20100814

Ilha da Boa Vista, Cabo Verde De labaredas ao vento, o jovem fogacho lavra em terreno seco. Nivela a mata suja, espalha brasas e lança mancheias de cinza escura. Ao longe, um homem descobre o fogo e desata a gritar e a gesticular, reunindo um grupo de gente, também ela, muito excitada. De balde e ramos verdes, a multidão cerca as chamas, açoitando-lhes os calcanhares enquanto, no calor da refrega, alguns mais afoitos desatam a urinar-lhes nas plantas dos pés. O fogo, suado, fica pasmado com esta falta de consideração. Ainda há pouco um destes escaravelhos o tinha ateado e instruído das terras a lavrar, e agora cortam-lhe as vazas e mijam-lhe em cima. Acossado, aproveita uma rabanada de vento e trepa pelo eucalipto mais alto, erguendo a sua tocha, em desafio. No horizonte, um bombardeiro d'água aproxima-se, de tanques cheios. A língua do fogo seca e uma nuvem de faúlhas zomba em seu redor. - Que pena não ter trazido comigo uma daquelas camponesas roliças que dali esganiçam. - pensou, empoleirado no alto do eucalipto, enquanto batia com os punhos no peito. - Dava uma bela alegoria.

3 comentários:

João Menéres disse...

Magnífica imagem, RUI!

Sugiro que coloque o seu PERFIL no alto do sidebar.

Um abraço.

Angela disse...

Seus textos crescem e se aprimoram a olhos vistos. Belíssimas analogias.
um prazer ler.

gabriela r martins disse...

regresso de férias e ,ao fazê.lo ,retomo a leitura diária dos blogues do meu contentamento .nem sempre comento ( óbvio! ) mas todos os dias retenho ,um pouco mais ,de vós....

...e ,mais uma vez ,fico a ganhar



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um beijo