20101011

Petra, Jordânia Anson, o gato que atravessa paredes, pouco se importa com um mundo feito de biombos, como este. Não por ser um bicho etéreo, mas sim porque as frinchas de horizonte não lhe despertam interesse nenhum. Eu cá já não sou assim. Cansa-me o andar de centopeia, não suporto o contra-picado e abomino as cenouras. Vou-me aos socalcos, montesino, e arfo até ao promontório seguinte. Acima de mim, nada! Um destes dias acordei deitado e tive consciência das camadas de coisas que se amontoam sobre a minha cabeça. O coração disparou e um cheiro a pólvora seca forrou-me os pulmões. Levantei-me de um salto, galguei os dois lanços de escadas, subi a credência e icei-me, pela clarabóia do tecto, para o forro do telhado. Com apenas uma fina camada de telha francesa sobre mim, a pulsação baixou consideravelmente. Para subir à cumeeira desloquei 3 telhas e uma omoplata. Demónios! No céu, zombeteiras, nuvens densas empilhavam-se, num tecto baixo. De cabeça perdida, lancei-me pela chaminé acima, patinhando a parabólica até me enlaçar despudoradamente no galo forjado do cata-vento. Depois, lembro-me apenas de uma forte rabanada de vento fazer girar a seta do norte de tal forma que o sul me atingiu em cheio na cana do nariz. Estava prestes a ficar com um daqueles maus humores que duram a tarde inteira, quando comecei a subir com uma facilidade estonteante. Vi a minha ridícula figura montada no galispo do telhado, a casa, o quarteirão todo, os arredores e até as curvas disparatadas do rio. Ah, a felicidade. Estava mais vivo do que nunca.

2 comentários:

Dylan disse...

Sem palavras. Magnifica Jordânia!

ângela f. marques disse...

Aposto que lá de cima, vivinho da silva, conseguiu vislumbrar um tal Leo, cabisbaixo, sentado na borda da cama, à espera de uma encomenda que nunca mais chegava.

:)))

Um abraço, Rui