20160125

Pulo do Lobo, Mértola, Portugal

Devia ser um bicho. Acho... É que mudava de cor e de alma a cada piscar de olhos (e quando se observa algo assim majestoso os olhos piscam como um telegrafista); mas devia ser, um bicho.
Uma vez pareceu-me ver-lhe oito patas incansáveis, duas antenas atentas e um abdómen prenhe de coisas não terrenas. Simploriamente pensei numa formiga trabalhadora, cujo toque muda a vida com que se cruza. Depois ouvi o o canto. Distinto, acutilante e contínuo. Um canto que fazia querer prolongar a noite. Uma cigarra? Um híbrido impossível?
Entretanto morreu.
(Parece que ainda o estou a ver; e a ouvir.)

20151229

Capadócia, Turquia

Exercito-me. Os dados estão lançados. Como o explorador Brito Capelo validei a minha resolução de tomar a viagem. A linha traçada leva-me por Matosinhos sul, invocando paragens quentes e tribos selvagens, hoje colonizadas pela corrosão vista do mar. Dizem que por ali perto se reúnem, algures numa câmara de Matosinhos, pequenas fações de eleitos, congeminando espalhar cultura eclética e boa mesa a camuflar o desleixo das calçadas.
Todas as coisas que passam, ficando-se pelo alcance da vista, tornam-se criaturas de exposição. Existem apenas enquanto coleção catalogada, parque de real sentido, mas sem toque.
Logo após, a nota dominante a Pedro Hispano mistura as dores urgentes e as agonias prolongadas com uma leve fragrância de alívio. Mas nem sempre se a sente. Muitas vezes é-se obrigado a passar do nivelador estádio do mar para um estádio de insensibilidade couraçada. Do tipo que desafia o impensável, que faz manguitos à tormenta; como chalupas de Vasco da Gama.
Mas eis que entra uma força no habitáculo. Uma senhora da hora mágica, do despontar da luz, carregando um pesado fardo de peixe vivo, em morte lenta. De um recipiente salgado a mulher vai-os aspergindo com uma parca bica d’água. Duas, três, sete bicas são deitadas, entre batismo e extrema-unção. Dos mais fracos, dos que ficam sob o peso que enche a canastra, sobe um viso medonho que acorda os estremunhados e leva os pertences a se recolherem mais para o fundo dos sacos.
No horizonte forma-se agora uma cadeia urbanosa de blocos pouco sociais, um Ramalde algo sujo, um dos últimos estertores dos arrabaldes abafados pelo falso civismo. Mas, ainda assim, o coração aquece face aos alinhamentos francos das habitações fabris de outrora. Pequenas e térreas, ostentam ainda um orgulhoso brilho vitrificado. É fácil imaginar cada interior cheio como uma casa da música que só uma família compõe, à chegada tardia do operário.

20151224

Porto, Portugal

O telhado arregalou bem o olho direito e perguntou ao sol “Vês alguma coisa?”, ao que ele respondeu, após cuidadosa observação: “Raios!”.
Matosinhos, Portugal

As últimas cinco folhas apegadas ao esqueleto da tília abanavam a cabeça de desolação e aragem. Tinha acabado de cair a sexta e cada uma só pensava que ainda não estava pronta para sair.
Mas a eliminação é cruel e aleatória; e o público quer ver sangue.
Matosinhos, Portugal

Fui surpreendido por um busto da minha pessoa, erigido num recanto envergonhado de um parque. As linhas do monólito que lhe servia de base eram simplórias, a placa comemorativa, de um bronze-verdete banal e no topo, como ouriço estatelado a revelar a castanha, a minha cabeça, assente numa somítica fatia de ombros.
Mas que raio de tolices me atribuíram, para ser eu empalado desta forma tão soturna? É, com toda a certeza, um equívoco dos mais deploráveis, sendo eu um escriturário de aprovisionamento esforçado por evitar o que quer que seja que revele a minha presença nessa categoria transparente. E nem quero falar na forma ridícula como esse simulacro de escultor me modelou um pescoço praticamente inexistente, colocando o meu duplo queixo com ar de lava arrefecida no socalco.
Mas pior, muito pior do que tudo isto, insultuoso até, considero o facto de não ter sido convidado para o que deve ter sido uma inauguração primorosa, plena de filarmonias, senhoras emocionadas e finos cortes de alfaiataria. O meu próprio busto!… Numa efeméride há palavras que devem ser ditas pelo próprio, figuras mencionadas, agradecimentos e humildades bem apontadas... velhacos!
A custo afastei as trepadeiras que cobriam parte da placa gravada, na tentativa de confirmar o rigor dos dados que a corja de energúmenos atribuiu à minha existência. Nome, correto (dispensava o cursivo arcaico, enfim...), "nascido em", indiscutível, "falecido em ", idem; o serifado em caixa alta será talvez um pouco imperial, para um mero busto de jardim. Agora, convenhamos, aquelas palavrinhas de homenagem, fúnebres e escolhidas a dedo para florear o papel que me foi atribuído desempenhar nesta vida... que desilusão, que desalento! Nem as li uma segunda vez, para não duplicar a minha fúria. Virei-me as costas e jurei que, enquanto fosse vivo, nunca mais voltaria a encarar este recanto atroz.

20151118

Efeso, Turquia

Conheci, assim de passagem, um sujeito de semblante obtuso (mais como o ângulo aberto do que o discernimento fechado) que tinha por hábito tomar nota de tudo o que lhe ia sucedendo ao longo do dia. E quando digo tudo condescendo com a inimaginável enumeração de episódios encadeados na sebenta que enrolava no punho.
Indiferente ao nexo, hierarquia ou verosimilhança, era irredutível quanto ao rigor da sequência. Banalizo-o (e a mim próprio) ao tentar exemplificar esta, digamos, obsessão cronológica pelo ditado, mas a sua nota “Acordei a custo, tal era a força da goma remelenta que insistia em me manter na escuridão.”, nunca viria antes desta outra: “Estava eu quase a ser alcançado pela figura disforme e tão familiar nos meus pesadelos, quando um baque surdo, como o que faz uma velha a cair abaixo da cama, me acordou.”. Ao descer a rua pelo passeio da direita (onde se respirava com menor intensidade a exaustão automóvel) estenografava com vigor e dislexia: “Desço esta calçada íngreme, certo de que a escolha do lado concordante com o trafego insuflará algum apreço ao meu único par de pulmões.”. Num almoço, após destrinçar uma espinha de faneca da garfada iminente, registou: “Foi por um triz! Um mero soslaio fortuito revelou a boa peça que me saiu esta faneca dissimulada com a sua espinha prestes a travar-me a goela.”.
Aconteceu mais tarde, quando tomava notas do entardecer - fazendo algumas referências ao estado preocupante das costuras gastas da sua jaqueta - que o interpelei pela primeira vez. Foi como conversar com um diretor de cena ou um retratista. Cada frase cuidadosamente adaptada ao espaço entre linhas; cada entoação ou tique dissecado em superfície pautada. Aprendi, deste modo gaguejante, a remoer um diálogo. Tive tempo, entre deixas, de repensar todas as veleidades ocas que tendem a escapar entredentes. Percebi a displicência da fala e tornei-me, desde esse dia, muito mais mudo do que antes.
O sujeito lá ia falando, ou melhor, respondendo delicadamente às minhas indiscrições, transcrevendo-nos com naturalidade. Explicou então, paciente, o propósito do seu método.
Recordo-me que na sequência dessa revelação, passei rapidamente de uma estupefação maravilhada àquela irritação provocada pelo reconhecimento da evidência banal. Uma reação que se repete cada vez menos, ao longo da vida, e que tem o dom de nos deixar menores e menos fantasiosos. Como crianças que crescem, e que a cada pergunta respondida com uma aridez bem intencionada, vão perdendo a capacidade do irreal.
O compromisso daquele homem era então o seguinte, digo eu já amargurado e consciente de estar a destruir efabulações: registar cronologicamente todas as ocorrências de algum modo ligadas à sua existência física e os exercícios de raciocínio daí resultantes. Deste modo, praticando com inflexibilidade, ia-se, por assim parafrasear, da lei da morte libertando. Eliminando arquivo morto. Quando inclinava a cabeça para tomar notas, o assunto escorria e gotejava tinto, no papel, sendo absorvido por uma qualquer regra da química que não cabe aqui questionar, uma vez que funciona em favor do exposto. Aliviado do peso da memória, o cérebro suspirava longamente soltando aquele rangido do reformado que se recosta num banco ainda ensolarado. O sentimento de perenidade ficava assegurado por uma consciência limpa. Nesse vazio tudo era novo, vivido com o afeto de uma primeira vez.

20151111

Capadocia, Turquia

Um transporte público. Troncos retorcidos de um borboletário. Recordações de existência rica, solitária. Uma investigação cheia de indiferença. A caixa dedicada a pesos de chumbo fiéis à balança. Torvelinhos de folhagem e fiapos. Portas diferentes em casas sempre iguais. As carruagens ainda sonolentas lembram paixões recortadas de antigas capas adolescentes. A monotonia de um linear é trazida por um carril. Politicamente, o extremo-centro é ubíquo. Música. A frescura em decomposição das ideias imberbes. Barbas diariamente desfeitas. Dias igualmente desfeitos. A paragem tarda. O amor é eterno. A resiliência teima em vencer o cansaço. O enfado dos combinado de moda. Fazem-se deslizar possibilidades com a displicência com que se olha pela janela. As novas e maravilhosas articulações do polegar, esse elemento diferenciador. A condescendência para com a posição de autoridade. O imbecil que sonha, ou que sonha que sonha. A cumplicidade do sol baixo das manhãs de inverno que esconde quem não queremos ver. O ar mortiço das caras iluminadas por baixo. Os olhos que baixam nos ecrãs e esquecem as nuvens de cima. E o redondo das tampas de saneamento, esconde o quê? Há olhos que fogem uns dos outros, num jogo da apanhada. O arrasto dos gradeamentos apaga as trepadeiras que os abraçam. Os sons de fundo tornam-se viscerais e afeiçoamo-nos às vozes gravadas. Há uma tristeza nas luzes que ficam acesas de dia, esquecidas por um desabafo noturno. Cartazes dividem a cidade em tracejados, códigos de cor e tipografias revisitadas. Nota-se o rasto diário do gotejar vermelho da saudade. O espaço a mais e a falta de espaço para o sentir. O suplício da proximidade que se esvazia lentamente. Entre o ânimo e o desencanto, a ida e a vinda, cai o dia.

20151107

Rio de Janeiro, Brasil

Isto é o real, a realidade, o trincar de uma coisa dura como cornos seguida de uma fisgada fina. Depois há-de vir a recompensa - um dia - o esquema que faz o mamífero sofrer as cabriolas do inferno para ganhar um peixe. Pelos escritos (qualquer que seja a cor da capa ou a inclinação da pena) a primeira, a realidade, dura uma vida, a outra, a fantasia, nunca mais acaba. Parece um bom trato, uma oportunidade única; vale a pena investir nisto de ser um afável altruísta e seguir o guia.
E o além? Não o ali mais à frente mas o depois. Um mundo novo e admirável, segundo os que nunca lá estiveram, perfeitamente desconhecido, celestial, nivelador por cima, onde se processa a reforma vitalícia da incansável nova plenitude. Parece que estou a vê-lo, aqui do desconforto desta soleira de pedra. Pressinto que tenha um mar sem ondas, areia morna que se molda a qualquer desejo, um ou outro caranguejo de casca mole intrigado por fazer parte da cena, e tudo isto num prado sem socalcos ou sobressaltos, como seria de esperar. Não fosse o desconforto desta caleira - exímia atiradora, diga-se - que insiste em apontar a sua pinga gelada à fresta entre o colarinho e a última madeixa de cabelo, quase sinto o calor solto pela terra deste mundo tão igual à minha fraca imaginação.
Mas,… e se esta é a segunda parte da história, numa versão invertida? E se este agora é, afinal, o depois? O resultado de uma deliciosa existência anterior, de uma interminável juventude etérea, que chegou ao fim? Andamos a flutuar num estado de êxtase durante sabe-se lá quanto tempo, muito antes do real ser ele próprio, tivemos todos, sem exceção (que é coisa desconhecida da perfeição) uma existência de epifanias múltiplas, e agora acabou-se e estamos todos aqui, com as unhas dos pés bem cravadas numa terra que espera paciente a nossa decomposição anunciada? Como o coitado do projecionista confundido pela modorra, que exibe primeiro a segunda parte da história, onde todos viveram felizes para sempre, e depois termina com a projeção do início da saga onde tudo são tormentos e desilusões (aquilo que forja o herói pronto a revelar-se na segunda parte), deixando no ar o abrupto do interrompido.
Confirmando-se esta efabulação de um louco, então por certo que todas as histórias coletivas de um estado eterno são antes memórias turvas, deslocadas, mal catalogadas por alguém displicente. Os livros não seriam mais proféticos, mas saudosos memoriais dos últimos dias, escritos como relato até ao momento em que se instalou o êxtase da felicidade. A partir daí mais ninguém se deu ao trabalho de registar em ata, de manter a coerência histórica. E para quê, perguntariam com razão. Só escreve quem sofre. O satisfeito esfrega as mãos vigorosamente, como quem faz lume, e olha em redor com o único intuito de mostrar a sua expressão de regozijo.
O que sentimos neste momento, no absorver diário desta vida esperançosa, é como admirar a imagem de um belo vaso cerâmico, sumptuosamente decorado com volutas e trinados celestiais. Imaginamo-nos um dia como os orgulhosos possuidores que o contemplam no salão, rodeados por um nevoeirozito de fina inveja dos ilustres visitantes que, falseando um interesse pelo estado da nossa saúde de ferro, ali vêm deixar uma lágrima salgada. Na realidade, esse vaso já o tínhamos desfeito em mil pedaços quando em crianças desobedecemos com uma bola de couro ao cinto ameaçador de um educador severo. O sonho da peça é um mero caco perdido nos escombros da infância, um estilhaço cravado bem longe de qualquer bisturi.
Que desarranjo, se assim for. Quantos inconvenientes isto irá causar a quem atear esta ideia, nos seus planos de conduta. É certo que os locais de culto darão belíssimos museus, cheios de recantos para os ecos do sussurrar. Quanto ao resto, ao que está escrito, é tudo uma questão de mudar, aqui e ali, o tempo do verbo.

20150212

Brufe, Terras de Bouro, Portugal

Refletido no ecrã da televisão apagada, o familiar torna-se soturno. As polegadas marcadas no vidro são o único sinal de contacto. O maple é ali um ditador empanturrado, com a manta de pelúcia por guardanapo. Não se destrinçam rostos. Todos são igualmente vultos e amortalhados. O programa é desolador. Em vão se tenta mudar de canal quando é retirado o poder de comando.
Pouco a pouco a mística da habituação instala-se e toma conta do raciocínio. As costas curvam onde não devem para se acomodarem ao inevitável. No ecrã moribundo continua a passar o reflexo de uma vida banal, sem inquietações, desfocada e plana. O espetáculo da vida irreal, seguido com um afinco cabisbaixo.
Este ócio rombudo cria espaço para pensar em coisas. A cabeça tomba e esvai-se num fio, enquanto a vida toda passa diante dos olhos... e pára, a retribuir o olhar.

20150119

Vale Seco, Alentejo, Portugal

O fiel tinha um feitio vertical. Se, por um lado, lhe pesava a consciência, por outro diluía-se a ver pacotilha da boa, na televisão. Amiúde carregavam-lhe um ombro com sacos de serapilheira cheios de arestas. Mas mesmo antes de cambalear, inclinava a cabeça para o outro lado e deixava nascer uma coisa nova, cheia de piada e ainda por embrulhar. O fiel era gingão mas equilibrado, apontando sempre para cima (nada de confusões com um metrónomo entediante).
Acontece que nestes últimos dias andava com uma sensação de mola lassa. A verticalidade a dar-se ao queixume. Começava a habituar-se a apontar em ângulo, como que esquecido do contraponto. Uma pontinha de ferrugem calcinava-lhe já o mecanismo.
"Isto não nos parece nada bom.", diziam.

20140723

Pamukkale, Turquia

Entre as coisas boas há um espaço. Uma estrada, com campos iguais dos dois lados. Terra arada, trigo seco e postes. Um som monocórdico de coisas repetidas passa continuamente pela janela de cada um, trazendo imagens de monotonia e cansaço. De vez em quando um camião caído na berma, um aceno fugaz ou uma coluna de fumo negro, soltam exclamações que logo ficam para trás.
A estrada parece não acabar nunca. A memória da última coisa boa começa a esfarelar e deixa um rasto de migalhas secas a que os corvos chamam um figo. Em vão se tenta encontrar o caminho de volta a essa coisa que sonhamos ter sido boa.
A espera que se vai amontoando faz doer os músculos e o corpo torna-se um lugar desconfortável. Anseia-se pela próxima coisa boa com tal intensidade que não se dá conta do tempo que se está a desperdiçar. Vive-se, entre uma lembrança fosca e um desespero de futuro, um tempo de envelhecimento. Vive-se assim até ao momento em que a próxima coisa boa não chega. E a espera acaba. E o corpo deixa de doer.
Barcelona, Espanha

O rapaz tinha a cabeça a rodopiar, de tão rápido que subiu pela árvore acima. De cada lado, considerando que uma árvore tem apenas dois lados, aproximava-se um tigre. Para o rapaz isto era o suficiente para lhe estragar a vida, uma vez que tinha 18 tarefas a cumprir.
Mil e uma ideias giravam-lhe na cabeça, que rodopiava. Para os dois tigres isso era-lhes indiferente. O mais velho, que trazia as certezas de uma vida de experiência, podia esperar para sempre pois sabia que nada podia mudar o que sempre aconteceu. Ao mais novo, de uma curiosidade infinita, nada o faria arredar pé até perceber o que iria acontecer ali.
A cabeça do rapaz rodopiava de tal modo que todo ele se sentia às voltas. Receoso pela sua vida, agarrou o ramo de cima, com a mão direita, apoiando-se num ramo mais baixo, com a esquerda. Tão pouco ele sabia que quanto mais pensava nele próprio mais descurava a noção fundamental de que a sua vida dependia inteiramente da robustez e da perenidade da árvore em que estava empoleirado.

20140320

Matosinhos, Portugal

A praia como que arqueou uma espinha dorsal. Imaginem-se meia dúzia de pastores berberes - quase não os vemos de tão dissimulados que são - a encaminharem uma fiada longa de indolentes dromedários. Bossas e corcovas, corcovas e bossas. O horizonte ficou todo desalinhado. O mar, qual castor cauteloso, empurrava em direção à praia todo o tipo de galhos, recipientes e redes, tentando criar um dique ao topete das dunas.
Os montículos de areia pareciam intransponíveis para os olhos cansados de quem os observava da esplanada. Mas não para as crianças. Cansadas de ver os seus escorregas com a distância de uma perna, os baloiços asfixiados a esbracejar as correntes, os cavalinhos do balancé como pequenos monstros do Loch, trepavam pela falsidade destas dunas e lançavam-lhes arpões, ao longo dos seus costados. Era admirável ver estes pequenos heróis resolutos, tão seguros da sua praia, do seu lugar. Inquietos e nunca quietos, como tudo deveria ser.

20140209

Matosinhos, Portugal

A Fina, a Maria Casota, o Tone Tarré, o Caga Nel, a Alice Tremoceira, a Maria Caniveta, o Zé Foguete, o Chico Caramelha, a Micas do Pucho Grande, o Quim Chaneta, o Alexandre Nevoeiro, o Dá Pão, a Mulher Aranha, o Mata Toninhas, o David Espanhol, a Micas do Pito-Doiro, a Lola Vila Cova, a Maria Perceveja, a Maria Fumega, o Albino Casota, o Morcela Sapateiro, o Conceição do Polícia, o Ti’Riscas, o Virgolino Taineta, o Tone Manco, o Álvaro Riscas, o Manel Vila Cova Bicho, o Tone Fortuna, o Torrilho, o Toninho da Brasileira, o Tarrafa, o Zé Caravela, o Rifão, o Zé dos Gatos, o Ti’Fim da Naviça, o Quim dos Gatos, a Rosa Penisca, o Carlos Remelgado, a Margarida Manquinha, o Serafim Dentinho, a Carolina do Malhão, a Mena Viçosa, o Cangalhas, o Escamado, a Rosa Casebre, o Chico Facas, a Micas do Cigau, o Clemente Polícia, a Idinária, a Adriana Palhaça, o Penegia, o Tibi, o Zé Avança, o Chico da Aguda, a Gina Barriguinha, o Mário Sabeler, o Cartucho, o Camilo Dente de Ouro, a Guilhermina Rata, o Joaquim Pipa, a Carga de Ossos, o Xixo Granja, a Ti’Rosa Barbuda, o Ti’Hernâni Fanata, a Ti’Rosa Cuca, o Maganinho, o Zé Lulo, o Caramelha, o Rodosindo Rajão, o Zé Batota, o Eduardo Maresia, o Jaca, o Domingos Lamarão, o Barata, o Reguengo, o Patela, a Albertina Maganinho, o Inocêncio da Cunha Folha, o Vinagre, o Rói Orelhas, o Manuel Carapuço, a Irene Valvoeira, o Raúl ‘Cata-Conas’, o Rema Cocho, os Penisca, o Ti’João da Mulata, a Artura, o Ernesto (o Perigoso), o Felisberto Moucho, a Canzona, a Henorina Samuela, o Tone Marenteiro, o Chilha, o Teófilo Minhoto, o Tone Picado, o Ti Gigas, a Ti Luísa Cerguilha, o Delfim de Pinho Branco, o Lázaro Alfaiate, o Albano Fumega, o Manuel Fuma, o Ti António Paroleiro, o António Pirecas, a Daviana, a Elvira Muda, o Zé do Bendito, o Ti Alfredo Garrafinha, o Ti Purgatório, o Laranja, a Ti Rosa Tota, a Ti Bina Santos, a Mila Ramona, o Quim Changai, a Ti da Hora Cebolas, a Fernanda do Vento, a Ti Desterra, o Inocêncio Rato, o Chinchinha, o João Côca, o Lopes Poeta, o Liras, os Gruas, o Tone da Melindra, o Mata-o-Preto, o Caralinda, os do Diabo, as Fragateiras, o Francisco Carangueja, o Serafim Saragoça, o Maravalhas (Agonia da Pintada), a Ti Maria dos Olhinhos, o Óscar Fangueiro, a Graça Garrana, a Joaninha de Lavra, o Ti Ramiro D’Aluai, os Chatinhos, os Mil-Homens, os da São Benta, o Manuel Marafona, a Infância Gomes Remelgado, a Antonieta Cheta, o Chico Banheiro, o Dolmundo, o Tone da Zagala, o Dagomar, o Nocas, a Felisbina, a Zulmira Festas, o António Preu, o Perinha, o Chico da Afurada, o Alfredo Salapata, o Sete Tijelas, o Quim Folhetas, o Gravatinha, o João Buca, o Ti Libório, o Harmengado Lucas, o João Rei Bandalho, o Ulpiano Nascimento, o José Cheta, o Zé Bife, o Quim d’Americana, o Taineta, o Cancujo, o Virgolino, o Valongueira, a Zaura, o Zé Cartola, o Gavina (Ti Moreno), o Tomás Bicho e a Anna.
Todos se encontram na zona da Maré. Descem a ribanceira a trocar os nomes que só são de cada um. Foi lá que me passaram pelos olhos.
(uma recolha inspirada no livro Uma Praia d’ela, do NAPESMAT)

20130909

Camden Town, Londres

- Tum-tum-tráa! Tum-tum-tráa!
O coração do baterista quase lhe  saltava do peito, ao ressoar das peles. Todos os pezinhos destros batiam em uníssono, acompanhados por uns quantos canhotos, num Dominium Theatre completamente esgotado. No palco, uma história apaixonante de amor pela música passada num futuro distante. Na plateia, uma história apaixonada de amor pela musa, acontecia no presente.
O virtuoso baterista, acompanhado por uma chef de requinte, estava visivelmente emocionado, conquistado por muito mais do que o estômago. A boémia dos últimos dias, a rapsódia de sabores e odores por onde tinham rodopiado, tinha deixado marcas fortes numa relação em crescendo.
Ainda no dia anterior, depois de revolvidas as terras férteis de Covent Garden e exorcizados os anti-cristas de Camden Town, comungaram à mesa itálica de um britânico onde pontuavam as olivas. A experiente chef desfazia-se em sabores, mas perdia a mão ante a velocidade a que o peito batia. As mil e uma maneiras de preparar o pitéu encavalitavam-se de tal forma, que o resultado era um verdadeiro prato de choque. Mas o bom gosto saía sempre ileso da escaramuça. O baterista, um perfeito estarola mas também um incorrigível romântico, podia devorar timbalões de conduto que ficava sempre com um travo de paixão entre os lábios. Um caso de pão e manteiga, sem dúvida nenhuma.
Thunderbolt and lightning! Assustador. No teatro, com a multidão ao rubro, os dois lançam-se em delirantes efusões de alegria, movendo-se como um só. Naquele mar de corpos, navegam como figuras de proa. Os cânticos são memoráveis e todos os sabem de cor. Não sendo iniciáticos, fazem passar ao nível seguinte. Ambos sentem que o ritmo é, agora, comum, e o gosto mais apurado.
Um verdadeiro espetáculo acontecia ali. Chamava-se qualquer coisa como "You will rock me".
Ilha da Madeira, Portugal

Há matérias extremamente combustíveis. Substâncias que exigem um manuseamento cauteloso. Qualquer decoradora capaz, como aquela sobre a qual nos debruçamos agora, incluiria nesta categoria as organzas, os tafetás, o teixo seco, o papel machê e os corações soltos. Quando perto destes materiais há que usar da máxima prudência no que diz respeito ao despoletar de faíscas. Sob o risco de perdermos o controle das nossas vidas.
Ora, como toda a gente sabe, um comentador televisivo, habituadíssimo a opinar sobre assuntos do foro alimentar, passa ao lado destes assuntos altamente inflamáveis. Figura pública e habitué dos media, destila confiança quando aponta o dedo ao refogado ou aplaude uma sopa bem feita. Mas em tertúlia, em amena cavaqueira, e quando a temperatura sobe, tende a desvalorizar os vapores etílicos da componente alcoólica de uma sangria, esquece o quão fervilhante uma cantiga se pode tornar, e lança até, pobre inocente, ocasionais lampejos.
Foi exatamente isso que acabou por acontecer, nessa noite, em Vermoim. O discurso inflamado do incauto comentador, induzido, certamente, pela envolvente altamente estética da presença da decoradora, só não resultou numa desgraça, devido à providencial existência de um magnifico espelho de água no local, que arrefeceu os ânimos.
No rescaldo, apurou-se que a centelha não esmoreceu. Pelo contrário. Lançou-se em rastilho artesanal, alimentada pelo bombear daqueles dois corações quentes, atravessando uma vasta feira de emoções.
E a coisa não ficou por aí, como juram a pés juntos várias testemunhas oculares, ouvintes atentos e outros fulanos e sicranos, possuidores de narizes extraordinariamente farejadores, que usualmente acompanham as vidas mais interessantes do que as suas. Foram assinaladas algumas labaredas fulgurantes a iluminar os vetustos jardins do Mosteiro de Tibães, originando uma tal desordem Beneditina que até o protegido azevinho e a bela aveleira se ruborizaram, deleitados.
Mais tarde, nesse dia, num recôndito ristorante italiano, ouviu-se um pedido sussurrado. E não foi pela suculenta lasagna nem pelo doce tiramisú.
Falésia, Albufeira, Portugal

Das terras de Olhos d’Água erguia-se uma colossal falésia, abrupta e amarela, que só sossegava nas costas de Rocha Baixinha. Pelo caminho, este muro sem vergonha separava as areias dos pomares, as serras das dunas, as gentes das ondas. De uma falésia assim, não se pode falar sem baixar um pouco a cabeça, em respeito. Só um punhado de tolos a sobe apenas como miradouro. Quem a acompanha ao longo das suas corcovas e fendas, de coração puro e vista larga, é que vive verdadeiramente.
Sem nos afastarmos muito da narrativa, aproximamo-nos de um dos trilhos que penteia este maciço altaneiro para observar cuidadosamente o personagem que aí recupera o fôlego.
Pelo traje cingido, alvíssimo, identificamos um nobre ciclista montado num poderoso cavalo negro. O suor escorre lentamente pelos flancos metálicos da montada. Quem ousasse levantar os olhos, lá de baixo, ficaria cego com o brilho raiado de dois sóis. Um sorriso dança-lhe nos lábios secos e as narinas dilatam ao odor das alfarrobas; não tanto pela sensação de vitória como pela de comunhão.
Mais adiante, ainda fora de vista, contornando a chusma de figueiras, saltando a grade ferrugenta e logo após o aluimento da arriba, alguém se aproxima em passo corredor. É, nada mais nada menos do que uma professora a aprender estoicamente os caminhos da erosão. Resoluta, decora os relevos e disseca cada tronco seco, enquanto dá notas de dificuldade a cada inflexão de rumo. Mas a falésia, caprichosa e ciumenta, estende-lhe um ardil. Lança-lhe paisagens magníficas ao mesmo tempo que a surpreende com ramos baixos; sopra-lhe odores doces e inebriantes enquanto a rasteira com raízes espinhosas. Tudo isto a professora assimila e resolve. Mas a luta é desigual, a falésia imensa e a criatura humana frágil.
Uma simples depressão, no terreno, uma fendazita recém-aberta engole a carne viva, torcendo o pé de apoio. Uma aguilhoada dolorosa atravessa-lhe o corpo, soltando-se pela língua num grito desmaiado. O corpo inerte rola por entre as estevas até uma poça de areia fina banhada pelo sol. Ali fica, sem sentido.
Uns instantes depois, numa semi-inconsciência, sente uma sombra a refrescar-lhe a pele e o corpo a ser içado para a estabilidade de um colo firme. O suave movimento rolado do alazão fá-la abrir os olhos. Na segurança de um abraço forte, a cabeça pousada no ombro do ciclista, a professora vê a falésia derrotada a ficar para trás, fugindo dos dois, numa velocidade furiosa.
Pulo do Lobo, Mértola, Portugal

A Praça da Cidade Velha movia-se com a precisão de um relógio. Uma quantidade astronómica de pessoas desfilava pela neve em círculos aparentemente aleatórios, marcando a cada passada silenciosa e a cada encontrão respeitoso um compasso da batuta do tempo, esse velhaco.
Um observador mais atento à minúcia, digamos, com predileção por mecanismos e automatizações, podia-se deleitar a constatar, do alto da torre, quatro tipos de tempo: um tempo comum, como aquele que é gasto por um assobiar de mãos nos bolsos ao chutar uma beata, um tempo boémio, de vagos contornos formados pelo adensar dos vapores etílicos na escuridão, um tempo variável, que é aquele que nos diz o velho semeador ao olhar o céu, e um tempo estranho, como quando nos querem impingir o que demora a chegar até outra galáxia, como se existisse tal coisa medonha.
Ora esse mesmo observador, chamemos-lhe Orloj agora que temos alguma intimidade, iria certamente intrigar-se e tamborilar os ponteiros, ao aperceber-se das duas figuras que acabavam de entrar na praça.
Uma delas, esguia e altiva como a numeração romana, era certamente bailarina; as marcas que deixava na neve soavam a redemoinhos e ondulações tranquilas. Tinha até o seu próprio tempo, o que era inclassificável. Quem se acertasse por ela, perdia a noção da realidade, quem teimasse em dar corda ao siso nunca lhe poria os olhos em cima.
No entanto, esta figura à parte, e por motivos que nem Mikulas de Kadan seria capaz de estruturar, estava secretamente ligada a uma outra. Estudando com instrumentos próprios, reparamos que, nos seus volteios elípticos pela praça, esta bailarina formava um padrão de rigor centrado numa figura circunspecta que caminhava em passo sereno. Pela naturalidade da postura, corte do sobretudo e traça do nariz, podia-se afirmar, sem risco, que estávamos na presença de um nutricionista.
O seu olhar calmo denotava a confiança num plano elementar, mas a cada corrente de ar perfumado, as suas tabelas confundiam-se, os horários sobrepunham-se e um exame mais aprofundado indicaria claramente uma falha no metabolismo. Indiferentes a estas questões intemporais, as pessoas continuavam a desfilar.
Nisto, o galo cacarejou. Era chegada a hora cheia. Todos os olhos se levantaram para o desfile dos 12, numa confluência dos quatro tempos.
No meio de tantos, de olhar perdido, apenas dois se encontraram.
Portel, Évora, Portugal

O corredor nada vigorosamente pelo mar de gente que enche a Route de Suresnes. De vez em quando uma vaga de suor bate-lhe contra o peito, travando a passada certa com que vem atravessando a cidade engalanada. Não fosse o bolso interno dos calções picar-lhe os quadríceps sempre que alça a perna direita, podia considerar-se o homem mais feliz do mundo.
Do outro lado da multidão as coisas correm bem mais devagar. Uma maratona de compras escorre lenta como lava pelas montras da Avenue Foch. A empresária abre caminho, atenta às oportunidades da capital luminosa. As mãos frias lembram-lhe o esquecimento das luvas na mesa atafulhada do ‘Le bar à Champagne’, quando saiu disparada, sem saber muito bem porquê. Assim, vai dando palmadas nos sobretudos felpudos à sua frente, abrindo caminho e ativando a circulação.
Próximo do fim do calvário o corredor tropeça e - cruzes! - quase cai redondo no chão. Valem-lhe uns reflexos ímpares e uma guinada na coxa para o espicaçar de volta à prova. À sua volta o túnel de algazarra adensa-se e os adversários rareiam. O coração apertado parece explodir ao vislumbrar o fim da provação. No entanto, sente que a prova não termina naquele traço na estrada. Sabe (o inexplicável tem destas coisas) que tem de ir mais além, se quer aliviar o coração, e a coxa.
A empresária arregalou os olhos. Por instantes pareceu-lhe ver uma oportunidade interessante, alinhada no vazio criado pela movimentação das cabeças. Por instantes apenas, logo engolida pelo ondular das gentes, que abrandava, formando uma parede ruidosa. Habituada a ultrapassar as dificuldades, aninhou-se atrás de um casal nórdico, deu um impulso, rodopiou por entre dois casacos de marta-zibelina e um polícia distraído, saltou graciosamente sobre uma grade amarela, acabando por aterrar numa imensa clareira, junto a um traço forte no chão.
Esgotando as últimas vidas, o corredor ultrapassou a própria passada num anseio poderoso de ir além daquela meta. Mas no preciso momento em que a calcava, algo de extraordinário aconteceu; uma daquelas coisas que marcam, essas sim, o final de uma provação. Através daquela massa humana que gritava, irrompeu, enérgica, a mais extraordinária criatura que jamais tinha visto. Ofegante e suado, ante tal recompensa, caiu de joelhos sentindo uma ferroada no músculo. Levou a mão ao bolso e retirou de lá um magnífico anel que brilhava quase tanto como os olhos da empresária.

20130906

Ilha da Madeira, Portugal

Hoje distraí o gajo sisudo com umas azeitonas temperadas. Passei uma palheta ao calmeirão enxofrado que me fazia a vida negra, e o homem caiu de fuças num jasmim perfumado. Havia ali um sacana dum tristonho que não me largava; acertei-lhe o passo com um trautear alegrete. Quando confrontei o sujeito problemático com uma rabanada de vento leste, ele lambeu os beiços e não disse mais nada. A um canto lúgubre estava o tal fulano amuado; foi só mudar o registo para um canto mais do tipo ‘barbershop’ que ele traçou logo um desenho mais animado. Recostados no murete amarelo, um grupo de tratantes com a mosca franziam as sobrancelhas. Mas nada que uma boa depilação com cera de abelha não resolvesse. Saíram dali a sacudirem-se, levezinhos.
Dei por mim sozinho. Que agradável.

20130904

Funchal, Madeira, Portugal

O carreiro de formigas seguia ordeiro, como uma lombriga preguiçosa. Uma fila para lá, uma fila para cá, aqui e ali uma cerimoniosa marrada, enfim, tudo o que uma sociedade funcional e acomodada poderia desejar. Nunca faltavam belas migalhas a fazer vergar os costados das laboriosas. Que contentes insetos, que enorme felicidade enchia o peito destes seres insignificantes.
De vez em quando, um galho em forquilha caía de um carvalho próximo, entroncando o trilho; outras vezes, um seixo liso e intransponível testava a progressão do carreiro. E houve aquela vez - assustadora! - em que se depararam com uma duna de cal viva quando tentavam subir ao muro, pela tangerineira. Em momentos como estes, as formigas, tenazes, enchiam-se de submissão, baixavam ainda mais a cabeça e passavam ao largo do problema. Era uma vida perfeita, admirável.
Um dia, alguém com uma mentalidade infantil, alguém cruel e galhofeiro, pisou deliberadamente e com grande violência, o meio do carreiro. Duas fileiras destes belos seres foram imediatamente consumidas pela pressão, numa área correspondente a uma sola. Nas imediações, num perímetro de cerca de sete centímetros, voaram corpos aos pedaços, atingidos pela onda de gravilha. Daí em diante, e ao redor, foi o caos total. A compostura, a ordem e a beleza da simplicidade deram lugar ao aleatório, o que, como todos sabemos, conduz ao fim da civilização. As filas de formigas entraram em movimentos de enxame, induzindo o pânico em esquema de pirâmide. Rapidamente, o que era antes uma sociedade ignorada, de tão enfadonha, passou a ser referenciada como vergonhosa, por uns, e repentinamente apetitosa, por outros.
Enquanto o pé ali ficou, ameaçador, o comportamento destas formigas, que sempre tinham evitado o confronto com grande sucesso, foi o pânico organizado, a abnegação como cartilha e o lamuriar pelos cantos. Esta nova postura inflamou pelo carreiro de tal maneira que até as formigas de longe, ignorantes da situação esmagadora, passaram a comportar-se como ratos.
E, afinal de contas, era tão fácil terem trepado pela perna acima, em fila indiana, e quebrado o sujeito com irritantes comichões.

20130720

Esna, Egipto

O cavalinho de pau era um santo. Bem empalado numa mola vermelha, tinha já orelhas de coala, de tanta cavalgada. No entanto, a dor era de somenos importância, face à humilhação. Tinha-se tornado - tornaram-no! - no equídeo mais indeciso do mundo. Sempre que decidia avançar numa certa e determinada direção, algo, ou alguém, o forçava no sentido contrário. Quando acedia em recuar, logo o esporeavam num ataque decidido. Isto repetia-se até à exaustão.
No início ainda culpou a mola vermelha, mas, sabia-o agora, esta era apenas um pau mandado de quem o montava às cegas. E havia-os de todos os tipos. Aos mais pequenos e leves de espírito ainda resistia, agarrando-se ao horizonte com firmeza. Mas os maiores e mais pesados, ah!... a dor, o sofrimento; vergavam-no até vislumbrar uma nesga de céu limpo, lembrando-lhe o empinar nos prados do planalto, para, de imediato, lhe afundarem o focinho numa areia abafada. No dorso, tinha uma sela de suor. Que suplício tão tolo.
Na altura certa (talvez um pouco cedo demais) foi canonizado e empalado num altar.
De vez em quando, sente saudades de uma vidinha mais agitada.