continuavam a desfilar.
Nisto, o galo cacarejou. Era chegada a hora cheia. Todos os olhos se levantaram para o desfile dos 12, numa confluência dos quatro tempos.
No meio de tantos, de olhar perdido, apenas dois se encontraram.
Portel, Évora, Portugal

O corredor nada vigorosamente pelo mar de gente que enche a Route de Suresnes. De vez em quando uma vaga de suor bate-lhe contra o peito, travando a passada certa com que vem atravessando a cidade engalanada. Não fosse o bolso interno dos calções picar-lhe os quadríceps sempre que alça a perna direita, podia considerar-se o homem mais feliz do mundo.
Do outro lado da multidão as coisas correm bem mais devagar. Uma maratona de compras escorre lenta como lava pelas montras da Avenue Foch. A empresária abre caminho, atenta às oportunidades da capital luminosa. As mãos frias lembram-lhe o esquecimento das luvas na mesa atafulhada do ‘Le bar à Champagne’, quando saiu disparada, sem saber muito bem porquê. Assim, vai dando palmadas nos sobretudos felpudos à sua frente, abrindo caminho e ativando a circulação.
Próximo do fim do calvário o corredor tropeça e - cruzes! - quase cai redondo no chão. Valem-lhe uns reflexos ímpares e uma guinada na coxa para o espicaçar de volta à prova. À sua volta o túnel de algazarra adensa-se e os adversários rareiam. O coração apertado parece explodir ao vislumbrar o fim da provação. No entanto, sente que a prova não termina naquele traço na estrada. Sabe (o inexplicável tem destas coisas) que tem de ir mais além, se quer aliviar o coração, e a coxa.
A empresária arregalou os olhos. Por instantes pareceu-lhe ver uma oportunidade interessante, alinhada no vazio criado pela movimentação das cabeças. Por instantes apenas, logo engolida pelo ondular das gentes, que abrandava, formando uma parede ruidosa. Habituada a ultrapassar as dificuldades, aninhou-se atrás de um casal nórdico, deu um impulso, rodopiou por entre dois casacos de marta-zibelina e um polícia distraído, saltou graciosamente sobre uma grade amarela, acabando por aterrar numa imensa clareira, junto a um traço forte no chão.
Esgotando as últimas vidas, o corredor ultrapassou a própria passada num anseio poderoso de ir além daquela meta. Mas no preciso momento em que a calcava, algo de extraordinário aconteceu; uma daquelas coisas que marcam, essas sim, o final de uma provação. Através daquela massa humana que gritava, irrompeu, enérgica, a mais extraordinária criatura que jamais tinha visto. Ofegante e suado, ante tal recompensa, caiu de joelhos sentindo uma ferroada no músculo. Levou a mão ao bolso e retirou de lá um magnífico anel que brilhava quase tanto como os olhos da empresária.

20130906

Ilha da Madeira, Portugal

Hoje distraí o gajo sisudo com umas azeitonas temperadas. Passei uma palheta ao calmeirão enxofrado que me fazia a vida negra, e o homem caiu de fuças num jasmim perfumado. Havia ali um sacana dum tristonho que não me largava; acertei-lhe o passo com um trautear alegrete. Quando confrontei o sujeito problemático com uma rabanada de vento leste, ele lambeu os beiços e não disse mais nada. A um canto lúgubre estava o tal fulano amuado; foi só mudar o registo para um canto mais do tipo ‘barbershop’ que ele traçou logo um desenho mais animado. Recostados no murete amarelo, um grupo de tratantes com a mosca franziam as sobrancelhas. Mas nada que uma boa depilação com cera de abelha não resolvesse. Saíram dali a sacudirem-se, levezinhos.
Dei por mim sozinho. Que agradável.

20130904

Funchal, Madeira, Portugal

O carreiro de formigas seguia ordeiro, como uma lombriga preguiçosa. Uma fila para lá, uma fila para cá, aqui e ali uma cerimoniosa marrada, enfim, tudo o que uma sociedade funcional e acomodada poderia desejar. Nunca faltavam belas migalhas a fazer vergar os costados das laboriosas. Que contentes insetos, que enorme felicidade enchia o peito destes seres insignificantes.
De vez em quando, um galho em forquilha caía de um carvalho próximo, entroncando o trilho; outras vezes, um seixo liso e intransponível testava a progressão do carreiro. E houve aquela vez - assustadora! - em que se depararam com uma duna de cal viva quando tentavam subir ao muro, pela tangerineira. Em momentos como estes, as formigas, tenazes, enchiam-se de submissão, baixavam ainda mais a cabeça e passavam ao largo do problema. Era uma vida perfeita, admirável.
Um dia, alguém com uma mentalidade infantil, alguém cruel e galhofeiro, pisou deliberadamente e com grande violência, o meio do carreiro. Duas fileiras destes belos seres foram imediatamente consumidas pela pressão, numa área correspondente a uma sola. Nas imediações, num perímetro de cerca de sete centímetros, voaram corpos aos pedaços, atingidos pela onda de gravilha. Daí em diante, e ao redor, foi o caos total. A compostura, a ordem e a beleza da simplicidade deram lugar ao aleatório, o que, como todos sabemos, conduz ao fim da civilização. As filas de formigas entraram em movimentos de enxame, induzindo o pânico em esquema de pirâmide. Rapidamente, o que era antes uma sociedade ignorada, de tão enfadonha, passou a ser referenciada como vergonhosa, por uns, e repentinamente apetitosa, por outros.
Enquanto o pé ali ficou, ameaçador, o comportamento destas formigas, que sempre tinham evitado o confronto com grande sucesso, foi o pânico organizado, a abnegação como cartilha e o lamuriar pelos cantos. Esta nova postura inflamou pelo carreiro de tal maneira que até as formigas de longe, ignorantes da situação esmagadora, passaram a comportar-se como ratos.
E, afinal de contas, era tão fácil terem trepado pela perna acima, em fila indiana, e quebrado o sujeito com irritantes comichões.

20130720

Esna, Egipto

O cavalinho de pau era um santo. Bem empalado numa mola vermelha, tinha já orelhas de coala, de tanta cavalgada. No entanto, a dor era de somenos importância, face à humilhação. Tinha-se tornado - tornaram-no! - no equídeo mais indeciso do mundo. Sempre que decidia avançar numa certa e determinada direção, algo, ou alguém, o forçava no sentido contrário. Quando acedia em recuar, logo o esporeavam num ataque decidido. Isto repetia-se até à exaustão.
No início ainda culpou a mola vermelha, mas, sabia-o agora, esta era apenas um pau mandado de quem o montava às cegas. E havia-os de todos os tipos. Aos mais pequenos e leves de espírito ainda resistia, agarrando-se ao horizonte com firmeza. Mas os maiores e mais pesados, ah!... a dor, o sofrimento; vergavam-no até vislumbrar uma nesga de céu limpo, lembrando-lhe o empinar nos prados do planalto, para, de imediato, lhe afundarem o focinho numa areia abafada. No dorso, tinha uma sela de suor. Que suplício tão tolo.
Na altura certa (talvez um pouco cedo demais) foi canonizado e empalado num altar.
De vez em quando, sente saudades de uma vidinha mais agitada.

20130419

Matosinhos, Portugal

Ah, viver dos pensamentos de alvorada.
As colheradas de possibilidades. Naqueles instantes não existem dúvidas nem esgares.
Mesmo antes de os olhos se darem à luz, vemos o gigantesco paquete de sorrisos e portas escancaradas. Nada dos papéis ásperos da vida real em que atuamos.
Viver desses, e apenas desses pensamentos, passando a pesadelo o restante dia escuro.

20130201

Sitges, Espanha

Bateram mais forte 3 vezes,
os 2 corações.
Era 6, e ficou marcado.
À primeira vista,
não deixaram de se ver à sexta.
Depois descansam.

Tem dois.
E não podem fugir das raízes do mar
nem do suor da vida marginal.
Os metros não são quadrados
e a única saída é entrar.
Não é um apartamento,
é um ajuntamento.

Apoia-se num pedestal
e move-se num deslizar felino.
Pontos de luz unem, tão fortes,
cada camada de assombro,
que só a custo
os olhos a reconhecem.
Até o colosso
se torna fraque.

Daqui não se vê
o outro lado do mar;
aquele onde a terra acaba
e o plano começa.
Lá, onde a costa é morna
e a lua doce como melaço.
Além, de onde a memória nunca volta
e onde nunca regressamos.

O recheio insufla o enchido.
Cada peça do serviço
pousada a passo,
sem a quebra de cabeças.
Em algodão fresco
repousa o trem.
Em vida com tantas pernas para andar,
calcemos-lhe uma boa sapatilha.

Um grande afago
de chocolate e pétalas
deixa um brilho no anelar.
Desenha-se um círculo,
um abraço connosco dentro.
Esta aliança não se cruza nem se prende;
envolve-se, paralela.

O jardim inclina-se, chorão,
em rebentos de alegria.
A primeira pedra lança o mote
e o granito protector aconchega a reunião.
Cheio de esperança,
o verde aguarda as luzes da noite
para se tornar imponente.

O coração
como um polvo sôfrego.
Abraços e regaços.
Aos que guardam, com a vida,
as fronteiras d’aliança.
Aos que estão sempre
onde olhamos.

O bombo estremece o peito.
O peito rebenta de alegria.
A alegria pega como rastilho.
O rastilho ensopa nas lágrimas.
As lágrimas caem nos copos.
Os copos enchem-se de calor.
O calor estala o bombo.
O bombo estremece o peito.

20130107

Ta Prohm, Cambodja

- Trouxe-te um boi morto.
- Agora não posso arcar com isso. Estou a implantar uma horta, ao invés.
- Enterra-o até ao cachaço, então. Os cascos darão belas trepadeiras. Vai cobrir isto tudo.
- Hm, dava-me jeito ocultar esta ideia revolucionária. Vá, deixa-o aí bem preso que eu tenho umas vitelas a florir em breve.

20130104

Funchal, Madeira, Portugal

No meio da ponte, debruçado no peitoril, um tolo rilhava um talo de aipo. Os sucos fortes do legume faziam-no salivar em fio sobre as águas. Ele gostava de ir ali pescar.
O aroma forte do aipo começou a fazer efeito. Um pequeno achigã aproximou-se da queda de baba e rapidamente iniciou a subida. Em cada torção da espinha, em cada golpe de barbatana, escamava um pouco mais a pele luzidia e ficava mais perto da fonte. Num último impulso, esgotado e de olhos em punho, içou-se para a poça calma que se tinha formado entre os dentes e o lábio inferior descaído. Deu duas voltas à enseada, para descontrair, e começou a ratar os restos de aipo entranhados nas gengivas, já a formar barreira. Ali perto, uma angula entrincheirada numa cavidade sisuda esperava o depósito do que andava suspenso. Nas zonas mais batidas pelo catarro as percebes agarravam-se às aftas, debicando a carne viva. A língua passava em vagas por um céu da boca forrado a limos.
Satisfeito, o tolo fechou a boca, guardou o resto do talo no bolso das esferográficas e instruiu um palito na tarefa de recolher os despojos do dia. Aquele era mesmo o melhor sítio, bem no meio da ponte, onde as águas são mais profundas e o peixe miúdo mais vivo.

20121231

Leixões, Matosinhos, Portugal

Anúncio:
Alargamos entradas com tal mestria que até o vizinho de trás das portadas vai ranger “Que boas entradas!”. Cortamos todos os tipos de mal pela raiz, replantamos a raiz do mal em local a indicar pelo cliente, e também disponibilizamos um serviço 24 horas de vigilância de infestantes. Com o passar dos anos tornamo-nos especialistas em contagens decrescentes estando agora muito mais perto de atingir o fim a que nos propusemos. Oferecemos um serviço inovador de remoção de pernas esquerdas (muito requisitado por ambidextros), utilíssimo para dissipar dúvidas de última hora na subida a cadeiras e garante do cumprimento cabal nos mais variados misticismos. Temos carta profissional em todo o tipo de artifício, fogo de vista e material gasificado. Trabalhamos essencialmente o gregoriano, mas dispomos de excelentes fantasias romanas e julianas para grupos pequenos. Recolhemos e destruímos os anos terminados. Sigilo absoluto.

20121220

Câmara de Lobos, Madeira, Portugal

Satisfeito, Presépio contemplou o pinheiral de bacalhaus em toda a sua manjedoura. Gotículas de magos consoavam por entre as festas e os sapatinhos brotavam dos coros, como era suposto. Tudo estava natal e repicado.
“Nada como uma seca abundante”, pensou.
Ponta do Sol, Madeira, Portugal

Um campo lavrado de amarelo. Sulcos curvos de uma regularidade individual ondulam em fuga para o horizonte fechado. De momento, só brotam cabecinhas; todas desiguais, fruto da mão de um semeador disléxico. Bons arados passam pelo meio dos regos afagando os montículos. Isto faz crescer a cultura pelo rodar dos pescoços. É impensável dispensar um bom arado. Há rebentos que, pelo rigor, ostentam ‘cloches’. Outros há que polinizam em redor, soltando cabelos. Os mais débeis atrofiam no solo profundo, soltando guinchos cada vez mais mortiços. São estes que, filtrados pela turfa, nos chegam como lamentos de sarna.
Eis que a estufa cristalina cai, com um estrondo. Os rancos que saltam, maturam logo, mal perdem o toque da terra. Esbracejam os membros que esgalharam em tal instante, recolhendo pertences que os tornarão autónomos, na safra.
Na fase seguinte falaremos da fileira de processamento.

20121027

Barcelona, Espanha

Não me lembro de nada. O que é o mesmo que dizer que tudo me passa pela cabeça.
Às coisas passadas e às pensadas, encaro-as e esgadanho-as na esperança de encontrar uma ou outra entranhada nas unhas. Mas todas me escapam e eu fico a fazer a figura que vejo que faço, e que não é a minha. (Quem é essa, que se insinua?)
Apoio-me numa bengala de risos e vou tocando na vida à minha frente. Pelo caminho não falo com ninguém, mas já não me posso ouvir. Nuns quantos vazios à minha volta construo maciços com as palavras que ainda guardo, as mais fortes, onde depois pouso o que me diz mais. Pelas paredes espalho as mais novas; atrás das portas e ao abrir das gavetas. Assim falam comigo, quando menos conto.
A ausência minha causa-me dor; a minha ausência inflige-a.
Tudo passa.

20121017

Beng Mealea, Cambodja

- Sou eu, a proprietária da abóbora!
O burburinho aninhou-se debaixo do silêncio pesado. Todos os olhares cresceram para aquela voz: os penetrantes, os de soslaio e os cabisbaixos.
Mas até numa plateia agrícola, grassam os gamões. E estes trataram de abafar o assunto.

20121008

Balcões, Madeira, Portugal

Os homens caminham com as mãos atrás das costas, o queixo atrás da barbela, o peito atrás da pança, como uma escadaria. Caminham atrás das mulheres.
Há algo de besouro caído num homem que caminha assim. As mãos entrelaçadas, como numa sombra chinesa que quer à viva força ser tomada por uma pomba, apoiam-se no chão sustendo um corpo maciço, de barriga para cima, de onde esperneiam, vagas, duas pernas e uma cabeça em sofrimento cervical.
Assim se arrastam os dedos, carregando este fardo durante os meses de verão, para terem onde viver no rigor do inverno que chega.
Se perguntarem às mulheres, elas nunca viram isto.

20121007

Cabanas de Tavira, Portugal

Como ria, a areia tinha a língua de fora. No braço de água salgada as boias poisavam como cerejas doces. Sentia-se, no crescendo ténue da enchente, um vazar de terra firme. As embarcações, de variadíssimos portes, igualavam-se no topete com que olhavam a entrada da barra. Os primeiros homens gostavam de pensar que eram ainda os escolhidos do mar, apesar das pernas que arqueavam ao peso da voz rouca e de nunca se terem aventurado para além da segunda margem. A corrente viva, indiferente a quilhas e patilhões, sarava rápido aos cortes de hélice e morria lenta ao toque humano. Aqui ninguém faz pontes, por respeito ao mar ou indiferença à outra terra, que é curta. De qualquer modo as grandes águas entram e saem, fiscalizando o território com cada vez maior descrença.

20121006


Cercal do Alentejo, Portugal

É de manhã. El-rei caminha, em passo quedo, na direção do torreão mais próximo. Tinha acordado com vontade de arejar a pluma. Seguia só, acompanhado pelo Oficial de Toponímia, o Conselheiro de Frivolidades, três aias disfarçadas de valetes e um moço de estrebaria com gadanha até aos dentes.
Do alto do torreão avistava-se todo o reino, mas era mais certo ainda que de todo o reino se via claramente o torreão empinado. As visitas miradoiras do rei raramente passavam despercebidas à plebe, que mergulhava nas suas tocas e carvalhos ocos ao primeiro vislumbre da pluma real.
- Nunca há vivalma, em terra conquistada. - desabafou o rei, pesaroso - É, no entanto, um belo ver.
(“Belver”, tomou nota o Oficial de Toponímia na Real Agenda, “Toda a zona da cordilheira sul até ao bosque das acácias.”)
- Olha acolá, aquela picoteira do monte tão graciosa. E mais além, onde ajoelhamos a S. José, nas matas, depois de termos tratado a peito os valhascos que açoitavam as mouriscas; bem que lhes chegamos a póvoa às meadas. - açorriou o rei já mais bem disposto. - Mais ao sul foi onde cruzamos a água travessa, que nos custou um urro de alazão; lembro-me do Barba Torta, de chança em punho como um terrujo. “Vai a monte”, disse-lhe eu, “Vai a monte, alpalhão”. E tais foram os foros de arrão do vilão que o pusemos em debanda, até ser só um cabeço a sair da vide. - gracejou.
O Oficial de Toponímia não tinha mãos a medir. Folheava a Real Agenda como um eunuco a palma, em dia quente: Picoteira do Monte, Graciosa, S. José das Matas, Valhascos, Mouriscas,...
- No entanto - arrefeceu el-rei - daqui, já nada me chama. Para onde quer que me vire, os meus rodeios são-me sempre banais, as novas conquistas sabem a visitas de tias velhas, tudo me é tão repetido como o ser eu mesmo.
Num misto de enfado e fanfarronice, el-rei O Cognominador, empunhou o seu montante afiado e, Zás!, armou-se cavaleiro. Por falta de cuidado, trespassou-se do trapézio ao oblíquo, o que não deixa de ser uma proeza digna de nota. (“Passamontantes”, apressou-se a escrever o Oficial de Toponímia.)